Misantropias e Anti-socialidades

Uma das minhas alegrias de estimação nesse lugar é lidar com vendedoras e atendentes grosseiras. Em lojas de departamento eu instintivamente procuro a senhorinha de meia idade, que geralmente vai me atender com um sorriso, bater um papinho enquanto tenta desencalhar seus produtos, elogiar o formato da minha boca (e tentar me vender um batom no processo), reclamar que a filha adolescente usa muita maquiagem nos olhos, perguntar se eu sou turista e me presentear com amostrinhas. Evito até à morte as vendedoras mais jovens, especialmente as do leste europeu. São fáceis de reconhecer pelos traços eslavos e pela expressão cansada, entediada e/ou embrutecida. O sotaque é áspero e, mesmo quando estão fazendo uma pergunta simples como "posso ajudar?" soam agressivas e irritadas. A última simplesmente se materializou na minha frente, se interpondo entre a minha pessoa e o produto que eu estava examinando, e disparou um "você quer alguma ajuda afinal ou está só olhando?". Like, bitch has no money, get the fuck off my face and stop wasting my time.

Resumindo, insuportáveis. Não sou só eu que reclamo, e honestamente não sei por que as lojas contratam essas garotas. Ela são desagradáveis e não sorriem nunca - a menos que, por algum motivo, achem que você tenha MUITO DINHEIRO e a comissão proveniente do seu shopping descontrol vá cobrir um mês de aluguel do quartinho que elas dividem com outras cinco conterrâneas periguetes. Bem, eu sou uma pessoa marrom e tenho cara de pobre. Posso contar quantas vezes a tcheca de crachá no balcão de maquiagem da Guerlain me sorriu dentro da Selfridges nos dedos da mão: basta fechar a mão. As inglesas, pelo menos, são naturalmente hipócritas. Prefiro um sorriso falso e uma puxação de saco interesseira do que ser praticamente expulsa de um balcão pelo crime de estar olhando um produto que eu tinha toda a intenção de adquirir.



Se bem que a última historinha pitoresca que eu tenho para contar foi protagonizada por uma garçonete num pub, e ela era inglesa. A serviçal conseguiu a proeza de me ignorar completamente durante as duas horas em que fiquei sentada cozinhando sob o sol do beer garden, enquanto ela batia altos papos sorridentes com o Respectivo. Meu prato foi praticamente jogado no meu colo e, cada vez que ela punha uma garrafa de cidra de pêra na minha frente, o estrondo resultante provocava um mini-terremoto em alguma ilha remota do oceano pacífico. Eu olhava para a cara fechadíssima da moça e esperava por um pedido de desculpas - que nunca veio. Ao invés disso ela abria um sorriso para o meu marido e perguntava se ele estava gostando da comida.

O que mais me surpreende nessas horas é que eu sou a pessoa mais_simpática_ever com serviçais. Já estive no lugar deles (não servindo mesas, mas em outras funções similares) e sei que a atitude do freguês pode estragar a sua semana. Sorrio sempre, agradeço sempre, me despeço sempre - o verdadeiro arquétipo da nouveau riche com complexo de culpa. Dessa vez não foi exceção; tratei a moça como se fosse uma amiga, e não a pessoa que ia levar meu prato com restos de comida para a cozinha quando eu fosse embora. Enfim, eu podia ter me irritado. Mas o fato é que, dali a pouco, era EU quem entraria num Mercedes para ir tomar sorvete na praia enquanto ELA ia continuar servindo mesas num raro domingo ensolarado de primavera. E calçando Crocs verdes. Assim sendo, pus os pés para cima, pedi mais uma cidra e perdão aos desabrigados pelos terremotos.



Le Pub:



Le Cidra:



Le Burger (será que ela cuspiu nele? esfregou os talheres nos fundilhos? nunca saberei e é melhor assim):



Les Moules a la creme:



Le Beach:



e Les Swings (porque nós temos 10 anos e expulsamos as outras crianças dos balanços, tee-hee):


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