Hoje tentei pela segunda vez falar com a minha m?e, sem sucesso.
Parece estar chovendo no Rio, porque a ligac?o fica p?ssima, ela n?o consegue me ouvir e eu ou?o o eco da minha pr?pria voz retumbando t?mpanos adentro. Chato. Mas pude informar o dia e a hora em que vou estar de volta ? cidade maravilhosa.
Por favor, S?o Pedro, eu quero sol nesse dia. Quero chegar em casa e levar a Chantilly pra se esfregar no ch?o da cal?ada em frente ao port?o. Quero comer arroz molinho e salgado com feij?o preto bem temperado e banana + batata frita. Quero dormir essa noite debaixo do meu cobertor p?rpura ouvindo o zunir do meu ar condicionado. Quero me dar de volta meus pequenos b?lsamos di?rios, porque nesse mundo de merda onde vivemos, ? sempre bom ter ? m?o pacotinhos de felicidade instant?nea, em p?, que a gente possa misturar com ?gua e beber rapidinho para n?o dar tempo de pensar no motivo que nos levou a abrir o pacote.
Ontem ele fez sopa de galinha pra n?s, e eu bebi uma garrafa de vinho + uma dose de whisky. N?o lembro de nada depois da sobremesa. S? sei que acordei de manh? sem as cal?as, deitada na cama. Sorte que quando apaguei, eu j? estava l?. Porque ser carregada escadaria acima ia detonar minha auto estima. Parece que estou de ressaca, agora. E, pensando bem, se eu n?o consigo me lembrar de nada, ? poss?vel que eu tenha sim sido arrastada e ele esteja mentindo para que eu n?o me sinta uma b?bada deplor?vel. Desnecess?rio. Eu sei que sou uma b?bada deplor?vel
E eu imprimi O Pequeno Pr?ncipe em ingl?s para ele ler pra mim na hora de dormir. Tr?s cap?tulos por dia, e ele termina o livro antes de eu voltar. S? que ontem eu dormi b?bada e ele n?o pode ler. E eu acho que ele n?o gostou do livro. Esperado. Ele ? uma alma feliz, e almas felizes j? nascem sabendo de tudo. As pequenas grandes li??es do livro pareceram ?bvias, talvez… Que seja. Mas gente como eu nasce ignorante e talvez morra assim. Gente como eu precisa aprender com a experi?ncia, com o sofrimento, metendo a m?o no fogo e s? ent?o se dando conta de que ele queima, ao inv?s de ler sobre os perigos das chamas num livro did?tico cheio de figuras auto explicativas.
N?o basta ler sobre a dor, ela tem que vir das feridas que brotam na carne para serem reais.
E eu comprei um porco rosa lindo, que na verdade ? um cofrinho de cer?mica, e tem meu nome nele. Um chaveirinho de menina com o meu nome tamb?m. Precisei cruzar um oceano para poder enfim achar coisas com o meu nome, numa terra que n?o fala a minha l?ngua. Bizarro.
Quando eu tinha quatro anos e estava passando o dia na casa da minha tia-av?, achei no meio do barro um boneco da Pantera Cor-de-Rosa. Havia chovido, eu cavuquei com as unhas o barro amarelo e desenterrei o bicho, sem orelhas, sem rabo, com as patas mordidas - se por dentes infantis ou caninos, eu nunca soube.
O que eu soube, naquele instante, ? que ele seria meu.
Minha m?e protestou, meu pai quis jogar fora, mas a tia-av?, na sua sabedoria analfabeta, soube compreender o afeto nascente e lavou com paci?ncia o barro do corpo do brinquedo, e assim voltei eu pra casa no banco de tr?s do carro, bem feliz, agarrada ao meu novo amigo. Que tinha arame por dentro, e a gente podia assim mudar a forma do corpo, fingir movimentos, uma del?cia.
Com o tempo o arame foi enferrujando, ficando fr?gil, eventualmente quebrando em certas partes, ou at? mesmo perfurando a pele de borracha cor-de-rosa. Mas ele ainda era o meu boneco preferido. Um dia ele sumiu, e eu chorei tanto que a vizinhan?a estranhou e achou que minha m?e estivesse me espancando. Ela fazendo de tudo para que eu calasse, eu repetindo: “d? adeus ? sua filha, se eu n?o achar essa pantera eu me mato!” (sim, aos quatro anos e com essas exatas palavras - drama queen de nascen?a).
O boneco por fim foi encontrado, e eu devo ter ficado em ?xtase, porque nem consigo me lembrar do momento do reencontro - eu devia estar em ?xtase… Obviamente a pantera acabou sumindo uma segunda vez, uma definitiva vez, pois eu nao a tenho mais comigo hoje e at? me lembro que chegaram a me comprar um outro boneco, id?ntico, com arame por dentro e tudo. Mas n?o era a mesma coisa. N?o era o boneco que eu salvei da morte (porque sim, era nisso que eu acreditava) na avalanche fatal de barro, n?o era o boneco que eu amei mesmo sem orelhas, sem rabo, com patas e focinhos mordiscados por sei l? quem, mesmo quando a velhice enferrujou e quebrou seus ossos de arame.
O meu amor veio do nada, e tamb?m veio de tudo isso. ? assim que eu amo as coisas. Porque as coisas nunca me decepcionam. Ao contr?rio das pessoas que me abrem torneirinhas no canto dos olhos mesmo quando queriam me abrir um sorriso no rosto. Eles me ferem mesmo quando me afagam, e beijos podem doer feito pedradas. Elas me odeiam mais, quando e se me amam.
Eu queria n?o chorar, eu queria acreditar em mim, eu queria achar que posso simplesmente abrir a porta e deixar a felicidade entrar, mas ? t?o, mas t?o dificil… Porque ela deixa a porta aberta atr?s de si e vem o vento frio… Que n?o p?ra quando a gente fecha a porta, porque ele j? entrou pele adentro e agora venta no peito e faz o cora??o bater dentro de um cubo de gelo.
Well, n?o ? mesmo muito f?cil entender.
E depois eu enxugo o rosto, volto aqui e conto as novidades da viagem.