Domingo, Agosto 15, 2010

At Home.

Em “casa” há algumas semanas e até sabe-se lá quando.

É a primeira vez que chego sem passagens de volta compradas, o que talvez seja sintomático. Por um bom tempo, enquanto ainda estava do lado de lá, tive sonhos recorrentes com a velha casa onde cresci, ou em que estava indo a lugares que só existem na minha cabeça e enquanto durmo. Sonho com eles sempre, sei exatamente onde ficam, mas eles não existem nessa localização na vida real - pelo menos não da forma como aparecem nos sonhos. Sempre estou excitada pela chegada, que nunca se concretiza; ou então desperto assim que chego. Droga.

Eu daria um braço para estar, acordada, por quinze minutos num desses lugares. Algo me diz que eles significam LAR num sentido mais profundo do que consigo compreender. Sou extremamente apegada a lugares e coisas, mais do que a pessoas. Esses do sonho estão além do meu alcance (por ora?), e durante essas semanas tenho me contentado com lugares tangíveis, onde posso estar fisicamente.



As fotos do post passado parecem ter causado estranhamento a algumas pessoas, porque recebi perguntas curiosas a respeito da escolha das locações. Eu não escolhi a dedo as coordenadas geográficas das imagens; escolhi lugares onde queria estar, e as fotos foram apenas consequência. :) Alguns até questionaram a presença da Baixada Fluminense entre elas. Que, pelo jeito, só devia mesmo servir para fornecer escravas mestiças para madames da Zona Sul e um destino para o lixo produzido por lá - e fazer a gentileza de inexistir no resto do tempo, que ninguém gosta de sequer pensar que pobres existem, quanto mais ser obrigado a olhar para eles. Falo sem mágoa. Foram mais de duas décadas na região, convivendo com a ironia e o desprezo de quem teve a "sorte" de ter nascido em (ou relocado para) outro endereço supostamente mais refinado. Me acostumei tanto que parei de ressentir, especialmente quando me caiu a ficha de que aprendemos a gostar do que nos é familiar, ponto. Mas sempre valorizo a atitude de quem se abre para novas experiências, não tem medo de se surpreender com o desconhecido e quer sempre se expandir, se ampliar, ao invés de se limitar trancando-se numa casquinha de segurança questionável e se privar de experiências que podem dar uma sacudida na própria percepção do que seja Belo.





Não costumo glorificar pobreza porque venho de um lugar onde ela me foi esfregada na cara a vida inteira; a convivência trouxe familiaridade e, portanto, falo mal dela sem remorso hipócrita. A pobreza é feia, cheira mal às vezes (experimente morar numa casa de um só cômodo e fritar bife no mesmo lugar onde suas roupas ficam guardadas) e pode ser violentíssima, não só no sentido "guerra civil" da coisa. Quando nos mudamos para a casa onde passei a infância, havia um projeto de favela logo atrás. Como os moradores passavam por dentro do nosso quintal para cortar caminho (deixando para trás lixo e às vezes jogando-o dentro da nossa casa, se encontrassem janelas abertas), achamos melhor erguer um muro, que também serviria para proteger a casa e evitar que nossa cadelinha fugisse. Eles nunca nos perdoaram por isso. Quando o tal muro desabou, durante uma tempestade de verão uns seis meses depois de ter sido erguido e quase matando minha mãe no processo, esses vizinhos desceram a rua cantando "O Muro Caiu! O Muro Caiu!" enquanto informavam alegremente a todos que minha mãe havia morrido soterrada (por sorte, um exagero). Nenhum deles foi ajudá-la enquanto ela se erguia do meio dos entulhos e da lama que desceu junto com a enxurrada. Eu nunca os perdoei por isso.







Mas a minha cidade não merece ser definida pelo ressentimento econômico de parte de seus habitantes, nem pela miopia social de quem nunca sequer pisou nela. E é por isso que, embora hoje eu esteja no que é considerado o "melhor bairro" da região (haha) e passe boa parte do meu tempo no Brasil me divertindo pela capital e visitando pessoas que não moram aqui, ainda gosto de perambular por vielas que me lembram a infância. Para ver as crianças jogando bola descalças e vestindo roupas descombinadas, ouvir a buzina do pipoqueiro da tarde, o cheiro do jantar pronto através da janela aberta das casas em cujas calçadas as tias fofocam, os moleques ralando joelhos em quedas de bicicleta compradas no ferro velho, os muros pintados com cal e corante, que descascam logo dando aquele aspecto levemente decaído que sempre me atraiu, as meninas do subúrbio passeando de shortinho e havaianas, os meninos do subúrbio com camisetas de marcas desconhecidas de surfwear de pé na esquina combinando o fim de semana nas praias da Zona Sul (para desespero dos que pagam IPTU alto pelo direito de viver longe deles). As feirinhas dominicais, os camelôs de tralhas coloridas, a arquitetura impossível de um barraco de madeira numa encosta de morro, as latinhas de conservas coloridas transformadas em vasos de plantas, a beleza ingênua da iluminação caótica de uma favela à noite, um galo cantando na murada de uma casa velha e abandonada, as árvores cobrindo um quintal de terra de sementes, as flores selvagens crescendo em meio à terra molhada depois das primeiras chuvas boas do ano. Não espero mesmo que alguém que não tenha sido exposto a essas coisas desde cedo saiba ou queira apreciá-las. Mas espero o perdão dessas pessoas por achar que uma caixa de concreto sem alma com varandas de vidro verde seja tão estimulante para os meus sentidos quanto um prego enferrujado na parede. Pensando bem, *eu* prefiro o prego.





A subida da serra de Petrópolis, cortando nuvens e a mata atlântica, é uma daquelas coisas que fazem ter valido a pena o berreiro que abri quando o cordão umbilical foi cortado; estar ali me compensa pelo breve incômodo de ter nascido. Mesma coisa para o Alto da Boa Vista, onde estive ontem visitando um amigo. Treze graus, pequenas cachoeiras distribuídas por entre a mata com aquela displicência cuidadosamente estudada da natureza, neblina e nuvens baixas para arrematar o espetáculo e eu ali, agradecendo por estar viva, não ser cega e estar exatamente naquele lugar, naquele instante, para merecer aquela visão. Diametralmente oposto em termos de belezas naturais, pegar o ônibus da viação Vera Cruz (agora em novas cores, incrivelmente menos bonitas) para o bairro onde nasci e rever lugares que serviram de pano de fundo para toda a minha infância, adolescência e parte da vida adulta, foi viajar de volta para mim mesma, por mais piegas que essa expressão seja.

O ônibus ainda faz o trajeto circular de sempre e graças a isso não precisei descer no bairro, que hoje é violento e pouco recomendado. Meus olhos cruzaram com os de um amiguinho de infância parado na esquina da padaria Sol (fechada graças à bandidagem), onde muitas vezes fui cumprir o ritual de comprar picolé domingo à tarde com meu pai. O amigo, todo vestido de preto - o uniforme dos marginais da área - pareceu me reconhecer. Lembrei do dia em que, jogando queimado na rua, tivemos um pequeno entrevero e atirei-lhe a bola no rosto. Bateu num dente e cortou o lábio. Ele xingou bastante mas, minutos depois, sangue estancado, estávamos de novo na atividade. Ruivo, mirrado, dentes (ainda) ruins, e os olhos levemente estrábicos que me observaram com atenção por alguns segundos - antes de se voltarem para o rapaz alto na motocicleta ao seu lado.

Não, eu acho que ele não me reconheceu. Mas, por via das dúvidas, espero que tenha esquecido aquela bolada.



(Fotos cortesia do IPAHB - Instituto de Pesquisas e Análises Históricas da Baixada Fluminense).

elevator love letter - stars

Terça-feira, Agosto 10, 2010

Rio, por enquanto.

Trinta dias por aí, por lá, por todos os lugares e em lugar algum. Perto de todos e com ninguém. As coisas mais importantes do mundo, nada de relevante. Em casa e longe, muito longe. É assim que eu gosto.

(maioria das fotos cortesia do celular + versão jurássica do photoshop - sorry!)





















foto acima by Bia Braune















foto acima by Rebeca Rasel































Petrópolis, Itaguaí, Saara, Rua do Lavradio, Praça XV, Duque de Caxias, Citrolândia, Jororó, Cinelândia. Oi. :)

(comentários desabilitados no blog por ora, mas você sempre pode usar a formspring. )

Milano - Sigur Rós

Domingo, Julho 04, 2010

Espinhos e flores.

Então, esse vai ser o último post do blog por algum tempo.
Viagem marcada para a próxima quinta feira, muita coisa pra organizar e deixar resolvida, já que é provável que eu passe um tempinho fora.

Respectivo também viaja na mesma data; duas semanas na Alemanha a trabalho - e é aí que as coisas começam a complicar. Como a sogra está na Finlândia, precisávamos de alguém para cuidar das gatas (especialmente da Chantilly, que nunca sai sozinha) e de alguém para ficar aqui recebendo ligações, correspondência e enviando arquivos - já que ele agora trabalha em casa. A pessoa mais óbvia para cumprir a segunda tarefa seria a assistente (que mora na capital), e por isso ela está vindo para cá hoje à noite. Infelizmente ela não é a pessoa mais indicada para a primeira tarefa, já que tem medo/trauma de gatos.

Você deixaria seu filho sob os cuidados de alguém que não gostasse de crianças?



Para piorar, essa manhã descobri uma mancha marrom avermelhada na córnea direita da Chantilly. Fui pesquisar na internet e todos os sintomas bateram: uveíte felina. O tratamento tem que ser contínuo para evitar a cegueira e pior, pode ser sintoma de algo mais grave, como leucemia. Acredito que no caso da Chantilly seja apenas trauma ocular, porque há duas semanas atrás ela estava com os olhinhos inchados e lacrimejantes - provavelmente por ter se machucado coçando. Mas ainda assim estou preocupada. Se ela precisar ser levada ao veterinário diariamente para acompanhamento, ter remédios aplicados diariamente, não sei quem vai fazer isso se a cat sitter disponível nem mesmo chega perto de gatos.

Não posso desmarcar minha passagem porque estou viajando primariamente por motivos médicos. Ele também não pode desmarcar porque tem compromissos profissionais. Eu já não estava muito felizinha antes por conta da minha própria saúde e por conta dessa moça, com a qual não tenho muita intimidade, vir passar duas semanas na minha casa sem que eu esteja presente (alguém duvida que ela vai vasculhar todas as minhas gavetas? Eu sei que vai; eu também sou mulher e, na hora do tédio/curiosidade, também vasculharia).

Para deixar tudo ainda melhor, Respectivo tropeçou na escada ontem e olha só o tamanho do estrago:


Ouch.

Se eu acreditasse em coisas como poder da inveja, energia negativa e bobagens similares já estaria colada num pai-de-santo tentando bloquear o "fluxo ruim". Mas eu só acredito no poder do acaso, e que as fases da vida são cíclicas. Já despenquei dentro de poços tão fundos que me perguntava quando eu ia, finalmente, parar de cair. E uma vez lá embaixo, me via tão longe da saída que não conseguia enxergar luz nenhuma ao olhar para cima. Às vezes, nessas horas, nem vale a pena tentar escalar as paredes; é melhor usar o tempo para meditar e fortalecer o espírito. Quase sempre uma corda vai aparecer no último minuto e vamos precisar dessa calma e dessa força para reaprender a sobreviver lá em cima.

E nunca se esquecer do tamanho relativo de tudo, inclusive dos nossos problemas.



Hora de ficar zen! Mais ou menos como essa galerinha animada aí embaixo, que fotografei no Jardim Chinês de um dos muitos open gardens que visitamos recentemente:











E para compensar os pequenos perrengues, as coisas boas da semana, começando pelo suflê de queijo super delícia que deu certo:



Os lindos courgettes orgânicos que ganhei do vizinho (que, no entusiasmo, plantou mais do que precisava):



Vestido novo. :)


Arrumar gavetas e arquivos e reencontrar coisas bonitas e esquecidas.









Receber tecidos pelo correio da amiga que mora distante:



Finalmente encontrar (e por alguns centavos!) o livro que estava procurando há tempos:


Rir dessa caricatura do Respectivo feita por um amigo:


O céu dessa cor:



Ano passado eu comprei alguns gerânios porque queria popular o jardim dos fundos com eles. Pintar as paredes de branquinho e deixar o espaço com um ar de jardim mediterrâneo. Meus gerânios se mantiveram firmes e fortes durante o ano inteiro, alguns até pegaram neve - um deles sequer parou de dar flores (durante todo o inverno!). Esse ano comprei mais alguns no começo da primavera e depois de muito "tomato feed", água e sol eles já estão enormes. Não consegui pintar as paredes ainda, mas uma coisa de cada vez.











E sair para escolhê-los é ainda uma das partes mais legais de todo o processo:





Algumas pessoas perguntaram, aqui e na formspring, como eu faço para arquivar as colagens. Para mim a maneira mais simples é usar fichários; basta perfurar as folha e guardar.



Esse fichário guarda inspirações de decoração; eu tinha muitas revistas sobre o assunto mas elas estavam começando a ocupar espaço demais, então resolvi manter apenas o que me interessava. Para não se perder, você pode colar post-its com anotações sobre a foto, detalhes, idéias, observações, etc.





Também é possível guardar receitas, artigos interessantes, inspiração de moda, maquiagem, o que quiser. Tudo em nome do espaço e da organização. :)






Por hoje (e talvez pelas próximas semanas) é só. Vou fazer todo o possível para continuar ao menos no Twitter e na Formspring depois de quinta feira, mas pode ser que eu esteja ocupada, pode ser que eu esteja sem internet (bastante provável), pode ser que eu esteja meio down, pode ser que eu esteja me divertindo demais pra ficar online. :)

Obrigada, mais uma vez, pelo carinho de sempre nos comentários.
Wish me luck and I'll see you soon!