Uma breve história etílica.

Minha mãe faz batida como ninguém.
De coco, morango, maracujá... Feitas com a fruta mesmo, cachaça de boa qualidade (procedência mineira, se possível), leite condensado sem economia - o resultado da mistura parecia até vitamina, de tão grossinha. Vou pegar a receita com ela e posto aqui, para os eventuais interessados.

Ocorre que, como boa mãe zelosa, dona Maria não gostava de ver a filhota metendo o pé na jaca com tão tenra idade. Pois bem. Aniversário da velha, tias, amigas e vizinhas em casa. Crianças tocando baderna no quintal, se atirando na piscina, chutando as flores no canteiro, uma beleza... Eu, criança esperta aos oito anos, olho grudado na garrafa em cima da pia da cozinha. Batida de coco. Ok, ela tinha me deixado lamber a lata de leite condensado, mas o pessoal que frequenta as reuniões do AA sabe que não é a mesma coisa. Pedi. Ela negou. Emburrei, ela me empurra uma lata de coca cola e diz que é para eu me contentar. E fico lá, sentada com cara de bunda, mamando aquele atestado de infantilidade enquanto os "acima de 18 anos" se esbaldavam com o néctar servido pela aniversariante, tomando das bandejas os copinhos de plástico branco fosco. Se inveja matasse eu já estaria podre.

De repente me dou conta da lata de refrigerante vazia nas mãos, e elaboro o meu plano maligno. Vou até a cozinha quando a conversa na varanda está animada, passo a mão na garrafa e despejo o conteúdo dentro da lata de coca. Cara de vitoriosa, sentei-me na varanda com o resto da mulherada me sentindo além de adulta muito esperta.

Mas Murphy é foda. Sabe aquela sua prima com cara de retardada, que você mal sabe o nome direito, que nunca vem à sua casa, mas que quando vem resolve provar que não é só a cara, ela É, de fato, retardada? Pois é. Para o meu infortúnio, eu, como 99% da população mundial de crianças espertas, também tenho uma prima dessas. E ela estava ali. Lugar, hora e propósito completamente errados.

- Ué... Se ela tá bebendo coca cola, porque está com bigodinho de leite?

Fodeu.

Minha mãe pegou a lata da minha mão (a essa altura já quase vazia), cheirou o conteúdo e antes que pudesse berrar meu nome completo eu já estava longe. As visitas, é claro, riam de se lascar. "Que filha esperta, a sua!", dizia a tia, mãe da prima dedo-duro. "Que filha idiota, a sua!", respondia eu, mentalmente, enquanto me escondia embaixo do tanque. Mas valeu a pena; o álcool já havia liberado endorfina o suficiente para as minhas terminações nervosas ligarem o foda-se e eu lambia os beiços, para aproveitar até o fim aquela delícia...

Bebum desde pequena, oh yes. Culpa do meu pai, que sempre perguntava antes de sair pra comprar as bebidas do almoço de domingo: "e aí, vai ser coca cola ou Malzbier?", e eu ficava lá, dedinho na boca, fingindo que a pergunta requeria raciocínio, sabendo que ia ouvir com a voz dele, já no portão, a resposta certa:

- Malzbier!


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