Home from home; two notes.

Apesar de eu estar a apenas 40 minutos de ônibus de Oxford Street, não posso dizer que "moro bem" em Londres. Sim, 40. Com a quantidade absurda de sinais de trânsito + a lentidão com que os ônibus se arrastam naquela cidade, quarenta minutos significa que estou bem perto (fosse no Rio, dez minutos cobririam o trajeto). Estou no sul - south east, pra ser mais exata, na região administrativa de Southwark - numa área que faz divisa entre New Cross e Peckam, sendo esse último um bairro populado majoritamente por africanos e, coincidentemente, a capital do knife-crime no sul de Londres.

That's right; a rapaziada lá se amarra em carregar facas no bolso e usá-las para intimidar qualquer um que tenha cara de bunda mole e não lhes esteja mostrando o devido "respeito".

É lógico que antes de me comprometer eu fiz o meu dever de casa e pesquisei na internet. E, quando até a Wikipedia te avisa que o lugar é heavy metal, melhor acreditar. Não faltaram pessoas me aconselhando a NÃO alugar ali, mas o preço era bom, a família gente boníssima e, barra pesada por barra pesada, eu morei no Rio de Janeiro ("sou carioca, pô!"). Melhor me preocupar com a minha segurança do lado de fora da casa do que me enfiar em bairro de brasileiro, dividindo a casa com outros 20 brasileiros e ter que me preocupar com a segurança do meu laptop, da minha câmera e das minhas bolsas DENTRO da casa. If you know what I mean.

Well. No dia seguinte à minha chegada, eu tranquilamente me encaminhava para o ponto de ônibus quando um rapaz negro veio caminhando na direção oposta. Já chegou falando e, através do sotaque estuário pesado, eu decifrei um "can you help me?". Parei e logo percebi meu erro: ele desenrolou a velha história do "preciso de uma libra para inteirar a minha passagem e voltar pra casa" que eu, em condições normais, teria negado. Mas enfim; eu estava em Peckam, a capital Londrina de esfaqueamentos. Achei melhor puxar a carteira da bolsa, tirar dela uma moeda de uma libra e entregar. Foi quando ele disse "não, eu falei TRÊS libras".

Fodeu.

EU: Querido, eu não vou te dar três libras. Eu também preciso de dinheiro para a minha passagem de volta, senão vou ter que ficar pedindo, igual a você.
ELE: Você não me entendeu, EU FALEI TRÊS.

A essa altura confesso que um leve pânico tomou conta de mim. A reação natural seria a de mandá-lo ir à merda de bicicleta e seguir o meu caminho; mas, e se ele tivesse uma faca no bolso? Continuei argumentando na esperança de convencê-lo (ou cansá-lo, o que viesse primeiro) quando olhei para o lado e, dentro de uma lanchonete de comida halal, vi dois homens de aparência árabe sentados no fundo, gesticulando em minha direção. Levei algum tempo para entender que eles estavam me aconselhando a não dar dinheiro algum. Na dúvida (e na falta de opção) acabei entrando na loja para tentar desencorajar o pedinte; só que ele entrou atrás de mim, e foi quando um dos árabes se emputeceu:

ÁRABE: Cai fora da minha loja! Sai ou eu vou ligar pra polícia!
VAGABUNDO: Não, ela vai me dar dinheiro!
ÁRABE: CAI FORA DA MINHA LOJA AGORA!!

O vagabundo não saiu, os xingamentos começaram a ser trocados e as cadeiras começaram a voar. Sério. O árabe enfezado passou a mão na mobília e começou a catapultá-la na direção do intruso; uma delas passou a uns vinte centímetros da minha cabeça. Quando o neguinho finalmente achou mais prudente se retirar, fiquei sem coragem de sair; vai que ele estava ali fora me esperando pra me furar toda? Sentei numa das poucas cadeiras que ainda estavam no lugar e pedi uma coca cola. Enquanto árabe TPM arrumava a loja, o mais quietinho me disse que aqueles caras viviam por ali esmolando e que eu não deveria ter dado dinheiro nenhum (falar é fácil, baby). Enquanto ele me aconselhava e eu bebia minha coca tentando recuperar o fôlego, chegou outro africano pedindo um take away de galinha frita.

O árabe foi fritar a galinha e o rapazola ficou lá em pé, me olhando de cima a baixo com um sorrisinho cafa iso 9000 no rosto, cheio de segundas e terceiras intenções. Percebi. Olhei a lata de coca cola ainda pela metade e calculei o tempo que levaria pra chegar até a porta antes que o Don Juan da Nigéria resolvesse me dirigir a palavra. Problema: o medo de sair e dar de cara com o Jack the Ripper do Caribe.

Don Juan (sorrindo): what's your name?
Eu: Sorry?
Don Juan: Your name.

Fodeu II.

Eu: Lolla.
Don Juan: Where are you from?
Eu: BRASIL.
Don Juan: Wow. Brazil.
Eu: ...
Don Juan: So, do you live here?

E assim prosseguiu a "conversa" meio unilateral. Ele falava, eu sacudia a cabeça e sorria. Whatever, mate; deixa só eu terminar essa coca que eu vazarei daqui e já estou achando melhor encarar uma faca de cozinha engordurada na barriga do que essa sua conversinha mole E o cheiro da sua galinha frita.

Pra ser honesta, o cheiro era a pior parte; galinha à parte, o rapaz fedia a fritura misturada com suor e maconha. Senti esse cheiro várias vezes durante a minha estadia, e acabei descobrindo de onde ele vinha quando passei de ônibus por um mercadinho no centrão de Peckam e vi as vitrines cheias de latas de óleo tamanho jumbo. A galera do Caribe frita simplesmente TUDO o que come, e aquele cheiro de gordura velha e reutilizada gruda neles, nas roupas deles, nas trancinhas de nylon e perucas que a mulherada usa.

Não se trata de "preconceito racial", é FATO; desafio a qualquer um que tenha nariz a adentrar o 436 comigo e respirar. Qualquer pessoa cheirando a galinha frita e suor (tenha a cor, etnia ou ascendência que seja) não vai virar meu amiguinho a menos que eu um dia acorde sem o sentido do olfato.

Depois de uns dez minutos, não aguentei mais o papo, nem o cheiro do cidadão; já ia me levantando quando ele apresentou um business card (isso a despeito de feder mais do que a Morte e estar vestido feito um mendigo) onde o nome Junior (!) vinha logo acima de um número de celular. "Me liga e vamos nos divertir", disse ele enquanto me acompanhava até à porta, segurando a sacola de galinha frita com uma mão e a minha cintura com a outra. Sorri para não irritar meu pretendente e entrei no primeiro ônibus para o centro que passou. Sentei e borrifei meio vidro de Amarige na roupa para aliviar a catinga. Por sorte não vi mais o conquistador, nem o Jack the Ripper Caribenho.

Uns três dias depois, eu já estava no ponto de ônibus segurando orgulhosa o meu Oyster Card quando percebi que um outro negão (esse mais velho e mais gordo, mas igualmente malcheiroso) veio se aproximando e se enconstando, praticamente se espojando, na minha bolsa.

Pára. Peraí. Nem minha mãe, depois de tomar banho com álcool, encosta desse jeito na única Marc Jacobs que o meu dinheiro conseguiu comprar. Amigo, SAI. Mudei a bolsa de braço, olhei o dito cujo com a cara mais feia que consegui fazer e abstraí. Foi quando ele, agora com o caminho livre, tacou sem cerimônia a mão na minha bunda. ALI. Ponto de ônibus cheio, plena luz do dia.

Eu não tenho nenhuma explicação antropológica para o fenômeno, mas a verdade é que os africanos são BEM mais ousados e diretos que os brasileiros (os ingleses, coitados, esses então nem contam). Fiquei passada com as cantadas que ouvi nessa semana, coisa que nunca ouvi nem no Brasil. A mais bonitinha foi de um grupo grande (africanos, ingleses e latinos) trabalhando numa obra perto da casa. Um dos negões pôs a cabeça para fora da van e gritou "HEY SWEETIE" (eu adoro ser chamada de sweetie). "YA BRIGHTEN UP MY DAY WHEN I SEE YE".

Aww, fofo, vai. Mas aí eu me dou conta de que estou usando um cardigan PINK FLUORESCENTE, e concluo que "iluminar" o dia de alguém assim é muito fácil. Acabo rindo e praticamente TODO o contingente de trabalhadores braçais da rua começa a aplaudir.

Como se costuma dizer por aí, não há crise de baixa estima que uma bela cantada de pedreiro não resolva. ;)