Uma noite clara de inverno.

"Por que as noites de inverno são claras e avermelhadas, e as de verão são escuras e cheias de estrelas?". Eu medito profundamente, agachada em frente à grade da porta da sala, contemplando o céu de julho enquanto o silêncio ao meu redor se faz quase absoluto, exceto pelo leve ruído do vento nas folhas do coqueiro do jardim. Pacificador. As pernas ressentem-se da posição incômoda doendo, e os mosquitos aproveitam a deixa para atacá-las impiedosamente. De fora não vem frio, nem calor; só o vento enjoado, cheirando à fumaça das várias fogueiras feitas para assar batata-doce ou queimar lixo. É o cheiro do inverno que eu sinto, e é a única coisa boa que posso ter. Há cerca de meia hora atrás os gritos haviam se diluído no silêncio, e aos meus pés, jazem trucidados metade dos móveis da sala. Eu fecho a porta de vidro, e com tudo quieto, observo os restos. E me sinto um deles, parte da desordem. E não deixa de ser bom me sentir parte de algo.

Reparo que o toca-discos permanece com a luzinha do led acesa. Ligado. Vou até ele, cuidando para não ferir-me nos cacos, mas ao invés de desligar, retiro metade do volume e introduzo novamente a agulha sobre o LP. "Strangers In The Night", do Frank Sinatra. A música é velha, mas linda, e seria perfeita se não lembrasse meu pai. Qual o problema de uma música bonita lembrar seu velho pai, você me perguntaria se fosse idiota, mas eu sei que não é. "Nenhum", eu responderia se você fosse idiota, "se ela não lembrasse um homem barrigudo, cantando e dançando entre bêbado e drogado pela sala, depois de quebrar metade dela, e você assistindo à cena debaixo da mesinha de centro (um dos poucos móveis mantidos inteiros), não sabendo se sobreviveria para ouvir o refrão seguinte". Parece filme, mas somos eu e meu pai, sozinhos, depois de minha mãe ter ido embora, desta vez para sempre, ao fim da última briga. Ela já havia partido outras vezes, e voltado outras ainda, mas desta vez eu e ele ficamos nos olhando sem nos ver por muito tempo no escuro, sabendo que a voz musicada da dona Mamãe não mais gritaria de ódio procurando por sua tesoura de costura, nem cantaria pela enésima vez errada "Era um garoto que como eu amava os Beagles e os Bolistom". Era curioso perceber o quanto de ruídos e onomatopéias novas a mãe criava por segundo quando ali. A melodia da casa silenciara-se.

Ele havia ido dormir. A garrafa de Contini Rosé vazava um cheiro etílico enjoativo, mas bebi o seu conteúdo, sentindo-me levemente subversiva. Foi a primeira vez em que, por livre iniciativa, eu tomava um "drinque". Abri a geladeira, peguei no bar um copo vistoso e entupi de gelo. Senti-me adulta e importante. Não tinha medo de que meu pai pudesse acordar - bêbado, suas noites eram longas e tranqüilas. Despejei por cima a bebida, fiquei admirando a transparência rosada do líquido mirando-a de encontro à luz das lâmpadas de mercúrio da rua. Que brilhavam admiravelmente dentro das minhas pedras de gelo. Custei a beber. Abri a porta da sala, subindo no braço do sofá para alcançar o cadeado, e sentei-me na rede. Quase meia-noite. Uma sensação deliciosa invadiu-me, não sei se por efeito da bebida, ou da liberdade e privacidade rara que eu experimentava. Estava sendo uma menina má, sabia disso e a consciência do fato era maravilhosa demais para ser abandonada por medo.

Fechei a porta por fora (sem o cadeado), joguei a chave para dentro da sala através da grade e, munida de outra (a do portão), sumi na escuridão vazia da Rua. Destino desconhecido, mas que os pés se recusaram a seguir, levando-me à porta da casa do Deco. Silêncio no breu repleto de mosquitos do quintal. TV ligada; haveria alguém em casa, ou fora esquecimento? - ele também bebia. Chamei uma, duas vezes o nome, bati na porta, mas não fui atendida. No rádio do vizinho, um programa de Flash-Back tocava "One Day In Your Life", do Michael Jackson. Meia-noite. O programa acaba, o rádio emudece, em breve a luz na sala do Deco se apaga. Estou só, em meio às muriçocas, as únicos que parecem notar-me. Volto para casa decepcionada, e já na varanda lembro que joguei para dentro da sala a chave da porta de grade. Durmo na rede, sabendo que na manhã seguinte serei despertada a pontapés, mas não é isso, eu sei, que causa essa estranha sensação de perda, nem tampouco seria a angústia causada pela bebida, ou a partida da minha mãe. Ou quem sabe tudo isso junto? Mas eu já sabia que havia perdido muito mais.

Aquela foi a última noite da minha infância. E eu tinha apenas seis anos.

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