conjecturas de terça.

British Boy operou o pezinho, hoje.
Um gânglio inchado que prometia se alastrar e se transformar numa chatice foi extirpado essa manhã, numa cirurgia simples de pouco mais de uma hora. Ele nunca havia passado pela maravilhosa experiência de levar uma anestesia geral e ficou encantado com o fato de não se lembrar de absolutamente nada. Aww, fofo. Depois da cirurgia nos trouxeram sanduíches gostosos, chá, bolo e biscoitinhos - limpamos a bandeja e pedimos bis, haha. Quartinho azul privativo, quadrinhos na parede, televisão com DVD e eu me senti de férias no Holiday Inn. Isso tudo de GRAÇA. OK, os clínicos gerais desse Reino podem até ser uma peste - mas depois que você CONSEGUE ser diagnosticado, o tratamento é nota mil.

Da série Inconvenientes de voltar a viver no Rio: comprar um apartamento que inclua os indefectíveis "playground" e "salão de festas". Além do fato de esses nomes serem absolutamente bregas, o conceito por trás deles também é.

Playgrounds (sou 100% a favor de anglicismos, mas por que não chamar de parquinho?) estão sempre lotados de crianças barulhentas, babás trocando fraldas em bancos de cimento, carrinhos de bebê e tias velhas fazendo fofoca. Salão de festas - alguém ainda usa esse tipo de "espaço"? No máximo, pra fazer festinha de criança, o que também é um conceito brega.

De resto, eu abomino esses "espaços de integração social forçada" (inclua aí a "academia" e os "barzinhos" do prédio). Eles foram criados para compensar o fato de que os apartamentos em si são GAIOLAS mal ventiladas e quentes. Sem mencionar o inconveniente de ser obrigado a encontrar vizinhos, principalmente aqueles que você gostaria de evitar. Detesto muito tudo isso. O único tipo de espaço comunal que eu vagamente tolero em prédios são corredores, elevadores e garagens - e quem sabe portaria com segurança, no caso do HELL de Janeiro. Mais do que isso é enfeite e eu me recuso a "pagar pelo privilégio".

Outra coisa que me deixa puta da vida é o tal "condomínio mensal". Geralmente uma taxa extorsiva (e o meu conceito de extorsivo, dependendo da localização, pode variar entre 200 reais até 1000 e seus múltiplos), que quase nunca se justifica quando se leva em conta o custo para iluminar e limpar as áreas comuns do prédio e pagar o salário de fome do pernambucano da portaria. Espaços como parquinho, salão de festas, piscina coletiva e academia eu dispenso, então não topo pagar por eles. Seria fantástico poder desmontar a casa onde vivemos e levá-las na bagagem; bem que elas podiam ser portáteis, como essa aqui:






Quando moramos em Hannover, num dos endereços mais nobres da cidade, o apartamento de dois quartos, espaçoso e com janelas enormes, banheira de hidromassagem e varandão voltado para uma área verde nos fundos do prédio custava menos de 900 euros por mês. Sem nenhuma outra taxa. Ok, não tinha elevador e nem vaga na garagem (prédio antigo), mas isso nunca foi problema. A luz do corredor era automática e se apagava quando não havia movimento, e os próprios moradores cuidavam da limpeza externa - o que era simples, já que todos eram extremamente limpos e eu nunca vi nada sujo.

Eu sei que o Rio de Janeiro oferece privilégios que nenhum outro lugar poderia. Mas também oferece desvantagens (a violência sendo a principal) e as pessoas deveriam levar isso em conta antes de pedir 800 mil reais - e 500 mensais de condomínio - num apartamento de dois quartos, com cozinha e banheiros cafonas, sem varanda e com vista parcial para uma favela chapa quente. Eu andei considerando a possibilidade de voltar pra casa (inúmeros motivos, que talvez um dia eu tenha paciência para listar; talvez não), mas certas coisas eu acho que não consigo mais aceitar. Certa vez ouvi alguém dizer que "quando você sai do seu habitat natural por um longo período de tempo, você nunca mais volta a ser a mesma pessoa de antes, e isso nem sempre é uma boa coisa". Na época, pensei "bullshit de patricinha deslumbrada". Well, eu devo então ter me transformado em uma, porque essa afirmação eu hoje poderia tatuar na testa.

Eu acho uma baita lição de vida me dar conta de que, quando eu estava no Rio e fazia aniversário, recebia cartões, telefonemas, presentinhos, era convidada para sair com tudo pago e paparicada por um grupo bastante pequeno, porém leal de amigos. Hoje em dia eu faço aniversários atrás de aniversários e essas mesmas pessoas são incapazes de postar uma cartinha tarifa econômica no correio ou dar uma ligação de UM minuto só para desejar felicidades. No máximo, ganho um HEY! PARABÉNS! muito de passagem no Orkut. E possivelmente só porque tinha um link para o meu perfil na seção de aniversariantes. Eles gastavam muito mais antes, não sabendo que hoje em dia um telefonema breve significaria muito mais para mim do que os presentes que eu costumava ganhar.

Sinceramente, me entristece um bocado perceber que o ditado "out of sight, out of mind" procede na prática. Que o que os olhos não vêem, o coração esquece. Sem pieguice ou draminha, mas essa mudança de atitude veio de onde? Será que o fato de alguém morar distante significa que não vale mais a pena manter os laços? Vejo essas pessoas postando mil fotos de festas em seus fotologs, conhecendo gente nova, getting on with life e constato que sim, eu fui engavetada. Nem sei se devo procurá-los ou não quando estiver no Rio. É provável que eu não procure ninguém e passe as minhas preciosas semanas na Cidade Maravilhosa completamente sozinha, refazendo caminhos nostálgicos, comendo nos meus restaurantes e pé-sujos preferidos, com saudades do British Boy e das minhas gatas e temendo ser sorteada no "Concurso Bala Perdida 2008 - vire você também uma estatística!".


"In his heart, there is a girl; she is me. No contract keeps her, she goes with him, she goes alone, precipice to precipice, upon every ledge agreeing again to leap. She is with him, she has been with him, every minute, alongside. No one can know what we know. Just us. Us. If you listen, you can hear it. In the wide wide sound of the rain - us."

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