Ano novo, papéis novos.

Primeiro dia de internet em casa. Casa da mãe, diga-se.
A mesma internet que vai ser cancelada assim que eu não aguentar esperar até Março para sair desse FORNO chamado de Rio de Janeiro. Porque pessouas do meu Brasil, eu não sei como vocês aguentam. Eu não sei como EU aguentava. Ou melhor, sei sim. Eu não aguentava. Eu passava as horas externas necessárias num estado de torpor e desespero, gritando em silêncio. Agora que simplesmente não rola mais deixar um ar condicionado ligado o dia inteiro, eu sofro. Não durmo. Não vivo; vegeto. E derreto. E viro uma massa pegajosa, grudando em coisas e pessoas, porque a maldita umidade do ar (altíssima por essas bandas) atrapalha a evaporação do suor e prejudica aquele processo natural esperto e sagaz que o nosso corpo tem de estabilizar a temperatura.

Resumo da ópera? Eu agora sou uma lesma de 70 quilos, arrastando uma poça de suor onde quer que vá, tendo que parar para me secar com uma toalha maior do que eu a cada 20 metros de caminhada. O filtro solar FPS 50 impede o estágio camarão, mas não me salva de empretecer. E, ao invés de ficar com uma cor dourada e bonita, eu fico MANCHADA. É mole ou quer mais inferno astral para alimentar o seu sadismo?

Passei o fim de ano em Búzios, mas não consegui ver quase nada. Mal saí do quarto, me refestelando no ar condicionado. E quando saía do quarto, me enfiava no carro e me refestelava no ar condicionado do mesmo. E me desesperava vendo aquela gente arrastando havaianas cafonas por areias escaldantes, as "saídas de praia" encharcadas de suor, visivelmente esgotados pelo calor, servindo de alvo para melanomas e destruindo a pele a troco de nada. Não adianta: sou um ser do frio e nasci no hemisfério errado - o destino se encarregou de corrigir a falha. Não me interessa se é resort de patricinhas ou piscinão de Ramos: eu acho praia um ambiente cafona. Fora que é cheio de gente que coloca tererê no cabelo, faz tatuagem de henna e cola adesivo de Micareta no vidro do carro. Sorry, but no. Me dá menos dez graus centígrados enrolada num casaco de lã de brechó anytime. Porque né, contra o frio a gente se enrola. E no calor, a gente faz o quê? A única coisa que EU tenho vontade de fazer é o meu testamento.

Mas há fotos de Búzios. Que, micareteiros e "cenoura e bronze" à parte, continua um paraíso. Espera só um bocadinho.


Eu sou daquelas pessoas estraga prazeres que não passa o reveillon de branco. Que não come uvas, não pula ondinhas, não repara na cor da calcinha que está usando e nem evita comer aves porque elas "ciscam para trás". Não ajuda muito o fato de eu não ser nem um pouco supersticiosa e não muito afeita a modismos - ou seja, fazer qualquer coisa só porque todos estão fazendo e esperando que eu acompanhe. Isso me rendeu, a vida toda, a fama de antipática, esquisitona, "do contra" e ranzinza. Que cultivo com certo carinho. Nunca fui de ganhar coisa alguma de ninguém, e não vou recusar quando me oferecem; ainda que seja uma reputação de pentelha.

Somente uma coisa me faz ter entusiasmo pelo suposto último dia do ano (sem mencionar a desculpa óbvia para comer e beber): a oportunidade de começar uma agenda nova. Que muito provavelmente estará abandonada lá por meados de Março, muito raramente usada para anotar algum telefone, nome de livro/DVD a ser comprado, rabiscar enquanto falo ao telefone ou enquanto espero a conta num restaurante. Mas nos últimos dias do "ano velho" e nos primeiros do "novo", a agenda é estrela absoluta, seu cheiro de papel novo e folhas branquinhas inspirando surtos criativos e caligrafia caprichada. A minha agenda 2009 é uma "agenda de jardinagem", com dicas valiosas para uma plantadeira de primeira viagem como eu. Mas o que me fez engolir em seco e tirá-la da prateleira sendo que eu já havia comprado um Moleskine para usar em 2009) foi a graciosidade das ilustrações. Olha que fofura:















É bem provável que eu não use muito essa pequena para escrever. Tenho outros livros de jardinagem, mais completos e confiáveis. Mas nenhum tem desenhos tão lindos e nem vai me lembrar, dia após dia, do que devo fazer no jardim e nem quando exatamente plantar o quê. Decidido, então? Moleskine para carregar na bolsa, agenda de jardinagem para deixar sobre a mesa, perto da porta de saída para o pátio dos fundos (que transformei temporariamente em potting shed). Só espero que minha inclinação para a jardinagem não se revele fogo de palha. A realidade é que, apesar de amar a minha casinha e a ilha mais bonita do mundo, não estou amando muito o tipo de vida que elas me permitem levar. Assunto pedregoso, que fica para outro post. Ou não. :)

Na verdade, o "ano novo", analisado friamente, não passa de uma ilusão. Começa e termina em horários diferentes dependendo do país. Muda de acordo com os calendários utilizados (chineses, muçulmanos, e os poucos povos que ainda usam o calendário Juliano). Muda até com o horário do verão! Mas mexe horrores com o coletivo, a ponto de motivar frases como "quero que esse ano acabe logo!" - como se o amanhecer de um novo dia aleatório fosse magicamente zerar os problemas do dia anterior.

Ok, aqui estou eu sendo chata e sarcástica novamente. Can't help it. No fundo, o tal Ano Novo não passa de uma boa desculpa para ensaiar recomeços. E eu não gosto de recomeços. Eu gosto de sequências, de continuidade. Mesmo que com altos e baixos. Mas principalmente das coisas boas. Das muito ruins, a gente não precisa, e nem deve, esperar uma virada de calendário para mudar. Todo e cada amanhecer é uma oportunidade; mas, como não sabemos ao certo quantos ainda temos pela frente, o jeito é se apressar.

As mudanças não sabem esperar por Ano Novo algum. Elas só esperam por você.


P.S.1: Este humilde blog é contra a Reforma Ortográfica, entre outros (vários) motivos por acreditar que ninguém a solicitou, nem precisa dela. Assim sendo, os hífens que eu sempre errei, continuarei errando, as tremas que eu nunca usei, continuarei engolindo, e os acentos diferenciais eu continuarei diferenciando (se achar bonitinho).

P.S.2: Saindo do Rio amanhã, voltando lá pelo final da semana. Por ora, sem tempo pra nada, servindo de guia e intérprete para o Respectivo; mas aproveitando muito essa companhia maravilhosa que em breve voltará para o frio. Não me esperem para o jantar, mas guardem um pedaço da sobremesa; eu tô chegando.

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