reencontros e recomeços.

Chegamos em casa na terça a noite. Devíamos ter chegado na segunda, mas o mau tempo no canal da mancha fez com que os barcos fossem cancelados. ou seja, ganhamos um dia extra na cidadezinha de Albert, que fica na região do Somme, famosa pelas batalhas da primeira guerra mundial.

E, como 99% dos ingleses adultos são fanáticos por guerras, eu peregrinei, sob frio e ventos cortantes, atraves de campos de batalhas, monumentos para os mortos que nunca foram encontrados, para os mortos que foram encontrados, 383254810976 mini cemitérios de guerra, museus no estilo "viu um, viu todos", decifrei mapas em busca de crateras de bombas, enfim... você entendeu. Ganhei um resfriado e dor nas pernas, mas o british boy estava feliz feito pinto no lixo e eu não quero estragar o deleite alheio... atchim!!

E agora, da serie coisas com que você pode contar na França:

1. Os motoristas VÃO dirigir mal. Não interessa se você está na cidade ou no countryside, no centro de paris ou nos cafundós de algum pays desabitado; eles vão ultrapassar onde não devem, vão dirigir a 30cm da sua traseira e vão fazer gestos obscenos pelo vidro do carro quando passarem por você. E claro, seu respectivo inglês VAI resmungar um "BLOODY FUCKING FROG".

2. As mulheres francesas VÃO vestir preto da cabeça aos pés, terão aquele arzinho de fragilidade estudada, no estilo "me proteja, eu sou apenas uma mulher" (but i do fuck like a rabbit) e jogarão charme em cima dos homens disponíveis (e, sejamos justos, dos indisponíveis também) num raio de 45 quilometros - ou mais, se houver internet por perto.

3. A carne servida nos restaurantes será SEMPRE crua. Siga a tabela: se voce quer o seu bife médio, peça bem passado. Se quiser bem passado, peça torrado. Se quiser mal passado e pedir por isso, tenha confiança de que seu bife mal será apresentado a frigideira antes de ser despejado no seu prato praticamente mugindo, mais sangrento do que um passeio de ônibus na palestina.

4. O café da manhã francês é o equivalente culinário da expressão "glicose na veia". Pão doce, geléia doce, bolos, biscoitos, sucos... ou seja, o inferno de Atkins. Isso tudo vai chutar a sua curva glicemica acima da torre Eiffel e, quando ela cair, sua fome será bastante para devorar vinte quilos de foie gras, pouco se fodendo para os gansos. Taí a razão pela qual os franceses sempre tiveram uma performance tão pifia nas grandes guerras: é impossível encarar uma trincheira com um croissant no estomago, mon cher. Breakfast decente, com "sustança", tem ovos, bacon e sausage.

5. Os franceses jamais irão retirar a decoração de natal das casas, lojas e restaurantes antes que janeiro termine. Os mais tradicionalistas vão deixar a árvore de natal armada (com as luzes piscando), a guirlanda na porta, o papai noel escalando as janelas e similares até meados de fevereiro. Eles fazem questão de deixar as renas e bonecos de neve nas vitrines das lojas e a decoração de rua dependurada nos postes. Acho que eles confundem "decoração de natal" com "decoração de inverno". Quando chegar o verÃo e a neve falsa em cima da árvore de natal não fizer mais tanto sentido, eles guardam tudo. Ou então deixam tudo já montado, prontinho para o proximo natal.

Enfim, tamo em casa.
Tenho passado meus dias desencaixotando coisas, mas ainda tenho que desencaixotar muitas mais e reencontrar os lugares de onde elas sairam ha muitos meses quando, assim como eu, foram arrancadas de suas rotinazinhas e levadas para um longo passeio no continente.

Mas tambem tenho passado os dias dando gritinhos viados ao redescobrir coisas simples, como a vista do banheiro azulzinho, com vaquinhas pastando na chuva. Como o meu chuveiro COM!ÁGUA!QUENTE! e a pia enorme da cozinha, onde posso lavar pratos sem ter que lavar o chão ao mesmo tempo. Como o slogan da minha rádio favorita. Como achar uma pilha de dvds entregue pelo carteiro. Como os livros que nao havia tido tempo de ler, me esperando na estante. Como o meu sofa, velho, rasgado e cafona, mas extremamente macio e confortavel (tão mais aconchegante do que aquela porcaria modernosa, dura e fria do apartamento na Alemanha). Como as minhas revistas favoritas escritas num idioma que eu entendo. Como esbarrar nas pessoas e ouvir um imediato "sorry!" (estou quase esbarrando de propósito, so para ouvir os ingleses sendo mecanicamente educados).

Estamos todos bem, a maluca está gorda e já comi meu primeiro sanduiche de bacon de verdade, em comemoraçao ao retorno ao lar.
É possível que em um mes ou dois eu visite novamente a familia (marido e gata) que ficaram na Alemanha, mas por ora, eu so quero desempacotar minhas tralhas, me atirar nesse sofá e terminar de ler a Country Living magazine desse mês.

Até já.












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