soundtrack interna: “ler?, ler?, ler?ler? ler???… vida de negro ? dif?cil…”
Ok, j? deu pra notar que eu estava no trabalho, right? And not so suddenly, the phone rings.
- ? pra voc?
- …
- Al?? - digo eu, incerta. Ningu?m liga pro meu trabalho. Me preparo para a not?cia de que minha m?e teve uma crise de septicemia cr?nica (eu sei que isso n?o existe, certo?) e bateu as botinas.
- Est? nervosinha? - ? a voz dele. Adolf. Consigo ouvir o risinho-de-canto-de-boca que ele nem deu.
- Voc? sempre fica nervosinha quando eu te ligo aqui no trabalho (o detalhe interessante ? que essa foi apenas a SEGUNDA vez que ele fez isso, e j? se sente capaz de tra?ar um padr?o de comportamento… Pfe).
- Eu n?o estou nervosa, s? estou ocupada (isso, garota, FODE ELE).
- E eu s? liguei pra dar sinal de vida (”quem pediu por isso???”, ? a pergunta que n?o calaria, se eu n?o a tivesse engolido feito uma colherada de ?leo de f?gado de bacalhau quente). Faz tempo que eu n?o ligo (detalhe 2: ele n?o ligava h? dois dias, quando ? natural ficar quase uma semana sem telefonar)…
- Hm.
- ? que meu telefone est? mudo, e com esse calor eu n?o tenho coragem de sair pra ligar da rua (sim, mas EU posso sair ?s ruas para a lida, enquanto ele fica at home fritando batatas e ouvindo Pink Floyd).
- Se deixasse pra ligar pra minha casa n?o ia me achar hoje. Saindo daqui eu vou ao Norte Shopping pagar a fatura da Renner.
- Por que no Norte Shopping??
- Porque na nossa cidade n?o tem loja da Renner, claro. E s? se pode pagar faturas de l? nas pr?prias lojas. Vou pegar uma kombi, porque aqui perto do trabalho n?o passa ?nibus pro Norte Shopping, e…
- Deixa eu desligar antes que eu me aborre?a mais. Voc? faz TU-DO errado!
- O que h? de errado em ir pagar uma fatura???
- De Kombi?? A? na capital? Voc? vai tomar um tiro na testa antes das seis da tarde hoje, espero que tenha tempo de se lembrar dessa minha profecia, quando ela se cumprir.
E a? ele reclama mais um pouco at? desligar.
Eu deposito o fone no gancho e volto para a minha mesa, pensativa. Noutros tempos eu teria chorado. Agora essas atitudes, que fariam algumas meninas vibrar de felicidade pela “preocupa??o e z?lo” demonstrados, s? jogam mais uma p? de piche sobre a estrada que me afasta daquilo que eu pensava ser a perfei??o. Estou caminhando pra longe e, como tenho um p?ssimo senso espacial (?, eu consigo me perder dentro de uma casa de cinco c?modos), ? prov?vel que, uma vez longe, eu esque?a o caminho de volta. Isso n?o ? preocupa??o, nem z?lo. ? neurose. Psicose man?aco-obsessiva. Isso precisa de tratamento m?dico - e n?o da minha condescend?ncia for?ada e aviltante.
E eu ainda estava na rua quando ele ligou pra minha casa, a mamma disse. Se pra se desculpar, ou reclamar mais, ou saber se a tal bala perdida havia encontrado um lar na minha cabe?a, n?o sei. Nunca vou saber, porque n?o vou perguntar, porque n?o quero saber e porque n?o me interessa mais.
O definitivo adeus do amor ? o poema
Foste ausente e eu cumpri, com a c?nica resigna??o
de conhecido o caminho, o urbano rito de perder-te.
Tu sabes. Fiz-te um brinde solene, depois outro…
Depois muitos, at? que tu n?o mais me do?as
e eu fui morrer de frio num outro bra?o.
Mas a todas estas coisas fiz cumprir de olhos secos,
e vesti-me de amargura como de preto as vi?vas:
por adequado o traje, n?o o luto.
Enfim, eis os teus irrevers?veis versos.
Limpamo-nos um do outro sem maior dano
que acrescentar descren?a a um sonho j? roto.
N?o houve fotografia para rasgar, nem um c?o que
sinta tua falta ou crian?as para dividir. Nenhum amigo
lamentar? nosso triste fim ou servir? de mem?ria do que fomos.
Pouco existimos um para o outro;
pouco, muito pouco eu partilhei contigo
al?m de toda poesia que existe no mundo.
N?o sei desesperar mesmo quando desespero.
Ai, poeta, se eu soubesse.
Eu te juro, rasgava o vestido,
arrancava os cabelos, e de joelhos
eu te pedia ( em alexandrinos ),
pra n?o ires embora de mim.




2008