Menos uma luz na Ribalta

"Todo mundo que é fã do Michael começa a fazer Moonwalk agora. Vamos girar a terra ao contrário, voltar no tempo e salvá-lo". (by Erica Angelica)

Então, é mais ou menos assim: se até Michael Jackson pode morrer, então todos nós podemos.



Assim, de uma hora pra outra. Here today, gone tomorrow. No entanto, porque existem certas celebridades que desafiam a divisão vida/morte, não me parece que muita coisa tenha mudado. A diferença é que não existirão mais músicas novas e nem novas chances de ser processado por ter cometido o crime hediondo de sentar no mesmo banco que um garotinho imberbe sentou há vinte minutos atrás.

De resto, Michael e seu legado continuam, quer os detratores queiram, quer não.

Preciso dizer: estou positivamente surpresa com a reação das pessoas; só tive que ler UM comentário do nível de "menos um pedófilo no mundo". Só não entendo o que motiva alguém a mandar dois ou três tweets consecutivos reclamando de que "ninguém mais fala de outra coisa na internet". Para esses, eu tenho uma mensagenzinha singela: A INTERNET É OPCIONAL. Surprise surprise, você *não* precisa dela para respirar! Faz assim: rolou um evento ou comoção que não lhe interessa e a sua lista no Twitter/Facebook/MSN e similares se entregou a um chat coletivo sobre o assunto? Desligue o micro e vá tomar um sorvete, ler um livro, brincar com seu filho, fazer a barba, estudar, lavar um tanque de roupas. Essas coisas que você reclama de nunca ter tempo pra fazer, mas que só não faz porque passa o dia com a cara enfiada num monitor e dedando o teclado. Então, aproveite que "aiii, a internet tá um saco, hoje!", deixe as pessoas se manifestarem/desabafarem/comemorarem em paz e vá procurar o que fazer.

Sabe, eu não tenho saco pra quase nenhum tipo de evento esportivo. Se não morreu ninguém no jogo ou disputa, eu pouco me fodo. Então, quando é dia de jogo do Patropi e o pessoal resolve que seria muito legal narrar a partida chute a chute eu simplesmente dou um power off na internet e vou dormir. Simples assim, mas parece que os chatos, além de chatos, são também burros. Fazer o quê.

Michael, Michael. Por que empacotaste?? Eras novo, tinhas saúde. Estavas em relativa boa forma para vosso meio século, até onde saiba não fumavas ou bebias. Como o teu coração de repente decidiu que já era hora de encontrar Jeová em Neverland? Depois de uma infância de merda, de apanhar tão severamente de mãos de que você, por direito, só poderia ter recebido carinho e proteção, de ter tido sua juventude explorada em benefício alheio, acusado do pior dos crimes por pais tão ganaciosos e cruéis como foram os seus próprios, de ter sido exposto ao cruel julgamento popular e ter passado a vida inteira sob o escrutínio de pessoas que nunca chegaram a conhecê-lo. Não sei se foi uma vida feliz, mas não tenho dúvidas de que foi uma vida marcante. E necessária. E inspiradora.



Anos 80 e aquela chamada no Show da Vida global para o vídeo daquele rapaz negro de "apenas 25 anos" (mas cara de 18) que estava "fazendo o maior sucesso nos Estados Unidos". Na verdade ele já vinha fazendo sucesso há quase 15 anos, mas sabe como as coisas demoravam pra chegar no Brasil naquela época, né? Quase ninguém pelas bandas dos trópicos conhecia o moleque, mas a apresentação do vídeo de "Billie Jean" (devidamente mutilado para caber no espaço alocado pelo Padrão Globo de Qualidade) causou tamanha impressão que, dia seguinte, hordas de crianças ocupavam calçadas de subúrbio para imitar cada passo e promover concursos de dança. Basicamente, não se falou mais de outra coisa; pelo menos não até que o mesmo Fantástico resolveu "lançar" a Madonna com o vídeo de "Papa Don't Preach" (que eu não posso linkar porque, adivinhe, a gravadora limou todos os que haviam no YouTube).

Lembro da primeira vez que assisti ao vídeo de Thriller. Sozinha em casa, e minha casa era meio sinistra e ficava num lugar não menos. Seis e meia da tarde (eu nem consegui esquecer o horário). O medo foi tão grande que eu acendi todas as luzes, liguei o rádio no último volume e passei mais ou menos uma hora (até meus pais voltarem) pulando e gritando para tentar convencer o meu cérebro de que eu não estava sozinha. Uma criança não esquece uma experiência dessas. Eu nunca esqueci.



Então eu ia fazer um "Top 5 MJ vídeos", mas me dei conta de que talvez precisasse dividir o paradão em duas partes. Porque certos vídeos do Michael valem pelo que representaram em termos históricos e musicais, e outros pela produção e tecnologia envolvidas e o espétaculo que proporcionaram. Acho que somente um marca ponto nas duas categorias, e não apenas por isso ele é o primeiro da minha lista. E aí vai ela (com os runner ups que estariam num Top 10):

Runner-ups:
Remember the Time - O mundo pirando em Black or White, e eu acho o vídeo de "Remember the Time" bem mais cool. Talvez pelo fato de eu ter achado o Macaulay Culkin bancando o roqueiro poser mimado e depois o guetto nigga infantil profundamente irritante. E aqueles efeitos especiais de face morph no final do vídeo cansaram rápido. Prefiro o Michael pagando de amante de rainha egípcia (a lindíssima modelo Iman, mulher de David Bowie) e deixando Eddie Murphy pra lá de puto e afim de decapitar geral. Sem falar nas dancinhas, no Magic Johnson, nos belos cenários e figurinos, no gatinho adorável e a música que é ótima. E momento confessionário: eu cobiço o cabelo do Michael nesse vídeo.

Liberian Girl - Esse deve ter sido o vídeo com maior número de celebridades presentes na história. Adoro quando a Whoopi Goldberg pergunta, "mas quem está dirigindo esse vídeo?" e aparece a cadeirinha de diretor com o nome do Spielberg, trazendo o próprio sentado nela. O mote da coisa é que geral teria sido convidado a gravar um vídeo musical com MJ, e então estão todos lá, lendo script, preparando figurino, maquiagem, e ao mesmo tempo se perguntando, "onde está Michael Jackson?". E eis que ele aparece no final, câmera na mão, depois de ter gravado todo mundo e anuncia que o "vídeo" estava pronto. Se isso fosse vida real, acho que teria rolado um espancamento coletivo.

Don't Stop Till You Get enough - Observem como ele era bonito antes de pirar loko no bisturi. Claro que o nariz já havia entrado na faca por essa época, mas todos nós seremos unânimes em afirmar: ele devia ter parado por aí. Enfim, não importa. O que importa: perceber como apenas a presença, a voz e o carisma de alguém consegue transformar um vídeo rudimentar num clássico. Nada além de um chroma key tosco ao fundo, aquele trecho musical que serviu de vinheta para tantos "programas de videoclip" dos anos 80 e Michael dançando (ok, às vezes mais de um). E isso basta.

The Top 5:
5 - They Don't Care About Us - "máicou, máicou, eles não ligam pra gente!!". Erm. Não sei de quem foi a idéia de incluir essa "introdução", mas o fato é que o vídeo é lindo. Há uma outra versão, gravada numa cadeia, com mensagem de abertura paternalista e takes de tragédias mundiais. Prefiro bem mais a versão da favela. Não tem nada a ver com o fato de ter sido gravada no Brasil, e tudo a ver com o Olodum. As cores são incríveis, as cenas de rua ficaram lindas (morry com geral siacabando de dançar na laje), Michael esta à vontade com o povão (a parte em que a moça o agarra e eles dançam juntos é ótima, assim como a que ele imita os passinhos das crianças do Olodum) e o vídeo inteiro pulsa com cor, ritmo e vida. Quase dá pra sentir o cheiro. Lindo.

4 - Beat It - O vídeo faz com que briga de gangues pareça uma coisa cool, apesar da mensagem pacífica. A maioria dos participantes foram escalados entre gangues de rua reais. Michael deve ter curtido o resultado, porque obviamente se inspirou nele para o vídeo de Bad (cuja coreografia está muito "branca" e mainstream; além disso, MJ estava de "nariz novo" again e queria mostrá-lo; daí os intermináveis - e chatos - closes). "Beat It" é um pop com cara de rock, como não nega o solo de guitarra de Eddie Van Halen. Coreografia clássica e repetida em calçadas de subúrbio por meninos e meninas para quem Michael era provavelmente o primeiro ídolo. E você também queria aquela jaqueta vermelha. Não negue.

3 - Smooth Criminal - Michael bancando o badass de novo, dessa vez vestido de malandro da Lapa. Originalmente parte do filme Moonwalker, esse trecho é um dos meus vídeos preferidos do MJ. Adoro a música, a coreografia, o cenário, a iluminação... Tem aquela parte bizarra lá pela metade, com geral se contorcendo e uivando, como se estivessem possuídos ou no meio de uma orgia e o vídeo meio que "perde a mão". Mas logo em seguida Michael retoma o leme, entra a cena onde ele faz aquela inclinação louca (há uma explicação para ela, mas isso não a torna menos impressionante) e a parte fofa com as criancinhas. No fim, vira um tiroteio em baile funk. ALL LEVELS OF AWESOME PPLS.

2 - Billie Jean - Pena que a qualidade do vídeo esteja uma bosta, mas a música em si é absolutamente icônica. Segundo reza a lenda, teria sido inspirada numa "experiência real na vida de Michael" (aham), além de ter sido o primeiro vídeo de um artista negro a ser apresentado pela MTV (que achava que "música negra não era rock'n'roll o bastante"... wtf?). A emissora foi forçada a rodar o vídeo sob ameaça de ver a sua atitude racista estampada nos jornais; ironicamente, o fato de tê-lo exibido serviu para popularizar a MTV, até então um canal mais alternativo. A linha de baixo característica e a sonoridade única, contagiosa, definem a música. Segundo o próprio Michael era uma das suas preferidas ao vivo; e foi nessa apresentação (comemorando os 25 anos da Motown) que ele mostrou pela primeira vez ao mundo o famoso "moonwalking", treinado na cozinha de casa.

1- Thriller - Versão completíssima, desde a declaração do artista, Testemunha de Jeová, se isentando de culpa por estrelar um vídeo sobre "ocultismo", até os créditos finais. Você leu direito: créditos. Como se fosse um filme de verdade. E É um filme de verdade. É melhor do que muitos "filmes de verdade". A voz cavernosa do Vincent Price narrando a carnificina que haverá de se seguir? O filminho inicial que você pensa já ser o vídeo, só para se surpreender com o vídeo propriamente dito logo em seguida? A transformação do Michael em lobisomem? Os maravilhosos zumbis soltando pedaços pelo caminho? Os maravilhosos zumbis dançando com Michael? Os berros da heroína quando ela realiza que vai virar marmita de morto-vivo? A risadinha maléfica no final, que viverá para sempre no inconsciente coletivo? Nunca houve, nem haverá, um vídeo musical como esse. Engula a verdade, ó fã de Britney Spears.

Mas no fim, foi um começo muito brilhante para terminar de forma tão... comum e até mesmo patética.


Hoje ouvi alguém reclamar que ontem, enquanto o ícone de pelo menos duas gerações e influência musical absoluta se retirava do palco em definitivo, a MTV (aquela mesma, que não veiculava "música de preto"), ao invés de montar pelo menos um simples especial de vídeos, exibia um programa chamado "16 Anos e Grávida".

É isso aí, galera. O pop acabou.
O último a sair pendure a luva de prata atrás da porta.



porque você não é nin-guém na noite se não apareceu nos Simpsons.