Rainy days are beautiful...

...mas nem tão belos quando se quer voltar pra casa numa quarta feira calorenta, desaba aquele aguaceiro e você lá, sem guarda chuva, vestindo roupas pesadas que pesam ainda mais depois de molhadas. Ou seria isso importante?

Mas não foi isso o que aconteceu hoje. Podia ter sido, mas eu tive alguma sorte, e quando a chuva desabou, eu estava dentro do ônibus - e antes que eu descesse ela serenou. Obrigada, chuva, por me proteger e por me deixar assistir de camarote (voltei pra casa sentadinha, e na janela!) o espetáculo do "céu noturno" às quatro e meia da tarde, das nuvens cinza chumbo se espalhando num céu que lutou enquanto pôde para se manter claro, do estrondo (para mim, encantador) dos trovões se aproximando, e é claro, os relâmpagos. Eu amo relâmpagos. E hoje à tarde eles caíram grossos e fartos, atraídos pelos pára-raios das margens da Av. Brasil, transformando o céu num enorme letreiro de neon. Lindo. Tem gente que bate palmas pra pôr-do-sol na praia. Eu queria aplaudir tempestades de pé.

E nós, as pessoas correndo pra se proteger da chuva? Acho engraçado. Principalmente se sem sombrinha, devíamos relaxar. O que se perde, enfim, chegando-se em casa ensopado? Nada. Água não mata ninguém. O problema é que a obsessão por fazer as coisas "seguindo o padrãozinho" estraga tudo, mata as vontades. E então preferimos não estragar o penteado ou não molhar a camisa nova do que nos permitir sentir o carinho meio sem jeito que os pingos duros de uma chuva forte fazem na pele. Morri de saudade de um bom "rain shower" hoje, ao ver idiotas buscando marquises enquanto um mendigo repousava sereno dentro de uma poça d´água. Só os mendigos são felizes. Eles mandaram as convenções sociais à merda e sentam-se à beira do caminho rindo da cara dos transeuntes do sistema.

É bastante sintomático que a maioria das pessoas que foram (ou são) significativas na minha vida, tenham dividido um banho de chuva comigo. Deve ser uma espécie de batismo. Saudade de me enfiar debaixo de um toró. Mas será que eu ainda consigo ligar o dane-se e não me preocupar com a roupa, com os livros dentro da bolsa, com o tênis que pode descolar a sola na água?

Tomara que sim.

Quando eu era criança, só tinha medo dos raios, nessa hora (sim, todo mundo já ouviu histórias horríveis de raios matando gente... E as avós: "não fale ao telefone enquanto estiver chovendo", "não fique perto de espelhos, nem debaixo de árvores", "não segure nada de metal"... Um medo bom, um risco calculado, que fazia o meu coração acelerar de susto-prazer-suspense quando o céu se iluminava). Eu vou saber, depois do próximo banho de chuva, se eu finalmente virei adulta.

Tomara que não.








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