em 2016.

Estava assistindo aos vídeos sobre os planos cariocas para as Olimpíadas de 2016 no YouTube. Tudo muito lindo e organizado nas tomadas aéreas (onde eles sabidamente evitam as favelas). Visto de cima, sem a presença inconveniente e intimidante de meninos de rua, mendigos, lixões e balas perdidas, o Rio se parece com algumas cidades européias; bonito, seguro, eficiente e asséptico.

Infelizmente, não sei se isso é o bastante para que eu me anime. O público que costuma frequentar em massa esse tipo de evento tende a ser europeu ou norte americano. Ou seja, regra geral (e guardadas as exceções que confirmam a regra), chato. O tipo de chato para quem tudo é "chocante". Um papel jogado no chão = OHMYGOD a cidade é IMUNDA. Um pretinho pedindo dinheiro no sinal = OHMYGOD pobreza! Me senti intimidado!! Imagine se algum deles dá o azar de ser assaltado (bem provável, dada a mania de sair por aí fantasiado de turista e carregando bens duráveis pendurados pelo corpo)? Me lembram um pouco certos paulistas que simplesmente NÃO PODEM ler um texto na internet exaltando o Rio sem se sentirem compelidos a deixar comentários no nível de "Sim, mas e a violência?! O estado vive em guerra civil!!" ou "O Rio só serve para produzir favelas e funk carioca!", yadda, yadda, yadda, zzzz. (por favoooor, gosto de Sampaulo e a-do-ro paulistas, não estou generalizando; quem é cuzão, sabe) A esses, um toque: qualquer crítica tem mais chances de ser levada a sério se não soar recalcada.



(photo by Claudio Lara)

Mais chatos que os turistas apavorados, só mesmo os brasileiros que passaram a vida imersos nessa realidade e, depois de um ou dois anos fora, voltam com o mesmo discurso gringo. Não é o meu caso. Impossível não se acostumar à sensação de segurança que tenho aqui mas, quando no Rio, continuo abusando da hospitalidade de mamãe na Baixada Fluminense (!!) e saindo sozinha para todo canto, como sempre fiz. Podia me sacrificar e pagar um aluguel de temporada num cubículo em Copacabana, daqueles em que você precisa dividir o espaço na cama com o fogão e fazer xixi na pia? Até podia. Mas prefiro viver como sempre vivi e gastar o dinheiro com cerveja, thanks. (E depois, algumas áreas da Zona Sul são bem mais violentas do que algumas áreas da Baixada Fluminense)

Gringos, entretanto, não têm a minha experiência prévia. Não foram expostos à merda desde cedo e, por isso, estranham o cheiro. Traumatizam. Saem dizendo que a cidade é um inferno e prejudicam o turismo. Em geral eu não dou a mínima para a tal "imagem do Brasil no exterior". Acho mesmo que o Brasil e o Rio não andam fazendo por merecer mais turistas porque é verdade que as metrópoles são desnecessariamente sujas, a sinalização nas estradas é deficiente, o trânsito é caótico, os nativos exploram os estrangeiros e a violência é uma realidade com a qual muitas pessoas não estão a fim de lidar em troca de uma praia e um copo de caipirinha. Vamos pra Ibiza que é mais segura, todos falam inglês (ou tentam), não tem gente pobre nas ruas e cujos barmen fazem caipirinhas ainda melhores e mais baratas, né? É. Sinceramente? Se eu fosse estrangeira e sem laços com o país, talvez pensasse duas vezes antes de vir ao Brasil pagar o triplo do valor normal numa corrida de táxi e ainda ser chamada de otária por isso.



(photo by Prill)

Ao contrário do que muita gente pensa, nem todo mundo sai do Brasil encantado pelas belezas tropicais. Muitos saem assustados, irritados e dificilmente pensando em voltar ou recomendar o destino aos amigos. A viagem é longa, o vôo é caro, o calor é intenso, a segurança é relativa, os preços nas lojas e restaurantes são absurdos. Não me admira que essa gente acabe indo pra Paris, que é uma cidade absurdamente bonita, eficiente, programada para explorar seus próprios clichês e deliciar os sentidos, porém fria e quase opressiva em sua imponência. Eu acho mesmo o Rio lindo, mas é uma beleza humana, imperfeita. E, acima da beleza "física", que é óbvia e todo mundo conhece, há essa beleza espiritual, esse estilo de vida e joie de vivre que, aí sim, cidade nenhuma no mundo tem igual.

Enfim, o assunto é cheio de nuances conflitantes e não estou a fim de ser conclusiva (nem poderia). Às vezes acho que, para gostar do Rio (como um todo, não apenas a tríade zona-sul + praia + aeroporto... convenhamos, é fácil amar o "Rio pra Turista", né?), é preciso ter vindo de fábrica com um opcional chamado alma de carioca. Independente do lugar onde se nasceu.



(photo by Iko)

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