Na ida para o trabalho hoje me deparei com uma cena ins?lita. Uma aglomera??o no ponto de ?nibus, e eu quis voltar mas a curiosidade m?rbida adivinhou a raz?o do tumulto e eu segui, como se guiada pelo cheiro do sangue. E sim, ele estava l?, uma po?a oce?nica do rubro fluido da vida - mas que naquele instante representava a morte em estado l?quido.
E, boiando em suas calmas ?guas, uma cabe?a humana esmigalhada.
Meus olhos grudaram no peda?o de osso do cr?nio que se expusera em fratura. Eu n?o sabia ainda se o morto era homem ou mulher, crian?a ou velho, preto ou branco. Era o peda?o alvo de cr?nio saltando para fora do que antes havia sido uma cabe?a que me consumia a aten??o. Inteira. A chuva come?ava a cair e eu sequer me dei conta. O tr?nsito foi sendo lentamente desviado, os motoristas dos ?nibus trafegavam devagar engarrafando a avenida, para que os passageiros tivessem a oportunidade de enfiar os olhos vidro afora e contemplar a cat?strofe matinal. Desviei os meus pr?prios da morte por um instante para voltar a contemplar a vida que piscava nos olhos daquela gente. Um misto de horror-com-curiosidade-com-pavor-com-al?vio (”ufa, eu ainda estou vivo”).
Ainda, tolos. Ainda.
E ser? que est?o, mesmo?
N?o senti nada disso. Fora o interesse biol?gico (coisa de m?dico) pelo estado geral do cad?ver (enfim, era homem, mulato e calvo) e o deleite com que a minha reprov?vel morbidez buscava cada peda?o de massa encef?lica around, havia a vontade de chorar em solidariedade ao abandono daquele corpo… E esses confrontos com o acaso cruel me aterrorizam. Decididamente o senhor X n?o sa?ra aquela manh? de casa pra morrer, depois de tomar banho, engolir um caf?, vestir-se e pensar na vizinha gostosa que ia pegar no final de semana… Podia ter sido eu. Pode ser voc?, qualquer dia desses. E isso me poda e me estimula, ao mesmo tempo.
Fui pegar o ?nibus em outra esquina. Atrasei-me apenas quarenta minutos, e por sorte a supervisora chegou atrasada, tamb?m. Aquela cena se repetiu na minha cabe?a por toda a manh?. Eu oscilava estados de tristeza, de medo e uma sensa??o escrota de PAZ que sinto ao ver gente morta. Da?, logo depois do almo?o, havia um trabalhinho a fazer em outra empresa que divide espa?o conosco e, ao chegar na sala do supervisor operacional, me deparo com a criatura fazendo a digest?o enquanto browseava num desses sites bizarros/m?rbidos. Estava numa p?gina que exibia fotos de fetos com anomalias cromoss?micas. Anotei mentalmente a url e fucei o site assim que voltei para a minha mesa. E no meio daquela galeria de cat?strofes que os vivos adoram testemunhar para se regozijar internamente pelo fato de ainda respirarem, encontrei uma foto MUITO parecida com o que eu havia visto de manh?. MUITO.
Olhei por dez segundos antes de fechar o browser e correr para n?o vomitar em cima do micro. Consegui chegar ao banheiro mas n?o vomitei nada, apesar de o meu est?mago ter dado mil voltas durante todo o tempo que fiquei l?, sentada na privada, levada ? nocaute por uma dor de cabe?a pugilista.
Muita coincid?ncia pra um dia s?? Okay, ent?o terminemos o post com mais uma: entre os emails recebidos hoje, o da Camilla me trouxe um link precioso: esse. Sim, fotos de gente morta, mas a filosofia da coisa ? totalmente diferente da dos sites no estilo do rotten.com. Eu sempre gostei de post morten pictures, mas como se fazia na era vitoriana, onde o h?bito mandava fotografar os entes queridos depois da “passagem”. Minha fam?lia tem algumas fotos assim, muito antigas (anos 50, creio eu), o que despertou meu interesse. S? que a literatura virtual sobre o assunto ? escassa. Imagens, ent?o, nem se fala. E ent?o eu descubro que h? um livro sobre essa pr?tica, cheio de fotos e particularidades. O nome ? po?tico, Sleeping Beauty (vide link acima), e pelos beleza dos samples que vi por l?, o t?tulo ?, de fato, bastante apropriado. Me apaixonei pelo bagulho e ele foi J? pra minha wishlist.
A morte pode ser linda. A morte pode ser pavorosa. A morte s? n?o pode ser evitada - eis o que me assusta e atrai.