férias.

só para dar uma espécie de satisfação aos leitores.
porque eu também acho um saco ficar entrando em blogs para ver se tem atualização e dar com a cara na porta (ah, se esse tal de feed/rss não desse tanto bug...).

voltei da sicília, voltamos de hannover. todos em casa, todos bem, inclusive a pequena chantilly. que miou horrores durante os dois dias em que foi obrigada a ficar dentro de uma gaiola no banco traseiro do carro, entre hannover e saint malo.

tenho muitas coisas a contar, muitas fotos a postar, mas babes, agora não dá.

um ano e quatro meses de alemanha se mudaram de volta pra jersey, enfiados de qualquer jeito em caixas de papelão roubadas do escritório do british boy. estou recolocando coisas de volta nos lugares, encontrando lugares para coisas que não estavam aqui antes e, principalmente, redescobrindo o meu lugar aqui. com a minha família finalmente completa.

no meio disso tudo, a verdade é que hannover é uma cidade bem legal. mesmo com os seus invernos de dias escuros e temperaturas abaixo de zero, mas principalmente com os seus verões onde a vontade de estar ao ar livre é tanta que todos os restaurantes, bares e sorveterias migram suas mesas para as calçadas, decoradas por flores, cachorros, crianças lindas suadas e sorvetes de três andares. a única coisa que fez com que esses meses longe de casa fossem menos toleráveis foi aquele apartamento. que entregamos sem muita nostalgia para sempre, na segunda feira passada, antes de pôr a última caixa dentro do carro e o carro na estrada.

british boy haverá de voltar à chucrutelândia mensalmente, então não é um adeus definitivo. ainda voltarei a comprar roupas baratas e lindas na H&M, sapatos baratos e sem salto na street, comida barata e diferente nas lojas da edeka, tralhas baratas e coloridas na nana nanu e coisas muito caras e muito desejáveis na lojinha da sanrio na estação.

por enquanto, estou pintando minha casa de bonecas, estou ajudando a minha gata a se adaptar, estou tentando fazer uma dieta, estou voltando a costurar, estou respondendo pilhas de emails atrasados, estou revendo minhas amigas, estou abraçando o british boy e estou retomando a minha rotina.

muito trabalho, mas muito prazer envolvido. o que faz tudo valer a pena.
até daqui a pouco.

pequeno compêndio de reminiscências

ainda em hannover, faxinando enlouquecidamente e percebendo que eu não nasci para viver em cidades que enfiam pó preto de pneus e fumaça de carburadores por todos os cantos de uma casa; menos ainda em casas cheias de superfícies brancas e reentrâncias difíceis de limpar. esse apartamento, escuro e frio, parece uma caverna e transforma em pacífica a minha convivência com a poeira.

mas os meus sapatinhos vermelhos novos me fazem sentir a dorothy de o mágico de oz e me lembram de que nada de mal me atingirá enquanto eu seguir com eles pela estrada de tijolos amarelos.

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quinze euros na banca de promoção. hannover é o paraíso das meninas que detestam sapatos de salto mas que adoram uma pechincha.



lembra de quando estávamos "acampando" no seu quarto com lanternas, livros e música e eu confessei que nunca tinha bebido vaca preta e você não quis acreditar e disse que ia fazer uma, tínhamos sorvete de creme mas não tínhamos coca cola, e você se levantou e eu disse que não precisava se importar e você respondeu que muitas vezes "a preguiça mata o desejo" e se eu não bebesse vaca preta agora acabaria nunca bebendo, e saiu no temporal sem guarda chuva e, junto com o refrigerante, me trouxe um pacote daquelas balas de tamarindo cafonas, que eu tinha vergonha de admitir que adorava - mas você sabia.

lembro de como eu me sentia importante quando você comia o resto do bife que eu deixava no prato.

lembra daquele dia no jardim brincando de casinha com as meninas e eu chamei você para ser o "pai" e os seus olhos se ergueram do livro lentamente e me sorriram lentamente e você perguntou "e o que o pai faz" e eu respondi que ele trazia a comida pra casa e a gente riu, e depois aquela menina estranha apareceu do nada no portão e pediu para brincar um pouco e nós deixamos, e ela era toda desajeitada e arrancou a cabeça da barbie e depois recolocou por engano em outra boneca menor e, toda satisfeita, reconheceu a própria façanha com delicioso sotaque nortista: "alá! butei a cabicinha!", e nós rimos de doer a barriga e rolar pela grama.

lembra de quando eu comecei na escola nova e você me ajudou a encapar meus cadernos com folhas de mapas antigos, e depois colamos durex transparente por cima de tudo para preservar as imagens e eu achei que os meus cadernos eram os mais lindos da escola inteira e você "assinou" o seu nome na contracapa e quando eu me sentia burra ou sozinha ou perdida, só precisava virar uma página para me sentir melhor ao admirar o traço preciso da sua caligrafia e passar os dedos devagar pelas marcas que a assinatura havia deixado na cartolina (você escrevia forçando a caneta no papel; era da sua natureza fazer tudo intensamente) e imaginar as suas mãos delicadas cheias de pedaços de durex esperando para serem usados.

lembra de quando você roubava os discos da nina simone da gaveta de vinis do seu pai para me ensinar a dançar, sendo que você também não sabia e nós nunca aprendemos?

lembra daquela tarde de sexta feira onde as meninas estavam se arrumando para sair e a sua mãe colocou um cd do heart para tocar e você e a sofia cantaram junto com ela e eu estava ali, atrás da porta, ouvindo tudo e rindo e ninguém me viu, mas eu vi o jeito como ela olhou pra você naquele pedaço da música que falava "but the secret is still my own and my love for you is still unknown" e eu nunca esqueci pois foi a primeira vez que senti ciúme.

lembra daquele dia em que você tocou uma música muito longa no piano quase sem tirar os olhos da janela, e depois ficou calado por um tempo maior ainda, e eu tolamente quebrando o silêncio para perguntar, sem resposta, o que estava acontecendo... e foi apenas depois de um tempo ainda muito maior, depois de anos na verdade, que eu enfim soube o motivo do silêncio e o nome da música.

lembra de quando eu e a sua irmã choramos na van achando que você nunca mais ia voltar pra casa, e eu que achei que nunca nada nos uniria na vida porque nossos ódios se reconheciam no olhar me vi fazendo promessas de jejuns e penitências abraçada à minha única inimiga.

lembra de quando você se arrependeu tanto de ter me dito algo que pensou ser uma ofensa e não era mesmo necessário, porque foi precisamente a coisa mais bonita que alguém já me disse na vida (apesar de não ser de uma beleza óbvia) e eu fiquei um tanto quanto desapontada por você não ter notado.

espero que algum dia, mesmo que tenha sido muito depois daquele fatídico dia em que eu escolhi a estrada errada naquele cruzamento onde você ficou me esperando em vão, você tenha notado. porque significou o mundo inteiro para mim e, entre as muitas coisas que eu involuntariamente dividirei com você enquanto viver, eu queria poder dividir mais essa, também. e porque aquelas palavras eu ainda ouço, sempre antes de a chuva cair, levando embora coisas importantes na enxurrada. sempre que meus olhos casualmente encontram os de um estranho nas ruas de um novo país. sempre que os olhos dele encontram os meus. porque entre as minhas muitas ambições não realizadas a mais importante terá sido, talvez, a mais simples: a de que um dia mais alguém reconheça em mim a menina que você viu. acho que ela é a melhor coisa que eu já fui.

em hannover.

faz sol lá fora, mas frio aqui dentro.
acho que cheguei à conclusão mais óbvia de todas. meu problema nunca foi, propriamente, com a alemanha - e sim com esse flat. no minuto em que o portão do prédio se abriu e começamos a subir as escadas, meu peito fechou-se. eu não senti falta daqui. eu não estou em êxtase por estar aqui novamente.

não voltaremos, entretanto; o dono pediu o apartamento de volta. yay. pode ficar com ele todinho, baby.

sobrevivi bravamente às duas horas e meia do vôo charter jersey-hannover, embora a aeronave estivesse lotada de alemães se comportando de maneira bizarra. ainda estou tentando entender a necessidade de bater palmas quando o avião tocou o solo e de desafivelarem o cinto de segurança uns 10 minutos ANTES da aterrisagem... sem mencionar o fato de que todos pediam para ler a minha revista, apenas para colocá-la em silêncio de volta no banco vazio ao meu lado (sem agradecer) uns 15 segundos depois de terem pego emprestada.

acho que alemães não gostam da marie claire.
bom, nem eu. só comprei porque o creme hidratante da the body shop que estava sendo oferecido de graça na revista de £3.20, custava 5 libras na loja.

agora estou aqui tentando decidir se devo sair para comprar filtro solar + demaquilante.
e um par de sandálias de gladiador. mas eu só tenho 12 libras na carteira. e nenhum euro. e nenhum cartão de crédito que seria aceito - sim, além da marie claire, alemães também não gostam de dinheiro de plástico.

mas eles se amarram num porco girando no espeto, e devo ter engordado uns dez quilos só de olhar pra um deles ontem, em mais uma dessas "feirinhas medievais" que só servem para vender tralhas overpriced. acho que chega delas por essa vida.

enfim, tem bolo de limão na cozinha. as coisas podiam ser muito piores.

no próximo sábado, vôo hannover - catania.
até lá, muito o que ser feito (como ele vai sair desse apartamento de vez, precisamos empacotar coisas e limpá-lo) e alguns apertos para distribuir.

e muitos cappuccinos na piazza cappucinno.

protect and survive.


é fato: adoro ver a vida passar pela janela.
mas nem sempre foi assim; me lembro bem de vários sábados onde ficar sentada na frente de uma enquanto o mundo inteiro parecia estar vivendo plenamente, era razão suficiente pra deprimir e arquitetar cortar pulsos.

uma lâmina de vidro separando o mundo lá fora do meu mundo aqui dentro. isso, nunca mudou. com a única diferença de que agora são duas lâminas de vidro (mais uma camada de ar) e o meu mundo não é mais um esconderijo forçado de coisas que doem.

lá fora o sol brilha, o vento sopra, a chuva cai e as estações mudam.
aqui dentro, eu apenas acompanho com os olhos. e me sinto protegida e, ao mesmo tempo, longe de tudo e parte de tudo.

ser espectadora nunca havia sido tão bom.




ocupada com malas e planos; estou indo para hannover no sábado e, no próximo, para a itália. sete dias na sicília, num monastério medieval (tive que encher MUITO o saco para conseguir uma vaga, já que o lugar é tão inacreditável quanto barato). é evidente que pretendo comer como se não houvesse amanhã e não passar perto de nenhuma loja.

no dia 20, eu e ele embarcaremos num ferry em saint malo de volta para jersey.
e dessa vez, se tudo der certo, com uma pequena passageira peluda na bagagem. :)