wait a minute, mr. postman

A ollie postou sobre isso recentemente, e hoje li um post fabuloso no blog do Rafael. e me dei conta de que eu também tenho algum direito a ser nostálgica quando se trata de cartas.

Há uns bons anos atrás, eu tinha dezessete anos e quase nenhuma auto estima. Passada a efêmera fase de popularidade ginasial, eu me vi saindo de um relacionamento destrutivo pela porta dos fundos (fugindo, quase), entrando em outro ainda pior (dessa vez com um "senhor" 14 anos mais velho), dando os primeiros passos na vida universitaria em uma faculdade onde eu não tinha amigos e que ficava exatamente a duas horas e três onibus de distância, com uma mãe abandonando o inferno doméstico que era o nosso lar e um pai que, ferido em seu orgulho, encontrou em mim o bode expiatório perfeito onde descontar a raiva. Muitos dos meus amigos na época eram amigos do ex que, quase sem exceção, tomaram o partido do rapaz. Os meus amigos pessoais, por sua vez, se opuseram ao meu novo relacionamento. Great.

Foi esse cenário de inferno astral que me fez afundar o rosto cheio de lágrimas num jornal de domingo. Quando por fim me levantei, as manchetes do dia estavam impressas na minha cara, e um pequeno anúncio de canto de página propagandeava um novo "clube de correspondência". Arrumei um pseudônimo, redigi uma cartinha e enviei para a redação do jornal. Meu endereço foi publicado alguns domingos depois e, já na terça feira, ao tentar enfiar a mão na caixa de correio, me dei conta de que ela não cabia mais ali. A caixa estava abarrotada por cerca de 60 envelopes. E mais uns 60 no outro dia, seguidos por uns 80 no dia seguinte. O influxo de missivas durou mais de uma semana, deixando o carteiro do bairro deveras curioso.

Não consigo achar palavras que descrevam o efeito que isso teve. De repente, centenas de pessoas queriam ser minhas amigas e saber de mim. Tipo, wow.

É evidente que não consegui responder a todos. escolhi cerca de 100 pessoas (em si já um número corajoso) para retribuir o contato, sabendo que a maioria não ia durar muito tempo. Ainda assim, no final daquele ano, eu contava com cerca de 50 correspondentes fixos, sendo que apenas uns 20 recebiam cartas personalizadas. Para o restante eu enviava cartas padrão, escritas no computador, com um resumo semanal/mensal das minhas novidades + um ou dois parágrafos escritos à mão, respondendo a perguntas e fazendo outras. Ainda assim, eu conhecia aquela gente pelo nome e sobrenome, sabia dos seus problemas, dos seus sonhos e dos seus medinhos ridículos. Porque todo mundo tinha muito medo de alguma coisa ridícula. Descobrir isso foi descobrir, finalmente, que os meus medos eram ridículos.

Com algumas dessas pessoas eu troquei telefonemas, outras encontrei pessoalmente, e aprendi que algumas amizades funcionam lindamente por carta, mas são um fracasso ao telefone... ou que pessoas que só escreviam cartas mornas e sem brilho poderiam ser fascinantes e divertidas via embratel. E ainda que pessoas que escreviam mal *E* eram monossilábicas ao telefone poderiam ser maravilhosas pessoalmente. Aprendi a conviver com essas características e respeitar o modus operandi de cada um.

Aacabei perdendo contato com a maioria. Hoje, apenas uns 4 ou 5 ainda sobrevivem, mas a falta de tempo e as reviravoltas da vida acabaram reduzindo nosso contato a emails ocasionais e às minhas cada vez mais raras incursões no MSN. Mas são amigos. Com quem vomitei depois de misturar vinho barato com whisky nacional, com quem chorei o fim de novelas e de etapas, com quem celebrei o começo de outras, com quem briguei horrivelmente e com quem voltei a falar tempos depois como se nada tivesse acontecido.

Desse tempo eu guardo lembranças curiosas, como o correspondente feinho que me pediu uma foto em retribuição à que ele havia mandado e, quando mandei, ele disse que eu "não era tão bonita quando ele imaginava" e cortou o contato. Ou do outro que se apaixonou por mim e veio me visitar em casa, trazendo latinhas de cerveja na mochila (não rolou nada, mas continuamos nos escrevendo por um bom tempo). Ou da belorizontina patricinha que me chamava de "irmã" nas cartas, mas que não se dignou a descer para me receber quando passei pela cidade e apareci para uma visita, devidamente anunciada e com a qual ela havia concordado. Falei com a mãe dele, que foi extremamente rude comigo. A filha nunca mais me escreveu. Lembro da mulher louca que tinha 300 correspondentes e resolveu armar uma campanha difamatória contra a minha pessoa entre eles, só porque eu não quis comprar os selos repetidos que ela tentou me vender (observação pertinente: eu jamais colecionei selos).

Lembro dos "friendship books" que trocávamos, livrinhos feitos em casa com papel A4 colorido e grampeador, onde cada um anotava seu nome, endereço, idade e interesses, colava um adesivo e repassava a outro correspondente; era a nossa maneira simples e gratuita de divulgação. Lembro de passar tardes inteiras fazendo FBs, e eles ficavam lindos, com capas de tecido bordado ou colagens com paetês e muito glitter. Também havia as "cartas sociais", que podiam ser enviadas pela bagatela de um centavo, desde que o endereço fosse manuscrito, com a frase "carta social" escrita acima do CEP e que tudo pesasse menos de 10 gramas. Podíamos mandar, no máximo, cinco dessas por dia. Lembro também do dia em que o funcionário enxergou através do papel fino dos meus envelopes (que eu fazia em casa, para economizar) e jogou minhas cartas no chão da agência dos correios, porque, segundo ele, eu estava infringindo uma lei - que sequer existia. em lugar algum se afirmava que o conteúdo de uma "carta social" também devia ser manuscrito; até porque o conteúdo de uma carta interessa apenas ao remetente e ao destinatário (funcionários abelhudos e de mau humor não contam).

Eu não tenho nenhuma memória emocional que tenha vindo de emails. Essa comunicação é instantânea demais. Não existe a ansiedade da espera, o risco de extravio, o prazer de abrir uma caixa de correio lotada de cartas gordas, cheias de coisinhas coloridas e cheirosas, o coração disparado ao avistar aquele uniforme amarelo e azul royal subindo a rua quando se está esperando uma carta que pode mudar tudo.

E ainda concedo uma última vantagem. Com raiva do remetente? Picar uma carta em mil pedaços ou vê-la retorcendo-se no fogo é MUITO mais catártico do que, simplesmente, deletar um email.

E, já que estamos falando em cartas, achei esta aqui o máximo:

Trata-se de uma carta de rejeição enviada pela Disney, em 1938.
Em resumo, a aplicante Mary Ford estava sendo informada de que não seria considerada para a vaga no setor criativo do estúdio de animação por ser mulher. mas que poderia tentar uma vaga de assistente, em que teria o privilégio de pintar os desenhos nas folhas de celulóide "seguindo instruções".

O detalhe da "bruxa" ao lado da assinatura do estúdio é fenomenal.
E a mensagem, clara. Pra quê ser criativa se você pode ser bela, indefesa e tola como a Branca de Neve (afinal, atender pela segunda vez a mesma bruxa velha que lhe aplicou um golpe e cair em outro não é sinal de inteligêcia, é?) e, ainda assim, encontrar o seu príncipe e ser feliz para sempre? Vai catar um marido, Mary Ford, e pára de encher o saco. Thanksbye.

Mary Ford guardou a carta (os netos a encontraram em meio aos seus pertences, depois da sua morte) mas, ao contrário da branca de neve, não caiu em conversa fiada. Continuou tentando e, por fim, durante a segunda guerra, realizou seu sonho e começou a trabalhar com animação. Tivesse sido um email ao invés de uma carta, os netos não teriam preciosidade alguma para encontrar dentro de uma caixinha cheirando a naftalina.

No comments

Os comentários são moderados para evitar spam. ♥