enterrando o assunto.

Ontem levei alguns foras e alfinetadas no Twitter por conta de alguns comentários sobre o funeral-show do Michael Jackson. Que alguns fãs na minha lista consideraram "insensíveis" e "fora de hora". Eu poderia ter respondido que insensível e fora de hora foi o decote da ex-cantora (que voz, ou melhor, falta de voz foi aquela?) Mariah Carey em um velório de corpo presente, mas calei-me.

Em primeiro lugar, me desculpo com quem tenha se ofendido com as minhas observações de que Prince Michael mascava chicletes que pareciam ser de Mogadon, dada a expressão de sono e tédio na cara do menino (depois do discurso da Brooke Shields, eu acho que entendo). E de que a interpretação de "Smile" por Jermaine Jackson ficou meio aquém do esperado; ele saiu do tom algumas vezes e, como essa música é muito significativa para mim, fiquei desapontada (mas ok, vou creditar à emoção do momento). E de que não curti ver todos os irmãos usando aquela luvinha de prata; pode ter sido encarado como singela homenagem familiar para muitos, para mim pareceu uma usurpação cafona de um objeto icônico (luvas de paetê prateadas sendo vendidas nos camelôs da Rua da Alfândega em 3, 2, 1...).

Cada um percebe as coisas de formas diferentes e desculpaí se a minha percepção foi meio atípica e dissonante da maioria. Juro que não fiz para desrespeitar a memória do falecido. Cuja carreira, aliás, eu acompanho há bem mais tempo do que muitos adolescentes que estavam ali se debulhando em lágrimas ensaiadas e patrulhando opiniões alheias.


Ponto alto mesmo? Um Stevie Wonder emocionado cantando (e atente para o título) "Never Dreamed You'd Leave in Summer".

"I never dreamed you'd leave in summer
I thought you would go then come back home
I thought the cold would leave by summer
But my quiet nights will be spent alone"

Quase capotei.

Ontem também finalmente abundaram comentários do tipo "já vai tarde, pedófilo", tanto no Twitter como em blogs de pessoas que eu admirava pela inteligência e por não se bandearem facilmente para as trincheiras do politicamente correto. Eu procuro não descartar pessoas apenas por terem idéias diferentes das minhas, mas a verdade é que não tenho interesse em conviver (ainda que virtualmente) com quem se aproveita da desgraça alheia para subir num palquinho e proferir julgamentos que só servem para fazê-los se sentir moralmente superiores. Esse é o tipo de pessoa que, em qualquer polêmica, sempre se mantém no lado "seguro" do senso comum e coletivo. OK, alguém importante disse que Michael apalpa criancinhas; então deve ser verdade e vamos queimá-lo na fogueira dos pedófilos. E depois ir tomar um suco de laranja e nos auto-congratular por sermos tão justos e estarmos do lado do bem.

Sendo que, nesse caso, o "lado do bem" são pais que acham absolutamente natural receber uma quantia obscena de dinheiro para "esquecer" que um monstro teria violado seu filho. Eu sinceramente não conheço pais que aceitariam fazer essa troca. Não conheço pais que desistiriam tão facilmente de buscar justiça para seus filhos, que abdicariam do dever de pôr um pedófilo praticante na cadeia, que deixariam à solta um homem que enche sua casa de crianças para em seguida abusar delas. Não acredito em pais que, sofrendo o trauma de ter um filho abusado sexualmente, não se importariam em ver a história se repetir com outras crianças. Para mim não faz sentido.

A menos que esses pais também não acreditassem na história que estavam contando. Aí faz todo o sentido do mundo se aproveitar de alguém com um histórico repleto de comportamentos bizarros, sexualidade dúbia e traumas de infância. Um alvo tentador demais. Chutar um cachorro morto até que os golpes exibissem entranhas feitas de ouro. Como não se aproveitar disso?? Já que você PERMITIU e incentivou que seu filho pernoitasse na companhia de um homem notoriamente desequilibrado porém milionário, por que não descer mais um degrauzinho só na escadaria moral e faturar milhões o bastante para lavar a sua reputação com água sanitária e champanhe Cristal, enquanto a do acusado chafurda na lama? Nada mais justo. Quem mandou ser rico, ingênuo e descuidado? Quem mandou não contar com a ganância alheia? Quem mandou não ter tido infância e tentar recuperá-la depois de adulto fazendo festas do pijama com pré-adolescentes?? Ele que se dane.

A única verdade na qual acredito: sem provas não há como sustentar uma acusação. Com provas, a américa puritana jamais deixaria um pedófilo à solta, independente do sobrenome que tivesse. Eu não estava naquele quarto, nem você. Não me incluo entre as pessoas que podem afirmar com certeza o que aconteceu e não acho sensato julgar e condenar. O que eu acho sensato? O benefício da dúvida. Nem pôr as mãos na fogueira pelo acusado, nem usá-las para empurrá-lo nela. Ontem, por exemplo, usei as minhas para comer pipoca enquanto assistia ao funeral. Aposto que alguém deve ter achado desrespeitoso também, mas a minha infância se traduz em assistir vídeos do Michael Jackson comendo pipoca. Eu estava me despedindo das duas coisas; o músico e parte da infância (a pipoca continua, grata).

"This is it". As cortinas desceram, fim de uma era e a polêmica já é last season, baby. O que ele fez ou deixou de fazer foi enterrado (ou cremado, empalhado, etc) com ele. Menos a Música. Porque essa, nós sabemos, está acima e independe de qualquer outra coisa.


rest (finally) in peace, Captain EO.
thanks for everything.