wait a minute, mr. postman

A ollie postou sobre isso recentemente, e hoje li um post fabuloso no blog do Rafael. e me dei conta de que eu também tenho algum direito a ser nostálgica quando se trata de cartas.

Há uns bons anos atrás, eu tinha dezessete anos e quase nenhuma auto estima. Passada a efêmera fase de popularidade ginasial, eu me vi saindo de um relacionamento destrutivo pela porta dos fundos (fugindo, quase), entrando em outro ainda pior (dessa vez com um "senhor" 14 anos mais velho), dando os primeiros passos na vida universitaria em uma faculdade onde eu não tinha amigos e que ficava exatamente a duas horas e três onibus de distância, com uma mãe abandonando o inferno doméstico que era o nosso lar e um pai que, ferido em seu orgulho, encontrou em mim o bode expiatório perfeito onde descontar a raiva. Muitos dos meus amigos na época eram amigos do ex que, quase sem exceção, tomaram o partido do rapaz. Os meus amigos pessoais, por sua vez, se opuseram ao meu novo relacionamento. Great.

Foi esse cenário de inferno astral que me fez afundar o rosto cheio de lágrimas num jornal de domingo. Quando por fim me levantei, as manchetes do dia estavam impressas na minha cara, e um pequeno anúncio de canto de página propagandeava um novo "clube de correspondência". Arrumei um pseudônimo, redigi uma cartinha e enviei para a redação do jornal. Meu endereço foi publicado alguns domingos depois e, já na terça feira, ao tentar enfiar a mão na caixa de correio, me dei conta de que ela não cabia mais ali. A caixa estava abarrotada por cerca de 60 envelopes. E mais uns 60 no outro dia, seguidos por uns 80 no dia seguinte. O influxo de missivas durou mais de uma semana, deixando o carteiro do bairro deveras curioso.

Não consigo achar palavras que descrevam o efeito que isso teve. De repente, centenas de pessoas queriam ser minhas amigas e saber de mim. Tipo, wow.

É evidente que não consegui responder a todos. escolhi cerca de 100 pessoas (em si já um número corajoso) para retribuir o contato, sabendo que a maioria não ia durar muito tempo. Ainda assim, no final daquele ano, eu contava com cerca de 50 correspondentes fixos, sendo que apenas uns 20 recebiam cartas personalizadas. Para o restante eu enviava cartas padrão, escritas no computador, com um resumo semanal/mensal das minhas novidades + um ou dois parágrafos escritos à mão, respondendo a perguntas e fazendo outras. Ainda assim, eu conhecia aquela gente pelo nome e sobrenome, sabia dos seus problemas, dos seus sonhos e dos seus medinhos ridículos. Porque todo mundo tinha muito medo de alguma coisa ridícula. Descobrir isso foi descobrir, finalmente, que os meus medos eram ridículos.

Com algumas dessas pessoas eu troquei telefonemas, outras encontrei pessoalmente, e aprendi que algumas amizades funcionam lindamente por carta, mas são um fracasso ao telefone... ou que pessoas que só escreviam cartas mornas e sem brilho poderiam ser fascinantes e divertidas via embratel. E ainda que pessoas que escreviam mal *E* eram monossilábicas ao telefone poderiam ser maravilhosas pessoalmente. Aprendi a conviver com essas características e respeitar o modus operandi de cada um.

Aacabei perdendo contato com a maioria. Hoje, apenas uns 4 ou 5 ainda sobrevivem, mas a falta de tempo e as reviravoltas da vida acabaram reduzindo nosso contato a emails ocasionais e às minhas cada vez mais raras incursões no MSN. Mas são amigos. Com quem vomitei depois de misturar vinho barato com whisky nacional, com quem chorei o fim de novelas e de etapas, com quem celebrei o começo de outras, com quem briguei horrivelmente e com quem voltei a falar tempos depois como se nada tivesse acontecido.

Desse tempo eu guardo lembranças curiosas, como o correspondente feinho que me pediu uma foto em retribuição à que ele havia mandado e, quando mandei, ele disse que eu "não era tão bonita quando ele imaginava" e cortou o contato. Ou do outro que se apaixonou por mim e veio me visitar em casa, trazendo latinhas de cerveja na mochila (não rolou nada, mas continuamos nos escrevendo por um bom tempo). Ou da belorizontina patricinha que me chamava de "irmã" nas cartas, mas que não se dignou a descer para me receber quando passei pela cidade e apareci para uma visita, devidamente anunciada e com a qual ela havia concordado. Falei com a mãe dele, que foi extremamente rude comigo. A filha nunca mais me escreveu. Lembro da mulher louca que tinha 300 correspondentes e resolveu armar uma campanha difamatória contra a minha pessoa entre eles, só porque eu não quis comprar os selos repetidos que ela tentou me vender (observação pertinente: eu jamais colecionei selos).

Lembro dos "friendship books" que trocávamos, livrinhos feitos em casa com papel A4 colorido e grampeador, onde cada um anotava seu nome, endereço, idade e interesses, colava um adesivo e repassava a outro correspondente; era a nossa maneira simples e gratuita de divulgação. Lembro de passar tardes inteiras fazendo FBs, e eles ficavam lindos, com capas de tecido bordado ou colagens com paetês e muito glitter. Também havia as "cartas sociais", que podiam ser enviadas pela bagatela de um centavo, desde que o endereço fosse manuscrito, com a frase "carta social" escrita acima do CEP e que tudo pesasse menos de 10 gramas. Podíamos mandar, no máximo, cinco dessas por dia. Lembro também do dia em que o funcionário enxergou através do papel fino dos meus envelopes (que eu fazia em casa, para economizar) e jogou minhas cartas no chão da agência dos correios, porque, segundo ele, eu estava infringindo uma lei - que sequer existia. em lugar algum se afirmava que o conteúdo de uma "carta social" também devia ser manuscrito; até porque o conteúdo de uma carta interessa apenas ao remetente e ao destinatário (funcionários abelhudos e de mau humor não contam).

Eu não tenho nenhuma memória emocional que tenha vindo de emails. Essa comunicação é instantânea demais. Não existe a ansiedade da espera, o risco de extravio, o prazer de abrir uma caixa de correio lotada de cartas gordas, cheias de coisinhas coloridas e cheirosas, o coração disparado ao avistar aquele uniforme amarelo e azul royal subindo a rua quando se está esperando uma carta que pode mudar tudo.

E ainda concedo uma última vantagem. Com raiva do remetente? Picar uma carta em mil pedaços ou vê-la retorcendo-se no fogo é MUITO mais catártico do que, simplesmente, deletar um email.

E, já que estamos falando em cartas, achei esta aqui o máximo:

Trata-se de uma carta de rejeição enviada pela Disney, em 1938.
Em resumo, a aplicante Mary Ford estava sendo informada de que não seria considerada para a vaga no setor criativo do estúdio de animação por ser mulher. mas que poderia tentar uma vaga de assistente, em que teria o privilégio de pintar os desenhos nas folhas de celulóide "seguindo instruções".

O detalhe da "bruxa" ao lado da assinatura do estúdio é fenomenal.
E a mensagem, clara. Pra quê ser criativa se você pode ser bela, indefesa e tola como a Branca de Neve (afinal, atender pela segunda vez a mesma bruxa velha que lhe aplicou um golpe e cair em outro não é sinal de inteligêcia, é?) e, ainda assim, encontrar o seu príncipe e ser feliz para sempre? Vai catar um marido, Mary Ford, e pára de encher o saco. Thanksbye.

Mary Ford guardou a carta (os netos a encontraram em meio aos seus pertences, depois da sua morte) mas, ao contrário da branca de neve, não caiu em conversa fiada. Continuou tentando e, por fim, durante a segunda guerra, realizou seu sonho e começou a trabalhar com animação. Tivesse sido um email ao invés de uma carta, os netos não teriam preciosidade alguma para encontrar dentro de uma caixinha cheirando a naftalina.

randômicas ensolaradas

ontem, primeiro dia do verão. a partir de agora, os dias ficarão cada vez mais curtos, até o tão detestado (não por mim) solstício de inverno trazendo consigo a noite mais longa do ano. os druidas lá em stonehenge acharam o solstício desse ano meio sem graça, já que o tempo esteve levemente nublado. mais uma vez lamentei não estar lá para, carinhosamente, jogar umas pedras neles.

no meio de uma desastrada sessão de jardinagem, achei um bebê sapo MUMIFICADO dentro de um pote de tarracota vazio. o coitado deve ter pulado lá dentro à noite, não conseguiu sair e "cozinhou" no solzão. not very wildlife friendly, mas quem mandou ele querer investigar o interior do pote? A curiosidade matou o gato sapo.

no restaurante onde almocei tinha FILÉ DE TUBARÃO no menu. Óbvio que eu imaginei um garçom com a cara do roy scheider trazendo o prato ao som da trilha sonora incidental de JAWS.

por via das dúvidas, eu comi frango.

midsummer tales

junho já está na metade.
a temperatura já passa facilmente dos 20, os dias estao bem mais longos, as moscas ja voltaram (eca), as gatas ja começam a soltar pelos, o radio ja anuncia a "contagem de pólen no ar" diária (prevenindo os alergicos) e os meus pés j? ostentam a típica "marquinha de biquini" - ok, nesse caso, marquinha de chinelo... é, pelo visto o verão chegou.

e, com ele, a vontade de abrir as cortinas, sentar no quintal para aproveitar o sol da manhã com uma xícara de café o jornal do dia, ir à praia tomar aqueles sorvetes ingleses sem graça (basicamente um creme branco sabor "açucar" com um tubo de chocolate espetado em cima), sentar no muro do pub com um copão de cerveja e, claro, lembrar-se vagamente de que há uma coisa chamada JARDIM do outro lado da porta.

desculpem a foto escura e a bagunça; sol de meio-dia nunca foi gentil com fotografos (menos ainda os amadores) e eu ainda tenho que reunir forças para organizar potes que serão reutilizados e jogar todo o resto fora. e, claro, COMPRAR MAIS PLANTAS para encher os canteiros. depois de anos perturbando o british boy, eu consegui fazer com que se materializassem.



queria fazer floreiras de madeira, pintar de branco (ou azul) e enche-las de petunias - essas cor-de-rosa na janela aí abaixo. conforme crescem, elas se multiplicam e derramam-se em cascatas. a roseira à direita fica na frente da cottage e eu quero aprender a colher mudas para replantar nos canteiros. adoraria vê-las, no proximo verao, cobrindo a frente da nossa casa, tambem.



e chega de sentar na pedra! porque yes, nós temos móveis de jardim! \o/



comprei flat-pack numa queima de estoque no final do verão passado. meu pai me ajudou a montar e pintar. voilá: uma mesa, um banco e duas cadeiras! ontem inaugurei-as tomando a primeira cerveja outdoors do verao. o jantar tambem foi servido al fresco: very english baked beans + risoles de carne brasileirissimos.

enquanto isso, a adaptaçao felina ao conceito de "dividir a casa com outro gato" tem sido dificil. maluca, bem maior e semi-feral, tenta pagar de blasé e ignorar a presença nervosa e arrepiada da chantilly; mas a verdade é que ela tem ficado muito pouco dentro de casa por conta da nova gata. as duas pisam em ovos o tempo todo, maluca tenta cheirar a chantilly (não sei se para fazer amizade ou checar se ela está em condições de ser devorada...) e, em retribuição, chantilly range dentes e faz ruídos tão ameaçadores quanto patéticos. tá feia a coisa. mas, por sorte, ainda não rolou nenhum CAT! FIGHT! no quintal. observe as duas se estudando à distância:



também orgulhosamente apresento os primeiros morangos colhidos no jardim:



eu nunca gostei de morangos no brasil. lindos por fora, mas brancos e azedos por dentro. só conseguia come-los dentro de um litro de creme de leite e com um quilo de acucar em cima. aqui, qualquer morango de supermercado (desde que esteja na estaçao) parece feito de marzipam. e esses, totalmente organicos, sao mais doces ainda. transformei-os numa salada de frutas e garanti a sobremesa. :)

mais alguem partilha da minha estranha obsessao por cow parsley? pelo visto, ela tambem gosta. em teoria, eles sao uma praga, multiplicam-se rapido e, se nao forem arrancados sem piedade, podem "arruinar" o seu jardim. mas o meu jardim ja é meio selvagem anyway. e eu sempre achei o bichinho uma lindeza, com suas minusculas flores brancas e delicadas. arrancar eu ate arranco - mas so para pôr num vaso com agua e uma colherzinha de acucar. dura quase duas semanas! fora que cow parsley e tanto a cara do verao quanto os narcisos sao a da primavera.



as fotos seguintes foram feitas ontem no caminho entre a minha casa e a caixa de correio:

adoro esses pequenos compridinhos e suas flores em forma de saco. tendem a crescer em solo bem pobre (pedras, principalmente), mas eu nao sei o nome. ao lado, as famosas "margaridas africanas" (osteospermum), ainda semi fechadas.



essas pequenas lilases chegam a cobrir muros inteiros.



as fuschias tropicais. lembro que minha mae tinha um pé delas no quintal da casa onde cresci. tambem temos um no fundo do jardim, e foi motivo de alegria descobrir um pedacinho da minha infancia aqui.



as pequenas e delicadas alyssums crescem rasteiras, e essas as cor de laranja, seriam marigolds?



minhas preferidas absolutas do verao: ice plants (tambem conhecidas como starburst). margaridas de petalas finissimas, podem ser brancas, rosa-lilas (as da foto) e rosa choque (quase fluorescentes!). só florescem no verao e sob o sol - na sombra, elas nao abrem. as da foto abaixo, por exemplo, estao ainda fechadas.



adoro essas pequenas margaridas, nao maiores que a ponta do meu dedo indicador. fico chocada com o fato de que a mesma planta produz flores brancas E rosa choque.



por fim, as hydrangeas (a esquerda), que florescem em grumos multicoloridos todos os anos, sem se importar muito com a riqueza do solo ou com a quantidade de água que recebem. basta cortar quase tudo quando param de florescer e, no proximo verão, o show recomeca.



enchi o saco, nao? sorry. mas se voces tivessem encarado quase seis meses de arvores peladas, vento, chuva, frio e quase nenhuma florzinha, entenderiam o meu entusiasmo. :)

for our loved ones.

"A lot of people can change you - the first kid who called you a name, the first teacher who said you were smart, the first person who crowned you best friend. It's the change you remember, the firsts and what they meant, not really the people. Ethan changed me, for instance, but the longer we've been apart the more he sort of recedes into the distance as a real person and in his place is a cardboard cutout that says First Boyfriend.

I'm talking about the ones who, for whatever reason, are as much a part of you as your own soul. Their place in your heart is tender; a bruise of longing, a pulse of unfinished business. My mom was right about that. Just hearing their names pushes and pulls at you in a hundred ways, and when you try to define those hundred ways, describe them even to yourself, words are useless. If you had a lifetime to talk, there would still be things left unsaid."

- Sweethearts, by Sara Zarr


hey, you.
hug someone today.
:)

Sicília, primeira parada; Catania e Acireale.

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Sente-se num bar qualquer na Sicília, peça um drink e presencie em tempo real o milagre da multiplicação dos antipastos. jesus. EU SÓ HAVIA PEDIDO UMA CERVEJA. juro que nao tenho nada a ver com essas quatro tigelas de comida + esse copo cheio de água suja e legumes ressequidos plantados nela (crudité...? tá de zoação). o bar em questao se chamava "cafe de paris" (aham), ficava na orla da cidade de catania e servia uns sorvetes, digamos assim, arquitetonicos de tao complicados e cheios de coisas desconhecidas equilibrando-se em cima. pensei em pedir um, com fins de pesquisa cultural - mas infelizmente eu nao podia me empanturrar. estavamos ali fazendo hora para o jantar, que iria ser comido num restaurante descoberto ali pertinho mas que só abriria às oito da noite.

um dos pequenos probleminhas da itália, aliás. eles realmente esperam que voce faça uma refeiçao completa, composta de antipasto (entradas frias ou quentes), primo piatto (macarrao), secondo (carnes, aves ou peixes), contorno (legumes e verduras) e dolci (sobremesa), começando as OITO da noite, esticando-se ate quase as dez e tem a petulancia de esperar que voce consiga dormir. eu, obviamente, nao consegui. arrotei durante toda a viagem de volta ao hotel, na tentativa de desinflar o balao de gas que se havia formado no meu estomago. nivel de sucesso = ZERO.

e olha que eu nem comi o tal do dolci.

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a pousada onde ficamos em acireale era uma gracinha. chama-se il limoneto e é, na verdade, um desses "agriturismos" que proliferam por toda a sicilia - ou seja, uma fazenda que resolve alugar quartos. a nossa cultivava limões. eu nem vou tentar descrever a sensação de acordar pela manha (haviamos chegado de madrugada, quase), abrir a janela e me deparar com um tapete verdissimo de limoeiros estendido à minha frente. realmente lindo.

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O que eu vou tentar descrever foi o sufoco ate chegarmos la. desembarcamos no aeroporto de catania quase dez da noite, já que a TUI resolver nos presentear com um atraso de OITO HORAS em hannover, onde nao podiamos sequer sair do aeroporto "no caso de o voo conseguir sair antes do previsto". ok. desnecessario dizer que o voo atrasou TODAS as oito horas previstas, que eu tive que passar oito horas num aeroporto de merda onde nao há NADA para se fazer e que o sol brilhava la fora: vinte e oito graus de primavera germanica. e eu podia ja estar na sicilia.

mentalizei uma morte lenta e dolorosa para todos os funcionarios da TUI, do faxineiro ao presidente da empresa, e só acalmei quando a própria convidou os passageiros do vôo atrasado para um almoço cortesia, num dos saloes do hotel do aeroporto, com vinhos e cervejas e bebidinhas e tudo o mais de grátis. e ainda dois vouchers para gastar com comida no aeroporto (nao foi necessario) ou com tralhas da free shop (troquei por um pingente de coração swarovski, a unica coisa que custava o exato valor dos dois vouchers combinados; eles nao dao troco).

e toca brincar com o zoom da camera pra fazer a hora passar... zzzzzzz...

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a chegada na italia foi assim, meio que um anticlimax. ESTAVA FRIO. tipos, eu saio de jersey num sabado de sol maravilhoso, pessoas bebericando em frente à praia, vinte e seis graus. chego em hannover e passo uma semana ensolarada, temperatura media de 25 graus. e aí resolvo ir pro SUL DA ITALIA e, depois de quase um mes de expectativa, está CHOVENDO? eu joguei pedra na cruz??

enfim. quarenta minutos depois, conseguimos pegar o carro na locadora de veiculos (ah, a eficiencia italiana...) e tocamos pra acireale. o dilúvio versão remix caindo. na metade do caminho, no meio de uma auto estrada, o blackberry do respectivo toca. era o pessoal da locadora de veículos, pedindo para que voltássemos na mesma hora, porque eles haviam nos dado o carro ERRADO (uma porcaria de um Lancia enorme e ruim de manobrar).

é claro que, mais da metade do caminho percorrido, e estando numa auto estrada, e chovendo gatos, cachorros, canivetes e macarrão parafuso, não voltaríamos tipo NEM FODÊINDO. e é claro que os pentelhos da locadora continuaram ligando de cinco em cinco minutos, berrando "where are you" com sotaque siciliano, perturbando o motorista e quase causando um acidente. é claro que, por causa disso, Respectivo tomou o caminho errado e nos fez ir parar dentro de uma favela.

é claro que eu, carióaca escaldada, paniquei histericamente, imaginando que a qualquer momento um mafioso ia pular na frente do carro, AK-47 em punho, nos mandando descer e berrando o equivalente a "perdeu, prêibói" em italiano.

é claro que nada disso aconteceu. só demorou um pouco mais para acharmos a maldita entrada para a fazenda, passando por um monte de ruas escuras sem calçamento e com mato por todos os lados. é impressionante como nessas horas a gente relembra rapidinho as orações que aprendeu nas aulas de catecismo, uns 20 anos atrás. mas olha, mesmo sendo obrigados a estacionar o carro longe do quarto e caminhar pela lama carregando malas pesadas na chuva (ai, a minha escova!), chegar lá valeu a pena.

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se o tempo estivesse bom, daria até pra ver o mar direito... e o vulcão etna fumegando ali atrás.

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mas ó, taí um pedaço dele. tó.

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hypocrisy is the new black.

então a alexandra shulman, editora da vogue britânica, dá uma entrevista para o daily mail dizendo que "deplora cirurgia plástica".

tá bom, darling. comece a usar modelos acima de 25 anos nas páginas da revista que você edita (ao invés de enfileirar adolescentes russas esqueléticas, esfaimadas e inexpressivas nos editoriais), recuse anúncios de cremes de beleza estrelados por atrizes quarentonas ultra esticadas por photoshop e, daqui a uns 5 ou 10 anos, quando os pés-de-galinha começarem a dizer OI na sua cara, volta aqui e a gente conversa.

max hastings, que escreve para o mesmo jornal, publica um artigo sobre a controversa decisão do governo britânico de manter em 24 semanas o limite máximo para que uma gravidez possa ser interrompida. polêmicas à parte (eu, por exemplo, acho absurdo esperar 24 semanas - SEIS meses - para decidir que, bem, na verdade estar grávida não é tão legal assim), o articulista conclui sua linha de raciocínio argumentando que o aborto deveria ser ilegal em qualquer estágio, e que as mães-assassinas deveriam levar a gravidez a termo e doar a criança para adoção, porque "candidatos não faltarão para adotar o baby".

mas é claro que não. agora mesmo estou vendo as filas se formando para adotar crianças negras, ou deficientes, ou soropositivas, ou portadoras de doenças degenerativas incuráveis, ou maiores de quatro anos, com vários irmãos (que não podem ser separados), com problemas psicológicos graves depois de terem passado por vários orfanatos e lares temporários onde foram abusadas física e psicologicamente. é claro. TODO MUNDO está de braços abertos esperando por essas criancinhas. o próprio colunista, inclusive, deveria se encaminhar ao orfanato mais próximo e, depois de passar por cima de todo o nonsense burocrático britânico, adotar uma meia dúzia delas.

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acima, a escadaria de santa maria del monte, em caltagirone, sicília (no topo fica a igreja de san giuliano, com uma vista inacreditável). à direita um dos demônios que decoram toda a murada dos jardins públicos da cidade. por eles e pelos azulejos que decoram toda a escadaria, nota-se que a sicília (e caltagirone, em especial) é famosa por suas cerâmicas. como não ia caber nada muito grande na bagagem, não deu pra aloprar; comprei apenas um casal de anjos em taormina.

aqui, outra foto da escadaria, encontrada no flickr (ainda tenho que fazer download das minhas; são quase 500 fotos, tenham piedade), que também deixa clara a paixão dos italianos por varandas/sacadas nos apartamentos. em breve, cenas dos capítulos de viagem.

e... nada a ver com o preço do feijão, mas apenas um adendo ao post passado. quando eu me referi às yummy mummies atravancando lojas, restaurantes e supermercados, não quis dizer que, depois de parir, as mulheres devam passar o resto de suas vidas em casa lambendo as crias, sem impor a presença ruidosa dos seus rebentos ao resto do mundo cool e child-free (apesar de, às vezes, essa idéia não me parecer tão má).

eu tinha apenas uma coisa em mente: a falta de consideração que elas demonstram ao a) comprar carrinhos IMENSOS porque eles estão na moda e onde elas possam pendurar várias sacolas de compras e b) manter seus próprios filhos acorrentados a esses carrinhos, entediados e irritados, mesmo muito depois que aprenderam a andar - só para não ter que controlá-los.

eu posso estar errada, mas não creio que mereço me ver impossibilitada de transitar em certos estabelecimentos comerciais pela manhã, nem levar pancadas de carrinhos de bebê nas pernas (mães são sagradas demais para parar e dizer "com licença") em respeito ao lifestyle dessas senhoras. lembro de ter ouvido uma brasileira dizendo que, ao chegar em londres como turista, pensou estar havendo algum evento direcionado a crianças com paralisia, tantas eram as mães empurrando carrinhos com crianças de 4, 5 anos de idade. perdi a conta das vezes onde fui atropelada por eles; numa delas, o choque foi tão violento que minha bolsa escorregou do ombro e caiu em cima do bebê. e como eu sempre carrego livros e câmera, ela estava bem pesadinha... ouch. a mãe, evidentemente, nem pensou em se desculpar, e ainda me culpou pelo acidente.

moral da história: ter filhos implica sim em alguns sacrifícios, como pagar baby sitter, ficar mais tempo em casa por conta deles e, principalmente, tentar ser responsável pelas ações dos pequenos. amarrá-los em carrinhos gigantescos que ocupam espaço descabido só para que eles não perturbem o seu cappuccino com as amigas NÃO É LEGAL.
tolerância tem limite, e é via de mão dupla.

coisas que era melhores em hannover

sanduíches de bagel no bagel brothers, por exemplo.

esse foi o meu café da manhã antes de embarcar para a itália, em maio.
o único inconveniente é que o bagel brothers, pela manhã, é povoado por "yummy mummies", que abarrotam o lugar de carrinhos de bebês tão enormes quanto desnecessários.

deus perdoe essa gente que consegue importar símbolos de status para atividades tão comuns quanto a maternidade.

mas o bagel de cream cheese com salmão OU o de peru com french mustard e salada fazem o incômodo valer a pena.