Se existe uma coisa extremamente compreensível quando chegamos a um país novo é buscar pelo diferente a fim de compará-lo ao que nos é familiar. Especialmente quando estamos deixando para trás as nossas próprias raízes e tentando nos adaptar. É como se fosse um mecanismo de defesa; tentar reafirmar e proteger a nossa própria identidade ao rejeitar a identidade local.
Lembro que quando estava prestes a me mudar para cá entrei numa comunidade de expatriadas no Orkut, e em meio a histórias cômicas, surpreendentes ou francamente patéticas, comecei a acumular experiências alheias e usá-las para criar um panorama aproximado sobre o que poderia ser a minha vida em outro país. A “reclamação” número um era a famosa “ausência do ralo no banheiro” (que inclusive deu origem a
esse blog aqui), seguida de perto pela aparente impossibilidade de se encontrar panela de pressão, jiló e calcinhas que não fossem enormes. As histórias que li de moçoilas desembarcando em outras terras arrastando malas pesadas contendo um estoque anual de absorvente higiênico, analgésicos e esmaltes Colorama jamais serão esquecidas. Na impossibilidade de carregar o sol, a família, os amigos, o idioma e a novela das oito, carregava-se panelas.
Eu também reclamei. Principalmente da falta de requeijão - mais tarde encontrei um similar muito bom, se não me engano polonês, chamado Puck. E em seguida encontrei também feijão, mandioca, café Pilão, paçoca, tudo aquilo que chegava aqui apertado em malas de brasileiras nervosas com a possibilidade de perder contato com o que quer que fosse que lhes parecesse importante e indispensável, um ponto de conforto e constância em meio a essa viagem sem volta ao desconhecido. Com o tempo percebi que aquelas coisas nem tinham tanta importância assim, que havia aqui similares tão bons quanto ou melhores, que comida chinesa, indiana e árabe eram boas e baratas e que feijão só seria degustado quando eu fosse ao Brasil. Porque eu havia passado duas décadas comendo a ração típica do brasileiro, descobri que na verdade tudo o que eu queria era experimentar coisas novas, me dar a chance de conhecer e me apaixonar por outros aromas, cores, sabores e lugares. Para transformar esse país na minha casa eu precisava desapegar do conforto do que me era familiar; se fosse para me manter escrava dos meus velhos hábitos seria mais prático simplesmente permanecer no meu país.
Um erro comum que vejo por aí com frequência é tentar transformar esse espanto com o novo em crítica, muitas vezes desnecessariamente rude. Imagine o que você sentiria se recebesse um hóspede estrangeiro na sua casa e ele começasse a rir da sua decoração, da roupa da sua família, da maneira com que você limpa a casa, etcétera. Um pouco grosseiro, certo? Não é diferente de chegar num país e começar a achincalhar a cultura local. Se isso seria visto como esnobismo e preconceito caso acontecesse num país pobre, não deveria ser visto de forma muito diferente num país desenvolvido.
E é por isso que eu penso, “ainda bem que blogs como esse nunca me chamam para dar as minhas ‘impressões sobre a Inglaterra’.” Concordo com alguns (poucos) pontos feitos, mas como dar pitaco é meu exercício favorito, vamos comentar outros. :)
“2 – A comida inglesa não é boa e quase não existem legumes como acompanhamento (tirando a batata, a ervilha e com alguma sorte, o brócolis).”
Eu sempre fico um pouco cansada com essa generalização de que “comida inglesa não é boa”. Num lugar com tamanha variedade de alimentos, afirmar isso com essa convicção toda trai um pouco de má vontade. Assim como os italianos, o brasileiro é um povo extremamente apegado às suas próprias tradições culinárias. Mas ao contrário dos italianos, verdade seja dita: o brasileiro não costuma ter um paladar sofisticado. Comer carne quase queimada em churrascos é considerado normal. Chamar fatias de tomate e cebola crua jogadas em cima de folhas velhas de alface de “salada” é normal. Cozinhar legumes num caldeirão de água até que eles praticamente derretam e percam todo o sabor e valor nutritivo é normal. Comida feita às pressas sem o menor carinho, inspiração e por pura obrigação é normal. Encher um prato com praticamente a mesma coisa TODOS OS DIAS, idem.
Então não me parece muito coerente falar mal da comida dos outros países. Aqui temos queijos de toda a Europa (incluindo cheddar de VERDADE) a preço de banana - isso quando a banana custava barato no Brasil… As pessoas costumam preferir legumes e verduras orgânicas e consumidas na época certa, por serem melhores e mais baratas. Não estou dizendo que a alimentação dos ingleses seja perfeita; é claro que quem trabalha acaba se atirando nas ready meals ou pedindo comida pelo telefone - até mesmo por falta de tempo. Mas posso dizer que depois de vários anos de Inglaterra eu nunca comi melhor na minha vida, e que sofro um bocado quando estou no Brasil e não encontro creme de leite fresco, queijos decentes e sou obrigada a comer cenoura murcha porque as pessoas sequer imaginam que seja possível fazer legumes no forno. E ah, vamos lembrar que num país onde ninguém “forra o prato” com arroz e feijão, legumes são sim muito importantes. Então afirmar que aqui “quase não existem legumes” é meio estranho, ainda mais quando nos PFs brasileiros “legume” se chama farofa. E foi a Inglaterra que me apresentou ao ruibarbo, ao parsnip (que o google me traduziu como… CHERIVIA?) e à couve de Bruxelas, yum yum. :)
“3 - A carne de boi é vendida como “British Beef”, mas ninguém sabe exatamente que parte do boi é aquela. Não é surpresa que a carne aqui seja tão ruim e esquisita.”
Não sei onde essa moça compra carne, mas o fato é que TODO MUNDO sabe que parte do boi está comendo. Isso está inclusive descrito nas embalagens. As pessoas nunca visitam açougues? É claro que existem carnes menos nobres, mais duras - assim como no Brasil - e por isso elas serão mais baratas. Desculpe, mas em qualquer lugar do mundo você recebe a qualidade que consegue pagar.
“5 – Os ingleses não são grosseiros como todo mundo imagina. A maioria deles é muito educada e paciente, mas quando não são, é melhor sair de perto!”
Exatamente como os brasileiros, então? ;)
“6 – O transporte em Londres é impecável, mesmo que vários londrinos reclamem e achem o contrário. Existem alguns painéis em pontos de ônibus e no metrô indicando a que horas o próximo veículo vai chegar ao ponto/plataforma, e eles sempre estão extremamente corretos.”
Eu pessoalmente evito os ônibus. Eles são extremamente lentos e pouco confiáveis: se o turno do motorista terminar antes do fim daquela viagem, ele vai parar o carro NO MEIO DO CAMINHO, fazer todo mundo descer e seguir para a garagem. Por várias vezes me vi jogada num lugar estranho no meio da noite, no frio, sem saber direito onde estava e tendo que esperar o próximo veículo - que podia demorar. Evito sempre que possível. Mas em compensação, pra mim é Munrá no céu e o metrô na Terra. Bless! :)
“7 – Aqui ninguém precisa de carro, já que o transporte funciona muito bem e a qualquer hora do dia.”
O metrô funciona até pouco depois da meia noite e os ônibus idem. Existem os Night Buses, que rodam a noite inteira, mas não posso dar opinião porque nunca usei. Mas discordo de que ninguém precise de carro. Existem áreas da cidade que não são muito bem servidas por transportes. Sem contar localidades mais distantes onde *não há* transporte. As pessoas que trabalham e se movimentam em Londres não vivem *somente* em Londres, vale lembrar.
“8 – Até hoje não vi um londrino que não abriu um sorrisão quando falo que sou brasileira e que não me pergunte “por que que diabos você trocou o lindo e ensolarado Brasil pela cinzenta Londres?””
Esse é um clichê típico de brasileiros no exterior. Não afirmo que seja o caso da entrevistada, mas para esses a quem me refiro TODO mundo “adora” o Brasil - quando na verdade talvez estejam apenas querendo ser simpáticos, regurgitando uns estereótipos amigáveis de “futebol, carnaval, copacabana, samba” sobre um país para o qual eles, na realidade, não dão a mínima. Será que os ingleses continuariam “abrindo sorrisão” para os brasileiros se soubessem o quanto falamos mal da comida e da cultura deles? Hihihi.
“9 – As pessoas têm mania de falar “sorry” por tudo, sempre!”
Essa mania se chama EDUCAÇÃO e deveria ser universal. Infelizmente não é verdade que todo inglês seja assim tão educado. Menos ainda os londrinos, mas isso é de se esperar de uma cidade grande…
“11 – O sotaque do interior da Inglaterra é absurdamente difícil de se compreender. Sabe o ovo que a gente acha que os ingleses têm na boca? O pessoal do interior parece ter uma melancia inteira!”
Imaginei um gringo chegando no norte do Brasil e reclamando do sotaque. Seria linchado. E o sotaque não é difícil de compreender, não. Os nativos conseguem, e com o tempo até quem não é se acostuma e aprende. :)
“12 – É muito normal um inglês usar um casaco a vida inteira sem lavar uma vez sequer (e consequentemente, às vezes o cheiro é de matar).”
Muitos casacos de inverno não podem ser lavados na máquina; às vezes nem à mão. É preciso mandar para uma lavanderia. Eu tenho um casaco comprado em 2005 que só foi lavado uma vez. O cheiro não é “de matar” porque ninguém transpira usando casaco de inverno sob a pele. Algumas pessoas moram em casas pequenas, dividem apartamento, cozinham no quarto, o cheiro da gordura dos alimentos gruda no tecido. É esse o único cheiro que costumo sentir na roupa dos outros aqui. É claro que existe gente pouco asseada, velhinhos que fazem xixi nas calças e não lavam, mas em circunstâncias normais casaco de inverno não se lava semanalmente, galera. E não fede. Get over it.
“14 – Aqui uma faxineira consegue pagar aluguel e ainda sobra um dinheiro no fim do mês. Não existe isso de diferença social, pois todo mundo tem a chance de fazer praticamente as mesmas coisas, independente de sua profissão.”
TODO MUNDO é forçar a barra. Não é bem assim. Muitas pessoas vivem com o dinheiro contado para pagar aluguel e não sobra pra comprar comida cara, roupa de grife ou viajar pro exterior. Dizer que todo mundo pode fazer essas coisas é ignorar a situação complicada em que muitos ingleses vivem.
“15 – Os ingleses acham que no Brasil só existe o Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, e alguns até se surpreendem quando falamos de outras cidades.”
Achei engraçada a menção a Curitiba; nunca ouvi ninguém citar essa cidade. As mais citadas são Rio, São PaOlo (que eles não conseguem escrever certo de jeito nenhum, o que MUITO me irrita) e Brasília.
“16 – Os ônibus parecem estar sempre cheios, não importa o horário! Já peguei ônibus lotado às 4 horas da manhã de um dia de semana!”
Ônibus vivem vazios aqui, algumas linhas até mesmo na hora do rush. Muitos deles são double deckers (têm dois andares), mas mesmo os menores dificilmente lotam.
“17 – As inglesas têm mania de enrolar o cabelo pro alto em um coque que mais parece um rolo de arame farpado, de tanto nó. Me pergunto se elas penteiam o cabelo algum dia.”
O “coque podrinho” não é privilégio das inglesas, é moda na Europa toda. E de forma semelhante as inglesas poderiam perguntar quando é que as brasileiras vão assumir os cachos algum dia e parar de passar formol na cabeça para estirar os fios…
“19 – Na Inglaterra a conta do bar não é dividida no fim da festa. Ao invés disso, cada um paga uma rodada pra todo mundo, e talvez por isso seja tão fácil ver gente tonta e feliz da vida no meio da rua.”
Eu sinceramente não entendi como o método de pagamento influencia na bebedeira. As pessoas pagam “rounds” aqui ao invés de “dividir a conta no fim” porque nos pubs você paga toda vez que compra uma bebida; não existe “pedir a conta”. Quando as pessoas acabam de beber elas podem levantar e ir embora, porque tudo já foi pago. Isso é ótimo porque elimina a necessidade de gorjetas e comandas.
“24 – Se marcarem às 10:30h com você, apareça com no mínimo 15 minutos de antecedência. A “pontualidade britânica” é levada a sério.”
Hahahahaha. MITO.
“26 – Parece que as inglesas fazem as unhas de 3 em 3 meses, pois é raro ver alguma que tenha todas as unhas pintadas completamente. Imagine o terror quando chega o verão e elas resolvem usar sandálias?!”
Mas nem todo mundo tem que ser obcecado com o estado do esmalte. Ou então tem coisas mais importantes com que se preocupar (carreira, filhos, reprises de East Enders, etc). Eu, por exemplo, sou brasileira e meu esmalte vive descascando. Nunca perdi um dedo e nunca vivi nenhum “terror” por causa disso. :)
“29 – A maioria dos ingleses têm os dentes, com sorte só amarelos, mas muitas vezes nem têm todos os dentes na boca. É comum ver gente só com pedacinhos de dente e podre ainda. Acho que junta a falta de higiene, o fumo exagerado e o preço absurdo que os dentistas cobram por aqui.”
Eu pessoalmente não vejo essa problemática bucal toda. Ok, não costumo prestar atenção nos DENTES das pessoas com tanta coisa mais interessante pra admirar. E muita gente que fala dos dentes amarelos dos estrangeiros não tem dentes muito melhores. Ou seja…
“30 – Algumas palavras do inglês britânico são diferentes do inglês americano. Por exemplo: aqui, batata frita se chama chips e não french fries. O metrô é o underground e não subway ou tube, como nos EUA.”
Isso era de se esperar, exatamente como o português de Portugal não é exatamente igual ao nosso. Entretanto, uma correção: “tube” é usado aqui na Inglaterra sim, e não nos EUA. Subway aqui são apenas aquelas passagens subterrâneas que ajudam as pessoas a atravessar ruas movimentadas. :)
“35 – Se sua casa não tem jardim, você vai ter que lavar as roupas em uma máquina de lavar instalada na cozinha e estender em um varal no meio da sala perto do aquecedor.”
Ué, isso não acontece também no Brasil para quem mora em apartamentos pequenos sem área de serviço? Você pode também comprar uma secadora de roupas - muito mais barata aqui do que no Brasil. Acabou-se o “problema”. :)
“40 – Os ingleses falam alto. As mulheres gostam de berrar no meio rua.”
E os brasileiros, italianos e espanhóis também, né? Honestamente, qualquer uma dessas nacionalidades poderia receber o prêmio “decibéis desnecessários em estabelecimentos comerciais”. Ingleses só falam alto quando bêbados - ou seja, quase sempre. Rárá.
“41 – O troco aqui é sempre certo, o que faz com que você saia dos lugares cheio de moedinhas de 1 “centavo” na mão. Quando percebe, tem £50 em casa só em moedas pequenas, impossíveis de serem usadas!”
Aí você junta todas, leva ao banco e troca por notas. Ou para o supermercado e troca por vouchers para usar na loja. ;)
“42 – Ainda encontra-se em muitas residências e banheiros públicos pia com duas torneiras. Uma com água MUITO gelada e outra com água quente de doer. A escolha entre congelar as mãos ou ter queimaduras de terceiro grau, pode ser bem complexa!”
Na sua casa, opte por instalar uma mixer tap para misturar as duas. Nada melhor do que ter água quentinha saindo da torneira no meio do inverno. :)
“45 – Aqui você vê criança de 5 anos em carrinho de bebê e criança menor (2 ou 3 anos) de coleira. Sim, coleira.”
Não é coleira, é uma “guia” que prende o peito e a cintura da criança. Muito prática, permite que ela ande e se exercite ao mesmo tempo que restringe seus movimentos e impede que se atire na frente de um carro. Muito melhor que o carrinho, na minha opinião.
“56 – Os ingleses confiam nas pessoas, como por exemplo: confiam que todo mundo vai pagar antes de entrar no metrô ou trem mesmo quando não existem catracas e nenhum tipo de cobrador e você mesmo passa e paga suas compras nos mercados.”
Mas às vezes eles fazem checagens aleatórias, e se você tentou bancar o esperto sem pagar, toma multa.
Enfim. Como dizem por aí, a “maldição do expatriado” é se sentir em casa no mundo todo, mas nunca se sentir realmente em casa em lugar nenhum. Paradoxal, mas faz sentido. Você nunca mais vai olhar o seu país com os mesmos olhos, vai começar a questioná-lo profundamente - e meio de longe, como se gringo fosse. E depois de um período de adaptação num país diferente, os outros países serão apenas mais diferenças - mais piadas que você não entende, cafés da manhã esquisitos, mapas complicados e idiomas em caracteres indecifráveis; ou seja, tudo normal - ao invés de um monstro bilingue querendo engolir a sua cabeça.
O monstro está, na verdade, dentro da gente.
Eu costumo alimentar o meu com baked beans e fish and chips. E quem sabe uns tempurás quando eu estiver no Japão. ;)