Ode à serenidade.

Aqui, sábado.
Meu quarto com as janelas abertas, e como está nublando, tudo fica ainda mais bonito. E eu sei que está nublado não por olhar o céu (a janela dá pra uma parede e uma escadaria branca, embaixo da qual moram velharias). Eu gosto tanto de chuva que posso adivinhar as nuvens chegando pelo cheiro que sinto quando está pra chover.

Eu ia ganhar bem se trabalhasse com metereologia.

Eu estou feliz, hoje. E não devia estar. Hoje eu sei que dei um passo (à frente, eu espero) que não terá como ser revertido. A permanência daquele retrato na escrivaninha me fazia mal e eu decidi que nada tem que ser para sempre. Se nem as boas coisas ficam... por que deixar justamente as ruins? Se o que tínhamos de bom acabou, por que prolongar a permanência do lixo tóxico?

Eu estou bem. Porque eu gosto do meu monitor novo, as cores são mais bonitas nele. Porque é legal ficar em casa quando o tempo esfria. Porque fiz fotos engraçadas com a minha câmera nova. Porque ontem à noite fiquei mal e vomitei - mas fiquei melhor porque expulsei de mim o que eu não aceitava mais.

E ele ligou pra fazer exigências absurdas, e eu não cedi, e ele disse que sem isso não queria mais me ver.
E eu disse "ok, então".
E eu jamais pensei que seria capaz de dizer isso, mesmo que mil anos se passassem.
E eu disse que não queria mais vê-lo, também.
Porque ele pisou em cima da amizade que eu ofereci. Como quem desdenhosamente apaga com a sola do sapato a brasa de um cigarro que, mesmo no fim, ainda estava queimando.

Mas eu não apaguei. Eu estou aqui.
Meu quarto está uma zona e tudo bem.
Minha gata dorme na minha cama e sua presença me acalma. Está tudo bem.
As caixas das coisinhas simples, porém necessárias/prazerosas que eu comprei esses dias se amontoam no armário, e está tudo bem.
O vento pré-chuva e seu cheiro delicioso entra pela janela e me toca o rosto, os pulmões, a alma, e está tudo bem.
As minhas pulseiras coloridas estão espalhadas por cima da bancada, está tudo bagunçado, mas as cores são lindas, e está tudo bem.
Meu amigo ligou de manhã pra me dar bom dia, e está tudo bem.

E a tarde começa agora. Vou lá fora me fingir de fotógrafa antes que chova.
E depois que começar a chover, eu ainda vou estar lá.

"está tudo bagunçado, mas as cores são lindas".
É. Definitivamente, está tudo bem.

My beloved monster and me

she will always be the only thing
that comes between me and the awful sting
that comes from living in a world that's so damn mean
- Eels

O motorista do ônibus em que eu volto pra casa me ama, eu sei.
Ele sempre liga o rádio tão logo eu adentro o coletivo. E, ao invés do que 99,9% dos outros motoristas de ônibus fazem, ele não sintoniza numa rádio de pagode, mas na rádio rock - e a minha diversão durante os 20 minutos da viagem é observar a expressão de pânico no rosto dos demais passageiros. Hoje, por exemplo, ele pegou pesado e meteu The Number of The Beast e eu quase podia ouvir a prece silenciosa das velhinhas evangélicas no banco de trás. Sorry ladies, but this is my time.

Something to remind me.

Achei um punhadinho de fotos velhas enquanto fuçava uma pasta perdida do cê-dois-pontos.


1) Descansando num banquinho da orla de Paquetá. Não no último carnaval, mas numa das minhas muitas visitas à "Ilha dos Três Pontinhos"... E eu a chamo assim porque a história do livro A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, se passa em Paquetá, mas por um motivo que eu nunca descobri o nome não é citado a não ser assim: "e Augusto voltou à Ilha de ...". Whatever. A história é fictícia, mas a ação de fato se passa em Paquetá. Tanto que a "Pedra da Moreninha", onde Carolina esperava a volta do seu amado, é um de seus pontos turísticos.


2) FOCO. O QUE É FOCO. Risos. Enfim, a ala vip do mundo postal carioca se reúne no "churrasco social", em Teresópolis, região serrana do RJ.


3) Se achando pinup, ela. Mas sinto falta do cabelão.


4) Adorável pôster do meu quarto. Sangue, depressão e instrumentos perfuro-cortantes. Um amor.


5) So fashion.


6) Desktop do meu quarto, na minha fase "tente parecer feliz enchendo sua vida de cores alegres". Detalhe pro anjo que roubei de um cemitério. Belo dia achei que ele estava me dando azar e o espatifei na parede. Estupidez. A sorte não mudou e sinto falta do anjo.


7) Só os antigos vão se lembrar do Shampoo e sua triste história com final feliz (?). A interrogação é porque perdi contato com o gatinho. I hope you're well.


8) Bloody Bunny, grande amigo.


9) "This is your world in wich we grow, and we will grow to hate you".


10) Maricá, região dos Lagos, um carnaval qualquer.


11) "Eu posso ser baranga mas o meu queixo tem covinha"

Depois tem mais. Agora, acabou.

Carnaval de gótico

Well, review: primeiro dia de carnaval, chuva. Minha sutil vingança contra os "romeiros de são momo" que entupiram as estradas em direção ao sol, ao batuque e às gatinhas de biquíni.

Passei o sábado arrumando o quarto. O PC inoperante, os amigos a caminho das praias, o quase-ex-namorado dispensado, o que mais eu podia fazer? Ir a Paquetá no domingo, é claro. Pra quem não conhece: é uma ilha do tamanho de um pequeno bairro plantada no meio da baía de Guanabara. Tenho ido lá desde criança e sempre quis ver o luar na ilha, mas o fato de a última barca deixar o cais às nove da noite era um puta desestímulo. Sempre ia embora ao entardecer, mas dessa vez fiz diferente; achei uma pousada pulgueiro e resolvi dormir lá. E assim pernoitei, depois de tomar um banho de chuva inesperado dentro do cemitério de passarinhos (for real), de voltar pra pensão levemente enlameada e não conseguir entrar no meu próprio quarto, pois a dona do cafofo, alcoolizada, não me reconheceu. Haha. O mais hilário foi o meu breve diálogo com as outras pessoas que estavam no, err, "hall":

- Mas você pegou essa chuva toda, menina? Foi aonde?
- Eu estava no cemitério de passarinhos...
- CRUZ CREDO, TE ESCONJURO!!

Na verdade eu gosto de lá. Acho curiosas as pequenas tumbas (o cemitério é de pássaros, mas aceita qualquer espécie de bichinho de estimação, por uma módica quantia), as árvores de ramos baixos, curvando-se em direção à terra, como se quisessem alcançar de novo aqueles que algum dia já cantarolaram em seus galhos. Silêncio absoluto, calma, paz.

E lá estava maria antonieta herself, metendo the cure no repeat mil vezes, dentro de um cemitério de passarinhos em pleno domingo/segunda de carnaval. Foi quando a chuva despencou e eu tive que voltar correndo. E ficar no sofá até as três da manhã assistindo desfile de escola de samba até a velha curar 10% do pileque e me devolver a chave do quarto. Ok, eu podia tê-la roubado do chaveiro enquanto a gentil hostess cantava "bota a camisinha, meu amor" da Grande Rio, grudada num copo de cerveja. Mas qual seria a graça? Estava legal ficar no sofá vendo TV. Até porque com o céu nublado não ia rolar o luar pela janela. Então toca beber cerveja de graça (o esquema era 0800 mesmo) e sambar toda molhada pelo tapete do, err, "hall" da velha. E tudo isso por menos de 100 reais. Acho que vou montar uma empresa de pacotes turísticos sem noção a preços convidativos. Talvez esteja aí o melhor plano de fuga do meu provável futuro negro.

Ghosts.

Tem uma música do Garth Brooks que diz que, às vezes, os melhores presentes que recebemos da vida e do destino são os desejos que não se realizam. A historinha é mais ou menos essa: o cara reencontra a garota com a qual ele sonhou a adolescência inteira, e nunca conseguiu ter. Só que, ao revê-la, se dá conta de quanto é grato por não ter conseguido, já que ele está ali com a esposa dele - a verdadeira mulher da sua vida. Linda teoria. Só que eu ainda gostaria de poder estender as mãos e, de vez em quando, tocar alguma coisa real.

Tinha gente chorando dentro do quarto da minha mãe, agora. Gente não viva. Morreram duas pessoas nessa casa, uma delas no tal quarto - ela desconhece essa história, mas eu sei.

É assim, geralmente eu ouço pessoas chorando aqui dentro. Eu não uso drogas; bebo às vezes, é verdade, mas nunca ouvi essas coisas depois de beber. E nem me pergunte se acredito. Eu sou cética, mas paradoxalmente eu ouço essas pessoas e não sei o que fazer com essa informação. Não fui programada para processá-la.

Abri a porta do quarto dela agora e ouvi um soluço, nítido. Às vezes penso ser minha mãe ou a C. (a voz é feminina), e chamo pelos nomes. O som pára, e então eu me dou conta de que estou sozinha.
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Life is weird. Death must be weirder.

Hell is over there.

Não creio que o inferno seja aqui, porque domingos chuvosos são o paraíso e domingos chuvosos acontecem.

O weekend foi legal porque a Z. chegou do Arizona com o E. e eu pude conhecer o menino e rever a Z., que eu não via desde um certo anoitecer num ponto de ônibus em Nilópolis. Voltávamos da casa da M., meu ônibus chegou primeiro, nos despedimos e eu parti. Dias depois brigamos e só fui saber dela mais de um ano depois, quando o R. soube que ela tinha ido para os EUA, sem planos de retorno. Mas a internet é do tamanho de um ovo de galinha, you know... E foi bom ver que, apesar de termos mudado bastante, aquilo que fez com que nos tornássemos amigas continua de certa forma igual.

Z. e sua fodíssima Canon EOS Rebel, demonstrando o foco da macro em um dos carrinhos do E.:


Minha roupa não é adequada. Meu jeito não é adequado. Minhas idéias não são adequadas. Eu não sou uma pessoa adequada. Eu não estou me adequando ao ambiente de trabalho. Acho melhor desistir logo e me conformar com a perspectiva de que vou passar o resto do meu futuro (que já chegou) jogando biriba com mendigos feridentos nalgum abrigo da prefeitura. E o mais interessante é que essa idéia não chega a me assustar. O que me assusta de verdade é a visão de um futuro de cartões-de-ponto.

Também não vou usar bolsa de avó combinando com sapato e twin-set bege. Tá, confesso - já tentei me vestir assim. Entrevistas de emprego. Antes de sair de casa, o suplício. Olhava no espelho e me sentia oprimida. Oprimida por um twin-set! O twin-set ria da minha cara: "Deus, você está ridícula. RI-DÍ-CU-LA! A quem você pensa que engana?". A ninguém, pensava eu. "A NINGUÉM!", respondia o espelho; e ria da minha cara ele também.

Je m'appelle Marie.

Oi, meu nome é Maria Antonieta, eu não sei fazer layouts, nem amigos.

Ainda assim começando isso de novo pela milésima vez e lalala. Bolsão de apostas aberto pra saber até quando dura. E o frontpage que instalaram aqui é XP. Só que o meu windows NÃO é XP. E meu photoshop salvou essa imagem porcamente, por isso ela parece porca. Eu esperei que os problemas viessem, e eles estão aqui. Deixe-me apresentá-los: pessoas, esses são os meus problemas. Problemas, essas são as pessoas que vêm aqui saber de vocês. Os canapés estão na cozinha.

E então as pessoinhas lá da senzala passam o dia criticando quem não faz nada de útil em prol da sociedade. Os inativos, os que nada produzem, ou em bom português, vagabundos. "Ah, eu tenho um irmão que passa o dia todo vendo tevê com minha mãe, dormindo e comendo, ele é tãããão inútil." INÚTIL. Haha.

Por que essa gente acredita ser útil? Por passar dez horas/dia congelando os neurônios num ar condicionado que lhes vomita ácaros nariz adentro, fazendo um trabalho que qualquer outro imbecil faria e no fim de 30 longos dias receber um salário-piada? Em que isso os torna melhores que os supostos vagabundos? Mesmíssima escória, só que a escória improdutiva pode se dar ao luxo de dormir até meio dia, não viajar dependurada em coletivos lotados, não se sentir abaixo dos vermes ao obedecer ordens irracionais e mesmo que morra de fome ou vá morar debaixo da ponte vai ser dona da própria merda de vida, ao invés de despejar a merda de vida na fossa de oferendas ao deus-patrão.

Na fábula da cigarra e da formiga eu sou time cigarra. Porque tudo que a formiga terá, além de um lugar onde aquecer o rabo no inverno, é reumatismo nas costas de tanto carregar coisas. E eu acho que  prefiro morrer de frio, mas cantando.

Rocket man.


"I'm like the six year old boy who wants to be an astronaut.

Everyday he looks at the stars and the moon whispering to himself, "someday I'll be up there too." It gets him through life. Damn it, it's a dream he clings to. It will make him great in the eyes of every person that has ever thought he was anything less than spectacular.

Then, he becomes the twenty-something year old adult and he comes to the realization that he sucks at math. He also has a heart condition that prevents him from going on so much as a mildly scary roller coaster, and his eye sight is failing.

No rocketships for him.

In fact, in five or six years he probably won't even be able to see the stars very well."