N?o sei se por causa dos quebra-paus entre meus pais, que foram a festa na minha inf?ncia, eu nunca levei o amor a s?rio. Hoje n?o sei se de fato as palmas das minhas m?os batendo uma contra a outra e os sorrisos atr?s de portas eram de fato excita??o ou ansiedade, como tamb?m n?o posso afirmar se as marcas deixadas foram tatuagens ou cicatrizes, se enfeitam ou se doem - fato ? que elas est?o aqui, t?m que estar.
Porque nada mais explicaria esse iceberg aqui dentro.
E ent?o eu passei a inf?ncia brincando de Barbies que eram modelos famosas ou empres?rias de sucesso, mas que nunca tinham namorado (dezenove Barbies ao todo, mas apenas dois Ken, que sempre ficavam esquecidos dentro das caixas de brinquedo), e a adolesc?ncia viciada em carros importados, futebol e armas, subjects tipicamente masculinos (pra talvez erguer uma barreira de testosterona entre eu e a minha incipiente feminilidade - voc?s sabem, esmalte, ?gua oxigenada e batom, essas armadilhas pra enganar e pegar garotos).
Eu queria estar longe deles, e para tanto, em se tratando de amor e sexo, nada melhor do que SER um deles. E ent?o d?zias de camisetas de times de futebol, gavetas cheias de camisas de banda, palavr?es heavy metal, pele ralada (e definitivamente estragada, i must admit…) por quedas nas estripulias, um ano e meio ouvindo rock pesado, madrugadas inteiras perdidas na frente do super nintendo, esfolando o polegar no joystick pra ser t?o foda, mas t?o foda nos shoryukens que os meninos teriam medo de mim, aqueles vermes.
Como eu tinha inveja deles.
E raiva das amiguinhas, dos shorts jeans curtinhos, do “suti?s-menina-mo?a” (para seios que ainda nem existiam, a n?o ser na vontade das donas), dos brincos “folheados a ouro”, que de ouro nada tinham, da orelha-furada-em-dois-lugares, do esmalte azul da carla perez, do brilho labial sabor morango Topsy da Avon, dos absorventes higi?nicos, e da alegria indiz?vel que isso causava nelas, e das hist?rias que contavam, dos cantinhos escuros que frequentavam acompanhadas, das rodinhas de segredinhos das quais eu estava pra sempre exclu?da, por vontade delas, por des?gnio da vida, por minha causa, porque eu havia escolhido ser um deles mas era uma delas, ou seja, eu era A_Aberra??o, pessoas.
E eu achava (?) isso muito bom.
E ent?o eu encontrei um menino legal.
E agora eu sei que vou sentir falta dele, porque o tempo passou, porque eu n?o tenho mais tanto medo das minhas unhas bonitas (por causa minha, por causa dele tamb?m), porque com ele eu podia ser igual a ele e muito diferente dele ao mesmo tempo, e sim, isso ERA bom. Podia sentar num bar e dar nota pras bundas das meninas, podia encher a cara de cerveja durante os jogos de futebol, podia falar sobre as m?sicas que s? n?s dois no mundo conhec?amos, mais ningu?m, e pensar que o mundo s? precisava de n?s dois pra ser um lugar melhor (nem que fosse s? pra n?s), mais ningu?m. E tamb?m podia querer comprar lingerie, podia gostar de v?-la desaparecer pra debaixo da cama bem r?pido, podia falar obscenidades cheias de ternura e n?o ter medo de desvestir a carapa?a e ter coragem de ser covarde, fr?gil, de vez em quando.
E agora eu vejo todas essas coisas entrando pro grosso e velho scrapbook de mem?rias e balan?o a cabe?a dando raz?o a mim mesma, porque embaixo do verniz brilhante das coisas bonitas h? a crosta malcheirosa e suja das coisas feias, e era ela que aparecia pra estragar o cen?rio quando eu estava quase acreditando que podia ser feliz.
Mas ainda assim eu sei que vou sentir falta dele, porque num mundo de meninos feios, bobos e chatos, que puxam o meu cabelo em boates, que acham que danoninho vale por um bifinho e que um tr?ceps vale por mil neur?nios, que acham que mulheres nasceram apenas pra serem bonitas e fazer sexo oral direito, que confundem intelig?ncia com cultura de almanaque, que se acham especiais mas fazem tudo o que os seus amigos esperam (inclusive dar um fora numa garota legal s? porque a turma n?o gosta dela, e hell, como eu j? vi isso acontecendo…), que n?o sabem conversar, s? imp?r opini?es, que s?o profundos feito a piscininha das crian?as no clube, que s? pensam em ser, ser, ser, em ter, ter, ter, mas que acabam a vida tristes jogando pedra nos pombos da pra?a, consumidos pela ir?nica certeza de que n?o s?o e nem t?m nada (ou ningu?m)… Por escolha pr?pria.
Nesse mundo, ele era diferente. Ele era pra mim, sabe?
E agora eu vou ali chorar um pouco e vestir aquela minha camiseta do Barcelona e tentar voltar a acreditar que “love is natural and real, but not for such as you and I, my love”.