she works hard for the money

Juro que não entendo pessoas adultas, mais de 30 anos, indo morar na América ou na Europa e reclamando por serem obrigados a cozinhar a própria comida e limpar a própria casa. Até posso entender adolescentes de classe média alta, criados a Toddynho e sendo poupados de pegar no batente doméstico porque "precisam estudar" (leia-se ficar pendurado no MSN até duas da manhã, but whatever) sentindo o baque da realidade caindo sobre seus ombrinhos pela primeira vez na vida. Mas adultos? Às vezes até casados? Nunca fritaram um ovo/improvisaram um espaguete à bolonhesa na vida? Nunca lavaram a própria roupa?

Aí a ficha cai. E me lembro daquele fenômeno brasileiro chamado "empregada doméstica". Ou, melhor dizendo, escrava. Não tenho nada contra a idéia por si só; tenho contra o modo como ela é realizada no Brasil. Aqui, por exemplo, a cleaner chega, faz uma faxina rápida por umas duas horinhas e cai fora, indo limpar outro lugar. É uma prestação de serviços impessoal. Não sei se inteiramente justa, no entanto. Ok, o casal trabalha o dia inteiro e quer relaxar ao chegar em casa, passar tempo com os filhos, etc. Mas, e quem limpa a casa da empregada? Ela também não teria direito a relaxar e passar tempo com os filhos, ao invés de ir lavar, passar e cozinhar antes de capotar na cama? Questão complicada, essa. E pelamor, não estou necessariamente condenando quem tenha empregada. O assunto é cheio de nuances e poréns, que eu não tenho tempo, saco, moral ou competência pra discutir. Just ranting here, okay?

O que me espanta é a prática bastante comum de enfurnar a empregada na casa o dia todo, todos os dias, dando a ela folgas semanais ou, ainda pior, quinzenais. É o hábito de pagar oito horas por dia, mas fazer a empregada trabalhar desde a hora em que acorda até a hora em que o último adolescente desliga o computador e vai pra cama. Já dormi na casa de pessoas que acordavam a empregada pra fazer um chá caso se sentissem mal de madrugada (a hipótese de ir à cozinha e se medicar sozinhos sendo impensável). Já vi empregada fazendo serviço de babá (ou seja, acordando pra alimentar o bebê alheio) sem ser paga a mais por isso. Já vi "Edileuzas" bancando o "serviço de quarto" e levando refrigerante/lanche para adolescentes ociosos. Já vi famílias reclamando da comida feita pela empregada, sem que lhes passe pela cabeça a idéia de pegar um livro de receitas e ir para o fogão eles mesmos. Confinada à casa o dia todo, é como se a empregada deixasse de ter vida própria e se transformasse numa espécie de eletrodoméstico vivo.

Há quem argumente que, para a empregada, isso é melhor do que ficar sem emprego. É e não é. Diaristas tendem a ganhar mais e a ser menos exploradas; mas alguns empregadores preferem ignorar essa opção, por acreditar que morrerão se passarem um dia sem uma Creuza. Há quem argumente dizendo que é mais cômodo para a empregada não ter que se deslocar todos os dias para o trabalho, geralmente distante do buraco/favela onde vive. E eu acho que é mais cômodo para o empregador, que não precisa pagar pelo transporte dela, e que no fundo a empregada até preferiria ir pra casa interagir com família e amigos, e não com gente que preferiria que ela fosse um robô. Há quem diga ainda que isso "dá a uma moça humilde a oportunidade de morar numa área nobre, num bom apartamento". Essa é a parte que mais me comove, porque algumas "patroas" realmente acreditam nisso. Se esquecem, no entanto, de que dormir num quartinho minúsculo e mal iluminado, colado na área de serviço de um apartamento de quatro quartos não é sinônimo de morar bem, e sim de humilhação.

Ok, aqui nós temos uma "cleaner". Cogitei dispensá-la quando me casei. É verdade que a casa é grande, mas como eu não trabalho, daria conta sem problemas. PORÉM 1) não tive coragem, porque ela é legal e trabalha com o British Boy desde antes de ele saber quem eu era; 2) ela só trabalha duas horas por semana aqui e às vezes só passa roupa; e 3) ela não é explorada; tem um carro melhor do que o que meus pais têm no Brasil e viaja com os filhos o tempo todo. Fora que é um doce e ainda me leva para ir fazer compras no supermercado com ela quando meu marido está viajando (ela sabe que eu não posso dirigir). Pode ser que eu esteja errada, mas não enxergo aquela relação típica de exploração/subjugação social, aqui. E, oi? Cinco quartos? Três banheiros? Marido "chef" (leia-se: cozinha transformada em ground zero do WTC)? DUAS horas por semana? Alguém duvida de que quem faxina aqui sou EU? Thanks.

Outro dia li um blog (escrito por um típico elemento da burguesia carioca zona sul) afirmando que, no Brasil, "a maior parte das pessoas tem empregada doméstica". Fiquei dividida entre pensar "HA, só se for no SEU Brasil; no MEU, a maioria É empregada doméstica" e "É verdade. Não existe um só Brasil, e o meu é diferente do seu". Mas ainda acho estranho pessoas esclarecidas e até com alguns ideais pseudo-socialistas escritos na camiseta perpetuando essa semi-escravidão em troca de salário mínimo e condenando alguém a uma existência relegada ao quartinho do vexame.

Aliás, sempre que a idéia de "voltar a viver no Brasil" me ocorre eu me lembro das idiossincrasias e preconceitinhos de estimação da classe média do meu país e sinto uma certa preguiça de ter que voltar a conviver com isso. Eu não tenho raiva de quem simplesmente tem dinheiro. Tenho é preguiça de gente que, mesmo que nem tenha tanto dinheiro assim, se comporta como se tivesse. Ou se acreditando estar uns dez andares acima do resto da humanidade porque seu código de endereçamento postal leva a um condomínio chique. Ok, é igualzinho em qualquer lugar, mas no resto do mundo eu posso ignorar que essa gente existe. No Rio de Janeiro eu sou obrigada a conviver com elas e ouvir o que elas falam. Cafonas, cansativas e nunca satisfeitas, apesar das oportunidades que lhes foram servidas de bandeja OU usando injustamente essas mesmas oportunidades para se proclamarem superiores aos que não as tiveram.

A vida me ensinou que ter dinheiro é uma coisa, e ser pequeno burguês é outra. E ser burguês na atual conjuntura é tão, mas tão cafona...

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