Dear Diary

Ontem fez calor por algumas boas horas. O céu estava lindo e então, sentada na parte descoberta do terraço, resolvi desenhá-lo. Gosto de tentar guardar na memória as coisas bonitas que se apresentam a mim, mas como a minha é fraca... Dizem que elefantes têm uma memória proporcional ao peso. Se for verdade, e se o peso for mesmo o critério, então eu tenho memória de formiguinha. De plâncton. De serzinho unicelular.

Não havia lápis de cor, então eu desenhei o céu com lápis comum, mesmo. Não pude guardar o azul, o sol branco de tão claro que cegava os olhos e não me deixava ver sua forma para poder desenhá-lo. Nem os raios que escapavam por entre as brechas das nuvenzinhas. Falando em nuvens, a única coisa que ficou realmente perfeita no desenho foram elas, já que são brancas, da cor do papel, e não precisaram ser pintadas. Só que o céu do desenho ficou cinza, a cor do grafite. Cor de tempestade forte chegando. E eu fiquei feliz do mesmo jeito, porque gosto do céu cor-de-chumbo que anuncia trovoadas e gotas grossas e barulhentas. A melodia das tempestades me deixa feliz. A própria palavra, tem-pes-ta-de, me deixa feliz. Ela é forte, poderosa. Um lindo nome para a filha que eu nunca vou ter: Tempestade.


Terminado o desenho, olhei para o céu novamente, e vi que, sem querer, adivinhei o futuro. Um canto do horizonte já estava tomado por uma mancha negro azulada. Como eu quis ter um lápis dessa cor nesse momento! Não tinha. Fotografei o céu com a retina, mas sabia que não ia durar muito tempo lá. Amanhã não lembrarei da cor, depois não lembrarei da forma e do tamanho da mancha, e por fim não lembrarei de nada. E então fiquei triste pela morte inevitável daquela lembrança, e tive vontade de chorar. Depois me lembrei de que vinha vindo uma tem-pes-ta-de, e isso era motivo para sorrir. E lembrei de “well i wonder” dos smiths, que sempre me lembra chuva, e que gosto de ouvir quando chove. Não só porque tem barulho de chuva começando a cair, no final. Mas porque ela é triste, e gosto de ouvir coisas tristes na chuva.

Por que ela é triste? Porque a história é triste. É um menino tímido que não sabe se a pessoa que ele gosta sabe que ele existe. E ele não quer ser esquecido, mas nem sabe se é lembrado. O que pode ser pior do que ignorarem o nosso amor? É ignorarem a nossa existência. Será que o outro me vê? Será que alguma vez me viu? E se sim, será que despertei o mesmo interesse que uma pedra? Ou será que sou especial à distância, como ele é para mim? Nossa. Que conversa mais menininha. Eu não estou nessa situação. Não estou. Não estou. Não estou. Quanto tempo leva para algo que a gente repete tornar-se realidade? É só uma dúvida.

Gotas pesadas de água (vindas sabe-se lá de que oceano - ou poça d'água - do mundo) caíram na minha cabeça e fizeram manchas no caderno. Fechei meu desenho e olhei para o céu. Iguais, as manchas do céu e as que vieram parar no meu desenho. Fiquei feliz. Agora, mesmo que morresse a memória da retina, ela ressuscitaria no papel todas as vezes que eu a buscasse. O papel é o baú dos sentimentos e das imagens. Bendito seja, guardião das memórias fujonas.

Do you hear me when you sleep? I hoarsely cry.
Do you see me when we pass? I half die.
Please keep me in mind.

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