pequeno compêndio de reminiscências

ainda em hannover, faxinando enlouquecidamente e percebendo que eu não nasci para viver em cidades que enfiam pó preto de pneus e fumaça de carburadores por todos os cantos de uma casa; menos ainda em casas cheias de superfícies brancas e reentrâncias difíceis de limpar. esse apartamento, escuro e frio, parece uma caverna e transforma em pacífica a minha convivência com a poeira.

mas os meus sapatinhos vermelhos novos me fazem sentir a dorothy de o mágico de oz e me lembram de que nada de mal me atingirá enquanto eu seguir com eles pela estrada de tijolos amarelos.

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quinze euros na banca de promoção. hannover é o paraíso das meninas que detestam sapatos de salto mas que adoram uma pechincha.



lembra de quando estávamos "acampando" no seu quarto com lanternas, livros e música e eu confessei que nunca tinha bebido vaca preta e você não quis acreditar e disse que ia fazer uma, tínhamos sorvete de creme mas não tínhamos coca cola, e você se levantou e eu disse que não precisava se importar e você respondeu que muitas vezes "a preguiça mata o desejo" e se eu não bebesse vaca preta agora acabaria nunca bebendo, e saiu no temporal sem guarda chuva e, junto com o refrigerante, me trouxe um pacote daquelas balas de tamarindo cafonas, que eu tinha vergonha de admitir que adorava - mas você sabia.

lembro de como eu me sentia importante quando você comia o resto do bife que eu deixava no prato.

lembra daquele dia no jardim brincando de casinha com as meninas e eu chamei você para ser o "pai" e os seus olhos se ergueram do livro lentamente e me sorriram lentamente e você perguntou "e o que o pai faz" e eu respondi que ele trazia a comida pra casa e a gente riu, e depois aquela menina estranha apareceu do nada no portão e pediu para brincar um pouco e nós deixamos, e ela era toda desajeitada e arrancou a cabeça da barbie e depois recolocou por engano em outra boneca menor e, toda satisfeita, reconheceu a própria façanha com delicioso sotaque nortista: "alá! butei a cabicinha!", e nós rimos de doer a barriga e rolar pela grama.

lembra de quando eu comecei na escola nova e você me ajudou a encapar meus cadernos com folhas de mapas antigos, e depois colamos durex transparente por cima de tudo para preservar as imagens e eu achei que os meus cadernos eram os mais lindos da escola inteira e você "assinou" o seu nome na contracapa e quando eu me sentia burra ou sozinha ou perdida, só precisava virar uma página para me sentir melhor ao admirar o traço preciso da sua caligrafia e passar os dedos devagar pelas marcas que a assinatura havia deixado na cartolina (você escrevia forçando a caneta no papel; era da sua natureza fazer tudo intensamente) e imaginar as suas mãos delicadas cheias de pedaços de durex esperando para serem usados.

lembra de quando você roubava os discos da nina simone da gaveta de vinis do seu pai para me ensinar a dançar, sendo que você também não sabia e nós nunca aprendemos?

lembra daquela tarde de sexta feira onde as meninas estavam se arrumando para sair e a sua mãe colocou um cd do heart para tocar e você e a sofia cantaram junto com ela e eu estava ali, atrás da porta, ouvindo tudo e rindo e ninguém me viu, mas eu vi o jeito como ela olhou pra você naquele pedaço da música que falava "but the secret is still my own and my love for you is still unknown" e eu nunca esqueci pois foi a primeira vez que senti ciúme.

lembra daquele dia em que você tocou uma música muito longa no piano quase sem tirar os olhos da janela, e depois ficou calado por um tempo maior ainda, e eu tolamente quebrando o silêncio para perguntar, sem resposta, o que estava acontecendo... e foi apenas depois de um tempo ainda muito maior, depois de anos na verdade, que eu enfim soube o motivo do silêncio e o nome da música.

lembra de quando eu e a sua irmã choramos na van achando que você nunca mais ia voltar pra casa, e eu que achei que nunca nada nos uniria na vida porque nossos ódios se reconheciam no olhar me vi fazendo promessas de jejuns e penitências abraçada à minha única inimiga.

lembra de quando você se arrependeu tanto de ter me dito algo que pensou ser uma ofensa e não era mesmo necessário, porque foi precisamente a coisa mais bonita que alguém já me disse na vida (apesar de não ser de uma beleza óbvia) e eu fiquei um tanto quanto desapontada por você não ter notado.

espero que algum dia, mesmo que tenha sido muito depois daquele fatídico dia em que eu escolhi a estrada errada naquele cruzamento onde você ficou me esperando em vão, você tenha notado. porque significou o mundo inteiro para mim e, entre as muitas coisas que eu involuntariamente dividirei com você enquanto viver, eu queria poder dividir mais essa, também. e porque aquelas palavras eu ainda ouço, sempre antes de a chuva cair, levando embora coisas importantes na enxurrada. sempre que meus olhos casualmente encontram os de um estranho nas ruas de um novo país. sempre que os olhos dele encontram os meus. porque entre as minhas muitas ambições não realizadas a mais importante terá sido, talvez, a mais simples: a de que um dia mais alguém reconheça em mim a menina que você viu. acho que ela é a melhor coisa que eu já fui.

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