Housekeeper blues

Não lavo, não passo. Minhas roupas limpas estão acabando, e as fedidas habitam o interminável vão do cesto de roupa suja. Começo a repetir modelitos e isso depõe contra a minha imagem.

Não cozinho. Mas não me queixo do menu atual; estou comendo apenas o que gosto - ou seja, lixo. Chato é que mesmo o lixo precisa ser cozido antes de ser mastigado, o que dificulta sobremaneira o processo. Mas para isso tenho meu AAA - Assessor para Assuntos Alimentares, sempre a postos. Namorado ajudando com as panelas. Faz uma sujeira descomunal, mas não tô nem aí.

Não lavo, não passo, não cozinho, e também não limpo.

* * *

Mamãe anda toda a enfermaria enchendo o saco alheio e quer voltar pra casa. Só depende do médico. Ela terá que fazer curativos todos os dias e se entupir de antibióticos, mas qualquer tortura é melhor do que aquele hospital. Deve voltar pra casa amanhã ou quinta. "Over to the moors, take me to the moors, dig a shallow grave and I'll lay me down", canta o Morrissey, e canto eu, subindo as rampas escuras, longas e desertas que dão acesso à enfermaria. As mesmas por onde, vez por outra, descem  cadáveres. Ok, eu podia usar a escada, mas ando mal do coração (falo sério, preciso ver um cardio rápido) e o clima mórbido da rampa é cool. Tem uma inclusive com iluminação ainda mais precária, que leva diretamente pro necrotério. Ela é MUITO soturna. Vontade de descer pra espiar não falta.

Eu acho que tenho problemas, talvez não seja normal. Mas ficar esmiuçando características da minha personalidade para as quais eu dificilmente acharei explicação é perda de tempo. E mesmo que talvez hoje tenha sido o último dia que subi aquelas rampas, eu sempre vou me sentir feliz ao cantar esse trechinho de "Suffer Little Children".

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