We can beat genetics, adopting new aesthetics

Eu uso, sim. Mas não gosto muito de maquiagem. Não curto me sentir obrigada a melhorar o meu aspecto para o mundo, porque quase sempre acho que o mundo não vale o esforço e me ressinto por me esforçar assim mesmo. Não tenho prazer em perder aqueles 10 minutinhos antes de sair de casa tentando photoshopar a minha cara com BB cream e corretivo. Não tenho prazer em gastar dinheiro com maquiagem, nem mesmo quando a embalagem é bonita - tenho algumas sim, mas felizmente maquiagem de farmácia aqui é top quality e baratinha. Não me acho special snowflake ou melhor do que ninguém por conta disso, mas também não compro totalmente o discurso de que “não tem nada a ver com opressão e mito da beleza, uso maquiagem porque gosto” quando na verdade o truque do sistema é justamente nos fazer acreditar que gostamos para não questionar as suas estruturas. Não há nada de errado em querer apresentar a sua melhor versão para o mundo, mas saber que por ser mulher eu sou mais julgada pela minha aparência que um homem (que só precisa estar limpo para estar na sua melhor versão) eu não consigo evitar um certo ressentimento.

Esse é o cantinho bonitinho onde eu tento me consertar antes de sair de casa. Esse é o espelho que recebe a minha versão em rascunho e assiste à transformação (não muito radical, diga-se) na versão arte-finalizada, com menos olheiras, manchas de sol, com cílios mais longos e bochechas coradas. Me sento diante dele eu mesma e me levanto vagamente impostora. E gostaria de não me importar em agradar a uma platéia que na maioria das vezes nem estará prestando atenção, mas me importo. Então, que pelo menos, o teatro seja agradável. E o batom bonitinho. :)

Like a glow worm in a jar

Meio dia, two brown girls and a white boy pelas ruas de London City, o coração cinza pulsante do centro financeiro. Rapazes de gravata e gel no cabelo esbarrando em loiras high maintenance de terninho e tênis que atravessam a rua ignorando o sinal aberto para os carros. As mechas no cabelo da moça parada em frente à estação segurando um copo de café do Starbucks devem ter custado uma fortuna para parecer tão naturais. Os rapazes andam quase sempre em dupla. “Eles são mórmons?” brinca uma menina; a outra até tenta rir, mas está preocupada porque o céu escurece, vai chover, já está chovendo e ela não trouxe o guarda chuva. As moças andam de mãos dadas, embora uma delas não goste (mas não reclama). O rapaz cantarola uma música antiga, as mãos enfiadas no bolso do sobretudo de onde um fone de ouvido tenta escapar. Uma das meninas é bonita; a outra às vezes gostaria de ser invisível. Ela acredita que está se tornando cada vez mais cinza, mimetizando com a cidade e talvez em alguns anos finalmente atinja seu objetivo.

O sol fraco faz o que pode para atravessar as nuvens ainda pesadas depois de uma chuva breve, mas que trouxe granizo. A luz reflete nos cabelos longos e escuros das meninas e ele faz uma observação qualquer a respeito. Uma delas sorri, a outra finge que não ouviu. Olha para o chão e compara os sapatos, ela tem essa mania esquisita de observar sapatos mesmo não sendo nem de longe uma shoeholic (ou fetichista). A idéia de comprar um par de chelsea boots de camurça preta e sem salto surge no horizonte. E meias novas, porque essas já demonstram as muitas lavagens descuidadas a que foram submetidas.

A maldita chuva, como se revigorada pela pausa, retorna mais forte. O trio busca abrigo dentro de uma filial da Carphone Warehouse às moscas onde fingem examinar celulares e tablets, sendo seguidos em silêncio pelo olhar de meia dúzia de vendedores morrendo em pé de tanto tédio. Quinze minutos e o clima concede outra trégua; os três saem à procura de um lugar para sentar e acham um café em frente a um mercadinho de rua, staff polonês sorridente, onde pegam mesa na calçada e ele pede um flat white. Uma menina pede um caramel latte, a outra pede um americano e suspira em silêncio pelas quiches na vitrine. Em meio à conversa os três descobrem uma improvável admiração coletiva pela obra da Nika Costa.

No ônibus para New Cross há ossos de galinha espalhados pelo chão. O modus operandi da galera local é adentrar o coletivo futucando as caixinhas de frango frito e ir cuspindo os restos. Classy. Na lateral de outro ônibus há um anúncio de delivery de comida indiana chamado “tikka to ride” e o trocadilho é desculpa para risadas e piadas de baixo calão (que seriam reproduzidas nesses parênteses mas a idéia foi descartada). O ônibus percorre ruas estreitas, stop-and-start, stop-and-start, a cada 50 metros mais um restaurante de comida orgânica para os city boys (“cash rich, time poor”) preocupados com a saúde e com a procedência das folhinhas de rúcula. À medida que a cidade fica para trás as entranhas do subúrbio se abrem, as ruas vão ficando mais largas, o trânsito menos denso; o ônibus flui em linha reta. Uma das meninas tem um deja vu nostálgico de uma época onde os ônibus disparavam pelas vias expressas de uma outra cidade onde se podia empurrar o vidro da janela e deixar o vento bater no rosto. Aqui as janelas são enormes, mas não abrem.

Entram num supermercado porque elas precisam de banheiro. No espelho uma das meninas retoca o batom e passa a escova o cabelo, enquanto a outra checa a timeline do Instagram e evita o seu próprio reflexo. Na saída o menino aguarda examinando atentamente um bagulho qualquer na prateleira de papelaria. Uma das meninas vai olhar o que é, a outra aperta o braço dele de leve e sussura “don’t even think about it”. Ele sorri e sai caminhando enquanto joga casualmente o objeto no bolso. Uma das meninas prende a risada; a outra suspira. “Why you never do what I tell you?” ele responde “you are not my boss, lady” e uma das meninas ri e a outra odeia os dois um pouco. Saem do mercado rápido demais, se comportando de maneira vagamente suspeita mas nem eles, nem o segurança-parrudo-clichê de pé na saída se importam. Talvez eles nunca tenham crescido, na verdade; probably never will. Na lista de prioridades, crescer está acima apenas de morrer. Mas graças a eles a cidade assusta um pouco menos a cada dia.

Na volta retornam pelo mesmo mercado de rua, onde encontram um cachorrinho de três pernas saltitando alegremente pela calçada, onde as poças de água da chuva começam a secar mas ainda refletindo nesgas de céu cinza e prédios cinza no chão de cimento cinza. As cores que importam estão em outro lugar. Ele chama o cachorro de “cutest furry tripod”. Uma das meninas ri. A outra também.

burden and apathy

não cabe mais um sapo sequer na sua garganta, mas você engole assim mesmo o batráquio do dia e tenta manter o status de relacionamento, porque às vezes DEIXAR de ser amigo de alguém dá mais trabalho do que fingir que ainda é. todo um ritual de desvencilhamento quando há pessoas em comum, lugares em comum, quando a criatura já esticou tantos tentáculos pra dentro da sua vida que pensar em ter que sair tesourando um por um nos faz recuar com uma daquelas preguiças paralisantes, que  se manifestam diante de alguma tarefa hercúlea e ingrata que não vai proporcionar prazer algum além de um microscópico alívio no fim. os fins parecem não compensar os meios e aí eu apenas enfio metaforicamente a cabeça no vaso de novo, espero a raiva passar (sabendo que não vai passar, vai apenas ressecar e acumular por cima das raivas antigas, aumentando a crosta de ressentimento) e me torno cada vez mais fria, cada vez mais incapaz de relativizar e perdoar e entender.

e no fim aquela amizade fica ali, na última gaveta do armário do quartinho dos fundos como aquela blusa  que não combina com você, que já saiu de moda, que nunca coube direito, que está ocupando um espaço onde suas meias novas e quentinhas poderiam estar se espalhando e que você até desconfia que já usou pra limpar café derramado na mesa. a diferença é que essa pessoa vai ficando, pesando na bagagem por causa de uma conveniência incômoda e para poupar fadiga e stress. quanto à blusa, você até já  se esqueceu, mas foi embora com o lixo da semana passada.

come kinder and lighter, april.

for the price of a cup of tea you’d get a line of coke

peguei o metrô em stratford e desci em st. john’s wood para admirar o real state (ou seja, as casas). uma moça com cara de rica, rabo de cavalo castanho e leggings preta passeava um french bulldogue e me olhou ressabiada. subi até primrose hill, hipsters falando idiomas eslavos e monopolizando o alto (de onde se tem a melhor vista) enquanto tamborilavam as telas gigantescas dos seus samsungs. meu iphone 4s parecia positivamente antiquado em comparação. a ponta do the shard cintilava no horizonte.

desci, andei até chalk farm, considerei camden mas peguei o 27 para chiswick. passei por um cinema que exibia todos os filmes do oscar + the book thief (que eu ainda não assisti, mas preciso, nem que seja para falar mal - se bem que a crítica já está descascando por mim). comprei livros, inclusive dois pequeninos num antiquário LINDO na high street que me fez ter old books orgasms. 175 libras por uma edição de a cabana do pai tomás, que de tão bonita dava vontade de comer. deixei na prateleira. trouxe um livro babaca de ilustrações + christopher robin storybook (essa uma edição de 1963, cheia de rabiscos infantis e que foi obviamente muito amada) por duas libras cada + outros livros novos. peguei o 27 de novo para notting hill gate, mas desci antes porque queria comprar falafels.

ônibus são legais porque permitem que você veja a cidade, descubra lugares que não conhece e faça planos de voltar. uma pena, porque são muito, MUITO lentos. metrô é rápido e eficiente, uma necessidade em muitos casos, mas jamais me proporcionariam a visão do pequeno cemitério da igreja de st. mary abbots em kensington coberto de crocus desabrochando sob o sol de inverno. a viagem de volta dentro do latão subterrâneo é tediosa e levemente embaraçosa, e por algum motivo eu sempre acabo sentada na frente da única outra pessoa do vagão que não está lendo jornal ou batucando no celular. é desconfortável ficar evitando cruzar olhares ao mesmo tempo sabendo que a pessoa *vai* estar olhando para você quando você estiver olhando para o chão (analisando os sapatos dos outros passageiros), da mesma maneira que você fará com ela.

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selfies taking over the internet. nunca foi tão fácil (e tão bem visto, incentivado até) colocar a sua cara na rede. não que o coro de “nossa, mas que futilidade!” tenha se extinguido - mas acredite, ele já foi muito maior. um celular, um aplicativo com filtros de superexposição que fazem a sua acne (e por consequência, a sua timidez) desaparecer e de repente os seus amigos e inimigos sabem da localização de cada mancha no seu rosto, da profundidade de cada ruga; o que apenas os seus amigos íntimos conheciam virou domínio público. será que um dia vamos todos nos arrepender coletivamente dessa super exposição? será que eles (seja lá quem “eles” forem) vão usá-la contra nós?

minha casa tem muitos espelhos. as janelas são pequenas e eles ajudam a refletir a luz pelos cômodos. com uma ajudinha da tecnologia eles refletem também a minha imagem para além dessas paredes e para outros lugares e olhares sobre os quais eu não tenho o menor controle. not gonna lie, this shit scares me sometimes.

can you hear me calling you?

fui para hampstead heath e resolvi entrar naquela manor house no meio do parque, kenwood. o lugar estava relativamente cheio; dentro da casa velhas e velhos com cara de upper middle class, twin sets, pulôvers de cashmere, jaquetas de couro, sapatos de verniz, cachecóis de lã merino, observavam com atenção os quadros na parede - e a mim, de rabo de olho ou abertamente, desrespeitando a regra número um de ser inglês que é não encarar ninguém abertamente. judeus circulavam em pleno sabbath e um grupo de meninas adolescentes tagarelava em volta de um filhote de springer spaniel, o sotaque fino compondo a trilha sonora da tarde. o restaurante estava lotado, mas conseguimos tomar um latte no jardim e depois descer a bishops avenue (vulgarmente conhecida como “avenida dos bilionários”, posto que perdeu há tempos para outros endereços) rindo daquelas casas caríssimas, porém monstruosamente feias.

terminei cedo a noite anterior, cantando mr. brightside meio bêbada num karaokê em camden. a idéia era não passar da minha habitual taça de prosecco vagabundo, mas alguém abriu um sauvignon blanc na mesa e nada mais me lembro, berenice. antes disso fomos buscar pessoas que não tinham carro mas também não estavam, digamos, “em condições” de utilizar transporte público. a casa ficava em east finchley, era uma terraced vitoriana caindo aos pedaços, com sacos de lixo jogados ao lado da porta que pareciam estar ali há séculos e ervas daninhas brotando de cada uma das rachaduras no cimento. um rapaz magrinho com cabelo black power e camiseta superdry abriu a porta justo quando eu estava me preparando pra fazer uma foto das molduras de madeira apodrecida na marquise. a idéia era não entrar, mas dez minutos depois eu estava sentada com uma lata de cerveja na mão numa pilha de lencóis amarrotados em cima de um colchão de casal no chão de um quarto imenso, mas praticamente desprovido de qualquer outra mobília além de um frigobar vermelho, um macbook e malas de viagem tamanho jumbo.

na sala umas cinco pessoas falando no celular ao mesmo tempo e eu fui ficando ansiosa e aquela sensação de algo sufocando dentro de mim e cravando as unhas por dentro da minha pele tentando rasgar e sair e respirar, e eu comuniquei o fato da maneira mais blasé possível e me deram uma cartela de diazepam e se passaram uns bons anos desde a última vez em que uma dessas me caía nas mãos - mas a prudência não me permitiu engolir. peguei outra latinha de fosters pra tentar relaxar e eu odeio fosters. já que estava bebendo mesmo aceitei também um punhado de pringles. fui pra janela tentar respirar um pouco de ar puro, não adiantou, fui ao banheiro e havia uma quantidade assustadora de sacolas de supermercado (cheias de sabe-se lá o quê; me pareceu tecido/roupa) com as alças amarradas dentro da banheira. o banheiro não tinha tranca. alguém sintonizou o rádio na Radio 1. pedi em privado por favor pra ir embora, e aí três pessoas entraram no banco de trás do carro com a gente e eu só pensava em ir pra casa.

porém uma hora depois eu estava comendo lulas recheadas de chorizo + risoto (o arroz, com forte sabor de manteiga, preto por causa da tinta da lula) e depois um peixe cujo nome esqueci envolto em bacon com cuscuz e abóbora e berinjela ao forno. não tive coragem de pedir sobremesa e o café não me ajudou a ficar nem sóbria, nem calma. o serum da boots + exfoliação diária realmente está deixando a minha pele melhor, mas eu vou ter que passar fome por umas duas semanas, no mínimo, porque minhas pernas estão inchando de novo e eu já não tenho mais coragem de pegar a calça jeans no armário. contei e ainda tenho 80 doses de rivotril caso eu me comporte e não comece a usar com frequência, mas pelo andar da carruagem vai ficar cada vez menos provável ficar ok sem química.

março, de fato, está sendo difícil.

me and charles manson like the same ice cream

dont you just hate when a day that had everything to be amazing ends up being a complete car crash?

pessoas vendendo flores na beira da estrada, uma maldita banquinha a cada 100 metros. um carro parado no acostamento com um pneu estourado, portas abertas e cinco caras bêbados dançando ao som de paint in black, dos stones. duas raposas atropeladas. tori amos no meu mp3 player, caught a lite sneeze. uma embalagem de praline sugarless chocolate derretendo na minha bolsa. alguém com dor de dente. um acidente de moto perto de billericay. nenhum morto. céu alternando nuvens com nesgas de sol, na maior das más vontades. english breakfast num café que tentou sem sucesso uma decoração criativa - as mesas forradas com union flags e os olhos azuis muito claros do menino bonito que veio anotar meu pedido tinham cara de partido nacionalista. acabei confusa: “você poderia me trazer café ao invés de café?” e o menino bonito sorriu e respondeu “sim, eu posso trazer café ao invés de chá" e eu afundei na cadeira. o café era ok, embora tenha vindo com leite sendo que eu não pedi leite. os tomates eram em lata - gostosos, mas cheios de açúcar. bacon e os ovos ok, mas as salsichas eram desprezíveis; por 6,95 eu esperava salsichas de verdade, não rolinhos de farinha.

fomos multados porque o bilhete de estacionamento virou de cabeça pra baixo com o vento quando fechamos a porta do carro e não dava para ver a data. na b&q enquanto eu procurava tintas uma onda de frustração com a falta de cooperação, energia, entusiasmo, vontade de viver das pessoas me bateu e quase me afoga. uma sensação de impotência, de desistência, de desesperança, de who gives any fuck to any of this and why am i pretending to. escapei e fui andar na cidade, sem bolsa e só pus no bolso do casaco celular, chave, cartão de crédito e o mp3 player, que ainda tocava tori amos. tear in your hand. maybe she’s just pieces of me you’ve never seen. as lojas já fechando, bairro  estúpido. as ruas cheias de gente horrível, ainda mais horríveis que durante a semana - devem sair do esconderijo aos sábados e domingos. agradeci pelo mp3 player, eu podia ter que olhar para elas mas pelo menos não tinha que ouvi-las. comprei coisas desnecessárias (revistas, livro) e necessárias (macarrão low carb, um gaveteiro de acrílico). não achei um único café aberto onde eu pudesse me sentar e passar o tempo ouvindo música e lendo o livro. bairro estúpido. vi um rato morto gigantesco na calçada. carreguei tudo para casa, repassando o dia na cabeça. olhar o mar, ouvir o mar, as gaivotas, me fez ter saudades de jersey. what the fuck am i doing here. what the fuck am i doing.

está difícil, eu sabia que março ia ser difícil mas há dias em que está sendo pior do que o esperado. inferno astral é uma piada, a menos que tenham registrado meu nascimento em janeiro por engano. março sempre é terrível. as cerejeiras e magnólias em flor são lindas, a primavera tem sido gentil com meus olhos, mas é só.

for the times we’ve had I don’t want to be a page in your diary

De vez em quando me encontro perambulando por lugares tão ricos que tenho certeza de que se fuçar as lixeiras vou achar uma Birkin. Ok, não tenho coragem de me enfiar dentro, mas sempre dou uma  passada de olhos superficial e em cima de uma delas encontrei esse livro (limpíssimo, aliás… lixo de gente rica é outra coisa):

Não sabia do que se tratava, mas passei a mão e enfiei na bolsa assim mesmo. Parei num café e depois de lavar as mãos com álcool gel fui examinar. A capa, de um azul intenso, é de couro fake com tipografia prateada - mesma cor da lateral das páginas. A introdução dá uma idéia do espírito da coisa:

Querido leitor,

Existem três motivos pelos quais a maioria das pessoas, embora tenha tentado, não consegue manter um diário:

1. Nem todo dia é muito agitado.
2. É preciso bastante disciplina (principalmente em relação ao item 1)
3. Em retrospecto, muitas pessoas consideram o que escreveram embaraçoso.

Você pode usar o Simple Diary:

a) como quiser.
b) quando quiser.
c) onde estiver.
d) de forma aleatória ou em sequência.
e) escrevendo seus pensamentos ou deixando em branco.
f) lendo uma página ou quantas quiser.
g) e deixando de lado por algum tempo.
h) como um assistente para qualquer ocasião na vida.

Espero que você encontre um amigo de verdade, um bom lugar ou alguma sabedoria através desse livro. Isso me faria feliz.

Boa sorte, e obrigada pelo seu tempo. Ele é todo seu.

É uma espécie de diário, só que com prompts criativos para responder e onde você não precisa escrever muito. Cada dia começa com uma questão de múltipla escolha (“como foi o seu dia?" seguida de três alternativas variadas + um breve espaço para explicar o motivo da escolha), perguntas reflexivas, pequenas listas, etc. Uma espécie de "diário para preguiçosos que não têm saco/tempo/talento para manter um".

A primeira página já havia sido preenchida há quase cinco anos, em caligrafia quase ininteligível, pelo dono original:

Me pergunto o que terá acontecido a essa pessoa. Por que não escreveu mais no diário, por que jogou fora… Se por acaso se arrependeu de ter jogado fora ou se alguém jogou fora por ela. Se ainda está viva, ou se alguém se livrou desse diário por ser uma lembrança dolorosa de alguém que não está mais aqui.

Vou deixá-la como está, como um souvenir do acaso.

Acredito que a idéia não seja usar todos os dias, do contrário o diário acabaria rapidinho; não sei quantas páginas são, mas não são muitas porque são grossas. Depois das duas páginas de experimentação que fiz, vou guardá-lo para dias “especiais” - ou não tão especiais, mas onde eu queira expressar algum sentimento - de forma críptica e para mim mesma. E talvez compartilhe algumas por aqui. :)

O autor, Philipp Keel.

Descobri que existem outras edições do diário, em cores de bala. Como eu sou uma ratazana de papelaria e curti a idéia, já coloquei na minha wishlist. Se alguém quiser me dar um presente barato e muito bem recebido, taí a idéia plantada. ;)

It’s too fleeting. We can only hold on to the memories.

Sou hipocondríaca porque sou ansiosa ou sou ansiosa porque sou hipocondríaca? Aperto as axilas, sinto os braços, observo meu xixi, meu cocô, procuro sinais de icterícia no branco dos olhos, faço notas mentais das dores, presto atenção no meu caminhar, checo as unhas, apalpo os seios, busco por gânglios. É estranho, estou sempre ansiosamente procurando por coisas que eu não quero encontrar.

Semana passada na dvd night apresentei Howl’s moving castle e Grave of the fireflies no dvd player improvisado: laptop + monitor. O dvd player da casa por algum motivo não roda a versão em japonês com legendas em inglês e assistir anime dublado is rather pointless.

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Liz Jones, jornalista inglesa, foi cobrir uma festa do oscar e o taxista disse que percebeu alguns paparazzi fotografando-a. “Eu não sou uma estrela de cinema!” respondeu ela, e o taxista disse que de fato ela não se parecia com uma. A jornalista, vagamente indignada, pergunta qual a diferença. “20 anos e 20 quilos”, respondeu ele.

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Uma coisa que me irrita em cafés: você se aproxima e começa a ler a lista de bebidas quentes. O lugar está tranquilo, não há fila. O atendente se aproxima, diz olá, você responde e ele fica ali, na sua frente, encarando, como se estivesse te forçando a decidir. Posso até ouvir os pensamentos: “por que ela não escolhe logo? não é como se houvesse centenas de opções!”. Amigo/a, eu nem mesmo estou perto do balcão, estou lendo a uma distância que deveria informar que eu não estou ali esperando atendimento, apenas tentando ler/escolher em paz. Posso? Acho que alguns baristas estão acostumados a pessoas que fazem o mesmo pedido todos os dias, já sabem de cor o que vão querer e chegam despejando “olá - bom - dia - um - chai- soya - latte - médio - e - um - panini - de - queijo - e - cebola - por - favor”. Bem, não é assim comigo, e a pressão daquela pessoa ali me encarando sem nem piscar sempre me faz pedir qualquer coisa para me livrar dela e sempre acabo me arrependendo. Hoje, por exemplo, concluí que era pra ser latte e eu pedi cappuccino. Estava horrível.

Sorry, Costa. Mas estava. Uma coisa que aprendi é que até mesmo um cappuccino ruim com leite e açúcar consegue ser mais amargo que um bom café preto com adoçante. Café ruim sempre será ruim e não pode ser consertado com nenhum outro ingrediente. Ingleses parecem achar que café forte é sinônimo de café amargo. Não, não é. Café amargo é sinônimo de café queimado, apenas. Cafezinho tradicional brasileiro, italiano, francês é forte sem ser intragável. Por isso tento ao máximo evitar essas franquias famosas, onde o café é quase sempre aguado (Starbucks) ou amargo ou uma loteria (Costa, Pret a manger, Nero, Eat, etc).

Essa semana durante as minhas andanças esbarrei em DOIS lugares na cidade servindo um café decente. É uma surpresa tão grande quando isso acontece que estou quase escrevendo um guia dos melhores, a fim de que turistas não sejam obrigados a sofrer sorvendo uma bacia de água suja/sopa de jiló. Pena que esses estabelecimentos quase nunca estejam localizados em rotas turísticas. A minha dica é procurar pequenos cafés familiares. Eles podem até não oferecer wi-fi gratuito (que nunca funciona direito anyway) e poltronas chiques para você se sentar em meio ao decór modernoso e os hipsters batucando ipads; mas de que adianta tudo isso se o café é uma bosta? E depois esses “cafés de grife” precisam menos do seu dinheiro do que aquela família de imigrantes ali, que depende da pequena clientela fiel para pagar o colégio dos filhos. Pronto, cabou o discursinho politicamente correto da semana, podem vomitar agora (o que um café ruim não faz, meldels).

Café decente numa pequena deli portuguesa em Willesden. ♥

Me recomendaram alguns produtos para exfoliar/hidratar a pele. Marcas: RoC, Aveeno, Neutrogena. Devem ter retinol e vitamina c/e. Pela manhã, lavar e hidratar. Exfoliar todas as noites. Se tudo falhar, chemical peel. Ou simplesmente desistir e comprar um cardigan e um par daqueles sapatos de avó que eles vendem na Clarks.

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Cora Corré (16 anos) deu uma entrevista para a Tatler dizendo que aos 10 anos vestiu jeans para ir com sua avó Vivienne Westwood ao British Museum. Vivienne disse “oh that’s so boring, it’s better to look good and be in pain than be comfy and look like shit”. Cora respondeu “I’d rather look like me than look like you and be in pain”. Touché. “Sofrer pela moda”, com 10 anos? Sério, minha senhora? And this is why everybody hates fashionistas.

Happy kitty. Ela espera o ano todo pelo sol, e quando ele chega, she can’t get enough:

they see me rollin’, they be hatin’

secretly i want to bury in the yard the grey remains of a friendship scarred

highgate é um dos meus lugares preferidos. um dos poucos onde é possível ver montanhas ao (quase) longe, numa cidade conhecida pelo seu relevo tediosamente achatado. londres é uma grande panqueca. mas aqui as pessoas têm ladeiras e algo que pode ser considerado uma vista e que não necessariamente se resume ao jardim do vizinho. jardim esse que vale as suas dimensões em ouro. highgate é caríssima, talvez pelo privilégio oferecido de vislumbrar alguns morros cobertos de árvores que não perderam suas folhas no inverno.

ando pelas ruas em direção ao meu destino parando em frente a cada porta colorida georgiana, observando os pórticos de madeira esculpida, os pequenos jardins contidos em potes de terracota, esperando que a mulher com o carrinho de bebê vire a esquina e me perca de vista porque quero fotografar a fachada da casa de onde ela saiu. entro num sebo de livros e me dou conta de que ali eles custam o mesmo preço que os novos na loja. saio xingando mentalmente a ganância da classe média. encontro uma igreja, depois um parque com lagos onde patos e gansos bóiam rodeados por salgueiros chorões com a folhagem verde-clara nova da primavera - e também cerejeiras, amendoeiras, forsythias, camélias e magnólias em flor. é quase beleza demais para suportar, mas eu faço um esforço. pessoas sentadas nos banquinhos espalhados pelos cantos pitorescos estragam minhas fotos, mas pelo menos estão em silêncio - exceto por raras e comedidas interações sociais via celular, as vogais cortantes do sotaque clássico dos abastados.

em hendon, ao contrário, mal se fala inglês. você tropeça em mercadinhos vendendo produtos alimentícios de todo o mundo, populados por seus habitantes (poloneses, tailandeses, chineses, árabes, turcos, etc) trocando impressões na comfort zone das suas línguas maternas. pego latas e pacotes cujas embalagens me parecem interessantes sem entender muito bem o que são. não há a menor chance de decifrar a lista de ingredientes.

alguém fede a peixe no ônibus.
faz frio, o que eu não esperava. meu pulôver não basta.

no metrô de volta uma mulher bêbada quer retocar o batom. é engraçado, mas eu tento não rir. e fracasso, claro.

no shopping onde espero carona para casa um policial se desculpa ao esbarrar em mim. ele leva pelo braço um rapaz algemado. os dois são seguidos pelo segurança de uma loja. eu sinto o cheiro dos pretzels e do café da lanchonete ao lado. as pessoas olham o rapaz em algemas. a carona chega. vou atravessando a passarela em direção ao estacionamento olhando o céu nublado. essa cidade são várias.

My week in pixels

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1. Essas prateleiras
Porque me custaram duas horas para colocar, os parafusos não ajudaram, mas o estúdio fica tão mais leve sem aquelas estantes pesadas.

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2. Essa gata.
Playing up recently, vomitando em carpetes, enchendo a minha vida de pêlos, fazendo cocô em tudo o que eu amo, mas… oh, well. Love is love.

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3. Esse espelho.
Que na verdade é uma porta de armário velha encontrada por aí. Queria ter levado a irmã gêmea dela também, mas cabô espaço no carro.

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4. Essas flores.
Que começaram a desabrochar já no comecinho de março. A primavera não quer saber de esperar.

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5. Essa pequena.
Porque os gashapons ingleses não chegam nem aos pés dos japoneses.

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6. Esses sapatos.
Que sete anos depois de comprados finalmente vêm sendo usados porque agora combinam com tanta coisa.

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7. Esse almoço.
Fechando a semana num dos meus restaurantes preferidos.