Point of no return.

A morte é uma pessoa que não volta.

É uma maçaneta que não vira, uma campainha que não toca. É aquela xícara que nunca mais precisou sair do armário. O espaço vazio em cima da poltrona. O pó em cima dos discos. A morte é uma gaveta cheia de roupas inúteis, que se vão indo aos poucos, até que a gaveta, vazia, se torne também inútil. É o monte de chaves inúteis no chaveiro da parede. A morte é quando uma escova de dentes ganha o poder de fazer alguém chorar.

A morte é esconder fotografias. É nunca mais bife de fígado à mesa do jantar. É buscar atalhos para fugir de caminhos para fugir de lembranças. A morte é um travesseiro molhado. É desfazer o par de toalhas de banho com monogramas. É o óculos de aro quebrado que não precisa mais de conserto. É o cheiro do perfume. É um "boa noite" a menos para se dar e se ouvir. É um convite a menos a se mandar para a festa. A morte é a carta que volta ao remetente. É não montar a árvore de Natal. É uma data de aniversário a menos para se anotar na agenda. É desligar o rádio quando a música toca. É um carro que não chega. É o cachorro que, sentado na porta da frente, espera, espera...

A morte é um punhado de nãos e de nuncas. É eternidade e finitude. A morte são pequenas coisas que se vão morrendo (e matando) a cada volta do relógio.
A morte é muita coisa, e é nada ao mesmo tempo.

A morte leva e, cruelmente, fica.


Era o sexto dia de janeiro, uma segunda feira chuvosa. Eu e minha mãe tínhamos acabado de chegar de uma breve temporada na casa de praia de um casal amigo. Estávamos felizes e cansadas da viagem. Eu assistia à reprise vespertina de Por Amor, enquanto ela jogava conversa fora com uma amiga no terraço. Meu padrasto tinha chegado em casa, entrado no quarto, pego algum dinheiro e documentos, e saído novamente. Minha mãe não desceu para falar com ele e eu, trancada no quarto, não percebi sequer que ele havia estado lá. Ela acenou para ele do terraço e ele fez uma brincadeira com ela e avisou que voltava pro almoço. Meia hora depois, o telefone tocou e eu atendi e eu soube que ele nunca mais ia voltar.

Há inúmeras teorias para o que possa ter acontecido. E é o que menos importa. Importa é que ele se foi, importa a brutalidade e todas as nuances tristes e injustas dessa história infeliz que até hoje me faz mal relembrar. O olhar da minha mãe, a família dele impedindo-a de entrar para vê-lo, criando ceninhas desnecessárias e transformando um momento de dor em circo.

No sábado fui jantar com respectivo e J. num restaurante indiano, bebemos um bocado, depois fomos para um pub (onze e meia da noite ele tocaram um sino avisando que o horário de vender bebida alcóolica acabou... WHAT), e voltamos de táxi. Em casa eu lembrei dessa história do meu padrasto e fiquei triste.

Minha última semana, aqui. Será que eu vou sentir sempre saudade das coisas que eu antes nem gostava tanto, ou será que isso é um sinal de que gostos mudam, sim, e eu também vou mudar?









Ganhei essas flores do nada, sexta passada. Note que não tínhamos vaso, e elas foram colocadas dentro da jarra do liquidificador que compramos semana passada. :)

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