lexotan 100mg

Por trás da cortina de fumaça escura lá vem ela.

Mas é que as coisas não vão nada, nada bem por aqui. Estou doente, mas nada externo é a causa, no entanto. As cicatrizes são o único sinal visível da dor. É, eu inaugurei uma nova modalidade de self-infliction. Porque, de repente, socar móveis, quebrar objetos ou bater a cabeça contra as paredes não mais têm sido eficazes para transformar a dor física em remédio que expulse a dor da alma do casulo que ela insiste em construir aqui dentro.

Mas sim, temos Lexotan.

E por causa dos comprimidos rosados que fantasiam de sono profundo a infelicidade, eu durmo sem sonhos desde sábado de manhã, quando ele veio aqui me consolar de problemas do mundo real (minha casa está desabando quase que literalmente, sigam a seta), e ao invés disso me fez sutilmente perceber o quanto eu sou desimportante.


O telefone do meu quarto também parece estar cansado do trabalho. Meu ar condicionado desistiu de lutar contra as aborrecidas oscilações de energia de uma casa cuja rede elétrica agoniza a olhos vistos (belo dia haveremos de entrar em curto e morrerei torrada, tal qual meus pães de queijo, ontem). A lâmpada do quarto e o ventilador de teto estouraram a ponto de empestear o ar com o fedor do fogo que não chegou a queimar. Uma das caixas de som do meu system entregou os pontos e emudeceu em protesto. A TV alienou-se e só sintoniza a rede Bobo. O gabinete do PC se compraz em me torturar com choques. A base da webcam partiu-se há muito, e o durepóxi necessário ao conserto teima em não aparecer/funcionar. Partidos também estão os puxadores das gavetas da minha bancada. E o meu coração, mas bem, isso é o default. Ele já veio partido de fábrica. E, como sabem, não há conserto/emenda possível.

Ok, eu quebro coisas, sim. Mas eu não quebrei essas. Só que, exatamente como o idiota que passa o dia na praia assustando os demais fingindo afogamento (e, quando efetivamente se afoga, ninguém acredita mais), eu também não tenho mais créditos de confiança. Ninguém acredita, ninguém ajuda, TODOS me culpam, e eu vejo minhas coisas (que são as únicas que eu tenho de verdade) indo embora. Nem elas ficam.

A companhia do menino da bicicleta traz risadas de brinde, mas o eco delas é amargo e envenena o sorriso. Risos temerosos de que sejam os últimos. Sim, ele me ama mas não me ama. Ele se importa mas não se importa. Ele me quer mas não me quer. E eu já sabia. Mas reafirmar entre sorrisos e com um arzinho blasé de "assim é a vida", well, it fucking hurts. É sentir-se ficando para trás enquanto o outro caminha. Por outro caminho. Que eu me vi impedida de percorrer.

E as palavras dele fazem "ploft!" nas ilusões que eu acreditava eternas. E sim, infelizmente elas são. Mas do modo errado. Não morrem quando frustradas, como deveriam (para o bem dele, para o meu bem). As palavras dele as transformam em pó, mas ao invés de jogar um balde d'água na sujeira eu simplesmente varro tudo para debaixo do tapete. E quando for mudar a decoração. vou achar de novo, sob a bonita tapeçaria nova, o mesmo pó de sentimentos ressequidos. Que, ao contato com o ar, se transformarão de novo em tristeza.

Tudo está se partindo em pedaços bem pequenos. E pontiagudos. Daqueles que machucam e não se podem colar juntos novamente. A casa e minhas coisinhas. Meu melhor amigo, meu todas-as-coisas.

A gente cansa e desiste de tanto... De insistir com pessoas. De caminhar para chegar a um ponto. De um trabalho que paga mal. De uma tarefa que se revela tão exaustiva quanto inútil.

Por que não se pode cansar de viver em paz, sem ser julgado fraco?

E essa caixa de Lexotan não vai durar pra sempre.

love.does.not.fit

Dormir à tarde é muito, muito bom. Dormir é uma coisa engraçada. Dormir pode servir de fuga. Por isso as pessoas depressivas dormem demais. O sono é uma semi-morte, e a morte é a Fuga das fugas. Para aqueles que não têm coragem, ou vontade, de cortar os pulsos: pílulas de dormir. Mas em quantidades corretas, para que não se cruze a ponte antes do tempo.

Morfeu guarda a entrada da ponte, e nos convida a atravessá-la até a metade. Lá embaixo corre um rio de águas revoltas, mas que estranhamente consegue refletir coisas. E refletidas nessas águas, cenas alegres e tristes de nossas vidas. Talvez não nos lembremos delas se voltarmos para trás. Não nos lembraremos se continuarmos a cruzar a ponte. Mas ei, Morfeu chama! Não caminhe além da metade da ponte! Mas nós caminhamos. É como se os pés não mais obedecessem. E, olhando para baixo, notamos que as águas vão ficando mais calmas. Mas, estranhamente, não há mais reflexos. Não há mais cenas, nem tristes, nem alegres. Não há mais sentimentos em nossos corações por elas. Não há mais a voz de Morfeu, nos chamando de volta. De repente não há mais rio. De repente não há mais ponte. De repente não há mais nada.

Morrer deve ser assim, porque é assim que eu quero que seja.

Se as pessoas soubessem o quanto aprecio a sinceridade, não mentiriam para me agradar. Mas elas também deveriam saber que há palavras que não podem ser ditas. Há palavras proibidas. Principalmente para pessoas que se conhecem há pouco tempo. Há palavras que só podem ser trocadas por almas irmãs. Almas que se escondem debaixo da escada pra trocar segredos que não doem, porque nunca foram segredos (almas irmãs sabem tudo umas das outras sem a necessidade de palavras). E então eu fico triste. Triste porque acho que estou sozinha debaixo da escada. Não que isso seja ruim - não é. Mas eu estava começando a raciocionar burramente e a fantasiar coisinhas, como um futuro colorido feito um pote de jujubas em cima da geladeira. Para uma criança encantada, que no entanto não pode alcançá-lo. Mas a simples visão das balinhas enlouquece os olhos, enche de água a boca e promete um futuro próximo com sabor de açúcar.

Aí chega a mãe da criança, pega o pote de cima da geladeira e a) diz que o pote é de uma vizinha, que pediu para guardar ou b) mostra que não são jujubas, mas sim contas coloridas de plástico.

O que era doce, agora, tem gosto de polipropileno. O que era pra ser macio endureceu, e não tem cheiro de nada.

Eu estou triste. Meu coração está do tamanho de uma ervilha. Mas eu não estou chorando porque eu já sabia. Eu nasci pra ficar sozinha. Sem almas irmãs. Convivendo ocasionalmente com pessoas. Mas de longe. Porque de perto, elas têm espinhos. TODAS elas. Eu me sinto confortável assim, de longe...

Mas às vezes eu queria ter alguém pra brincar.

Uma noite clara de inverno.

"Por que as noites de inverno são claras e avermelhadas, e as de verão são escuras e cheias de estrelas?". Eu medito profundamente, agachada em frente à grade da porta da sala, contemplando o céu de julho enquanto o silêncio ao meu redor se faz quase absoluto, exceto pelo leve ruído do vento nas folhas do coqueiro do jardim. Pacificador. As pernas ressentem-se da posição incômoda doendo, e os mosquitos aproveitam a deixa para atacá-las impiedosamente. De fora não vem frio, nem calor; só o vento enjoado, cheirando à fumaça das várias fogueiras feitas para assar batata-doce ou queimar lixo. É o cheiro do inverno que eu sinto, e é a única coisa boa que posso ter. Há cerca de meia hora atrás os gritos haviam se diluído no silêncio, e aos meus pés, jazem trucidados metade dos móveis da sala. Eu fecho a porta de vidro, e com tudo quieto, observo os restos. E me sinto um deles, parte da desordem. E não deixa de ser bom me sentir parte de algo.

Reparo que o toca-discos permanece com a luzinha do led acesa. Ligado. Vou até ele, cuidando para não ferir-me nos cacos, mas ao invés de desligar, retiro metade do volume e introduzo novamente a agulha sobre o LP. "Strangers In The Night", do Frank Sinatra. A música é velha, mas linda, e seria perfeita se não lembrasse meu pai. Qual o problema de uma música bonita lembrar seu velho pai, você me perguntaria se fosse idiota, mas eu sei que não é. "Nenhum", eu responderia se você fosse idiota, "se ela não lembrasse um homem barrigudo, cantando e dançando entre bêbado e drogado pela sala, depois de quebrar metade dela, e você assistindo à cena debaixo da mesinha de centro (um dos poucos móveis mantidos inteiros), não sabendo se sobreviveria para ouvir o refrão seguinte". Parece filme, mas somos eu e meu pai, sozinhos, depois de minha mãe ter ido embora, desta vez para sempre, ao fim da última briga. Ela já havia partido outras vezes, e voltado outras ainda, mas desta vez eu e ele ficamos nos olhando sem nos ver por muito tempo no escuro, sabendo que a voz musicada da dona Mamãe não mais gritaria de ódio procurando por sua tesoura de costura, nem cantaria pela enésima vez errada "Era um garoto que como eu amava os Beagles e os Bolistom". Era curioso perceber o quanto de ruídos e onomatopéias novas a mãe criava por segundo quando ali. A melodia da casa silenciara-se.

Ele havia ido dormir. A garrafa de Contini Rosé vazava um cheiro etílico enjoativo, mas bebi o seu conteúdo, sentindo-me levemente subversiva. Foi a primeira vez em que, por livre iniciativa, eu tomava um "drinque". Abri a geladeira, peguei no bar um copo vistoso e entupi de gelo. Senti-me adulta e importante. Não tinha medo de que meu pai pudesse acordar - bêbado, suas noites eram longas e tranqüilas. Despejei por cima a bebida, fiquei admirando a transparência rosada do líquido mirando-a de encontro à luz das lâmpadas de mercúrio da rua. Que brilhavam admiravelmente dentro das minhas pedras de gelo. Custei a beber. Abri a porta da sala, subindo no braço do sofá para alcançar o cadeado, e sentei-me na rede. Quase meia-noite. Uma sensação deliciosa invadiu-me, não sei se por efeito da bebida, ou da liberdade e privacidade rara que eu experimentava. Estava sendo uma menina má, sabia disso e a consciência do fato era maravilhosa demais para ser abandonada por medo.

Fechei a porta por fora (sem o cadeado), joguei a chave para dentro da sala através da grade e, munida de outra (a do portão), sumi na escuridão vazia da Rua. Destino desconhecido, mas que os pés se recusaram a seguir, levando-me à porta da casa do Deco. Silêncio no breu repleto de mosquitos do quintal. TV ligada; haveria alguém em casa, ou fora esquecimento? - ele também bebia. Chamei uma, duas vezes o nome, bati na porta, mas não fui atendida. No rádio do vizinho, um programa de Flash-Back tocava "One Day In Your Life", do Michael Jackson. Meia-noite. O programa acaba, o rádio emudece, em breve a luz na sala do Deco se apaga. Estou só, em meio às muriçocas, as únicos que parecem notar-me. Volto para casa decepcionada, e já na varanda lembro que joguei para dentro da sala a chave da porta de grade. Durmo na rede, sabendo que na manhã seguinte serei despertada a pontapés, mas não é isso, eu sei, que causa essa estranha sensação de perda, nem tampouco seria a angústia causada pela bebida, ou a partida da minha mãe. Ou quem sabe tudo isso junto? Mas eu já sabia que havia perdido muito mais.

Aquela foi a última noite da minha infância. E eu tinha apenas seis anos.

Filosofia barata.

(página de diário, anos 90)
Eu me lembro de quando a vida era simples, e como era fácil fazer as transições do dia-a-dia. Eu me lembro quando coisas comuns como a chuva me deixavam feliz, e de como era fácil desistir de se proteger dela e tomar banho de chuva, na rua.

Eu me lembro de quando o maior problema na vida era quando a cabeça da Barbie saía (quem brincou de Barbie sabe o quanto era difícil recolocar...).

E eu queria esses dias de volta.

Os dias em que você podia estar morrendo de ódio de alguém, e ver tudo isso passar em questão de minutos. Dias onde ver uma borboletinha amarela com um desenho bonito nas asas me deixaria estupidamente feliz. Eu quero que duas ou três palavrinhas voltem a ter o poder de resolver todos os problemas. Quero voltar a enxergar através das coisas mais corriqueiras e ver a graça única que todas elas guardam. Quero que a reconciliação de grandes amizades abaladas venha tão fácil e sincera quanto dizer: "vamos ficar de bem?".

Agora, nada é tão simples.

Eu sou adulta, e com problemas de adultos. Pensei que eu seria muito velha quando isso chegasse, mas eu me sinto jovem e infeliz por ter visto isso tudo chegando tão antes da hora. Problemas, problemas e problemas.

Problemas que eu gostaria de poder resolver, mas principalmente, problemas que eu gostaria de jamais ter tido.

Rainy days are beautiful...

...mas nem tão belos quando se quer voltar pra casa numa quarta feira calorenta, desaba aquele aguaceiro e você lá, sem guarda chuva, vestindo roupas pesadas que pesam ainda mais depois de molhadas. Ou seria isso importante?

Mas não foi isso o que aconteceu hoje. Podia ter sido, mas eu tive alguma sorte, e quando a chuva desabou, eu estava dentro do ônibus - e antes que eu descesse ela serenou. Obrigada, chuva, por me proteger e por me deixar assistir de camarote (voltei pra casa sentadinha, e na janela!) o espetáculo do "céu noturno" às quatro e meia da tarde, das nuvens cinza chumbo se espalhando num céu que lutou enquanto pôde para se manter claro, do estrondo (para mim, encantador) dos trovões se aproximando, e é claro, os relâmpagos. Eu amo relâmpagos. E hoje à tarde eles caíram grossos e fartos, atraídos pelos pára-raios das margens da Av. Brasil, transformando o céu num enorme letreiro de neon. Lindo. Tem gente que bate palmas pra pôr-do-sol na praia. Eu queria aplaudir tempestades de pé.

E nós, as pessoas correndo pra se proteger da chuva? Acho engraçado. Principalmente se sem sombrinha, devíamos relaxar. O que se perde, enfim, chegando-se em casa ensopado? Nada. Água não mata ninguém. O problema é que a obsessão por fazer as coisas "seguindo o padrãozinho" estraga tudo, mata as vontades. E então preferimos não estragar o penteado ou não molhar a camisa nova do que nos permitir sentir o carinho meio sem jeito que os pingos duros de uma chuva forte fazem na pele. Morri de saudade de um bom "rain shower" hoje, ao ver idiotas buscando marquises enquanto um mendigo repousava sereno dentro de uma poça d´água. Só os mendigos são felizes. Eles mandaram as convenções sociais à merda e sentam-se à beira do caminho rindo da cara dos transeuntes do sistema.

É bastante sintomático que a maioria das pessoas que foram (ou são) significativas na minha vida, tenham dividido um banho de chuva comigo. Deve ser uma espécie de batismo. Saudade de me enfiar debaixo de um toró. Mas será que eu ainda consigo ligar o dane-se e não me preocupar com a roupa, com os livros dentro da bolsa, com o tênis que pode descolar a sola na água?

Tomara que sim.

Quando eu era criança, só tinha medo dos raios, nessa hora (sim, todo mundo já ouviu histórias horríveis de raios matando gente... E as avós: "não fale ao telefone enquanto estiver chovendo", "não fique perto de espelhos, nem debaixo de árvores", "não segure nada de metal"... Um medo bom, um risco calculado, que fazia o meu coração acelerar de susto-prazer-suspense quando o céu se iluminava). Eu vou saber, depois do próximo banho de chuva, se eu finalmente virei adulta.

Tomara que não.








porque hoje é sábado

O telefone nem ameaça tocar. Bani meus contatos.

O bina pifou. Mesmo assim, não atenderia a chamada. Do outro lado da linha, pode haver de tudo. Não gosto de surpresas.

Mas o telefone não toca. É sábado, as pessoas têm medo de mim e precisam realizar seus sonhos - que eu sempre mato.

As amigas comprometidas fazem o programa básico de todo o fim de semana com o namorado. Sempre o mesmo programa, em todo fim de semana, até que o cara se encha do programa, se encha delas e elas se encham de lágrimas no sábado sem ele.

As amigas solteiras programam idas ao Bar do Bolla, à Bunker, ao Santa Fé, ao Amarelinho. Depende da tribo. E depende de onde o candidato a macho da vez esteja freqüentando - só que para FUGIR delas. E elas fingem não perceber.

É sábado, as pessoas TÊM que sair. Passar o sábado em casa, imagina que absurrrdo!

As rádios são maravilhosas aos sábados, eles tocam o que deixaram de tocar há muito tempo porque era BOM demais e os ouvintes idiotas não pediam pra ouvir. Afinal, eles não estão ouvindo, mesmo - sábado é o dia de NÃO ouvir, sábado é o dia de FAZER acontecer. De ir pra night, comer pipoca na praça, de subir no terraço de casa e tomar banho de borracha/mangueira, de fazer as unhas, de enrolar o cabelo, de testar aquela máscara de pepino Ó-TI-MA pra pele, que elimina rugas de ansiedade oca e o inchaço dos olhos que não dormem.

Dia de soltar pipa. Dia de andar para cima e para baixo, sem rumo na rua e na vida, só "pra ver qual é" e passar de short curto na frente daquele gatinho, quem sabe ele me olhe, e... Não, ele não olha. Está cortando no serol a pipa daquele mané que ele não suporta. Isso vale mil gatinhas de short curto. Porque elas sempre existirão, mas cortar a pipa daquele escroto... chance única.

Dia de assistir vídeos. De fazer e comer aquela insuportável pipoca de microondas. Mastigando o vácuo de uma existência sem nenhum objetivo ou prazer aparentes. Dia de ouvir toda a sua coleção de CDs do Jehtro Tull. Dormir à tarde, brincar com as crianças e sentir-se normal e saudável, e até feliz por fazer isso. Feliz pela sua vidinha repetitiva e medíocre dar tão certo e você se sentir abençoado por ter feito o que, no fim das contas, qualquer um acaba fazendo.

Hoje é sábado, crianças. Go outside and get a life. A real one.