last days and first impressions.






























Uns aqui, outros lá. Todos meus.

Chegamos da Escócia. Muito cansaço e a sensação de que eu teria aproveitado melhor esses cinco dias se tivesse ficado em Londres.

E outro vulcão na Islândia. Outra promessa de caos aéreo. Alguém, por favor, providencie uma rolha gigante.

adaptações.

A gata vomitou no tapete de entrada depois de ter comido grama no jardim. A casa pode se considerar batizada.





Um dos pequenos percalços de morar em Londres é ter que reciclar lixo. Dane-se minhas credenciais ecológicas; acho um saco ter que categorizar cada coisa que descarto. E devo me considerar com sorte porque esta área em particular não é muito xiita e nem será necessário (por enquanto...) separar os envelopes com e sem “janelinha”, ou papelão com e sem aquele filme plástico finíssimo por cima (é sério, isso). Em Jersey só separávamos o vidro do resto do lixo.

Aqui reciclamos garrafas plásticas (somente garrafas - potinhos de iogurte e outros tipos, não), latinhas de alumínio, garrafas/potes de vidro (somente estes; vidro quebrado, não), papel e papelão (incluindo papel cartão, caixas de cereais, etc). Todos esses devem vir separados do resto do lixo - e às vezes é difícil saber o que é o “resto” do lixo. O problema é que deveria haver uma caixa de reciclagem, que é fornecida pela prefeitura, nesta casa. Ainda não a encontrei e terça de manhã foi dia de coleta. Ou seja, vai ficar tudo pra semana que vem.

A cozinha é pequena (na verdade o espaço é que foi mal aproveitado) e ter que achar lugar no chão para separar lixo por categoria vai ser um desafio. Oh well. Pequeno preço a se pagar pra poder fazer as compras de mês no Tesco Extra e encher a casa de Ikea, eu suponho.



Inventei isso aí para ocupar o espaço em cima de uma cômoda no quarto que vai tentar, por algum tempo, substituir o meu amado sótão. Preciso de um rádio/cd player mais bonitinho, não?

Comprei uma ciabatta no Waitrose e achei um tantinho ressecada, mas ainda assim melhor do que outras ciabattas que já provei. Também do Waitrose veio esse bolo de banana com cobertura cremosa e açucarada de maracujá (os pedacinhos de semente crocantes são um plus) que eu adorei. O chá é de morango & manga da Twinings, e esse foi o meu café da manhã. :)

Comprei quase nada em termos de comida para essa minha primeira semana. Duas latas de sopa da Baxters, duas latas de spaghetti à bolonhesa (é, eu sei…), a ciabatta, fatias de galinha assada (caras, cerca de 80p cada), duas refeições de microondas que vão ao forno e que eu certamente não vou preparar, um barril de coca cola, biscoitos TUC e um potinho de Boursin. Não estou animada a usar forno/fogão, porque não estou bem certa de que estejam funcionando corretamente e prefiro passar meus primeiros dias aqui sem traumas. Estou com nojinho de usar as panelas. Estou com nojinho de usar os pratos, copos e talheres da casa. Mais ainda depois que puxei uma colher de pau de dentro do pote de utensílios e ela estava coberta por uma camada grossa de comida ressecada, sabe-se lá há quantos meses. Ew.




O "jardim" desta casa é um paraíso de insetos voadores minúsculos, cuja classificação ainda não consegui descobrir (torço muito para que não sejam mosquitos). Me sento no estúdio à tarde e, pela janela que dá para os fundos, fico observando a dança dos pequenos sob aquela luz mágica vespertina, excelente para fotos. Gosto de pensar que são pequenas fadas retornando para suas casas nas árvores depois de um dia de trabalho na floresta.







Meio bagunçado ainda, e bastante caótico. Mas foi o que deu pra fazer em três dias - incluindo duas longas visitas à Ikea, porque praticamente nenhum desses móveis veio de Jersey (exceto a cadeira e a cômoda grande). Ainda vão entrar mais prateleiras na parede porque muita coisa não coube no quarto. Minha caminha, por exemplo, nem pôde pensar em vir. Ficou do outro lado da poça e só virá com a mudança grande, quando finalmente tivermos um endereço definitivo.



Chamei de "jardim" entre aspas porque não há uma única flor plantada aqui. Ok que a casa é de aluguel, mas o jardim nos foi entregue em estado lastimável. Não há grama propriamente, e sim um matagal baixo navegado com prudência pela Chantilly. Plantas mortas (ou à beira da falecência), arbustos crescendo desordenadamente, restos de hera ressecada subindo pelas paredes, alguns punhados de urtiga - e devido à posição da casa, sol que é bom, muito pouco.

Mas tirei os últimos galhinhos floridos dessa plantinha amarela aí embaixo para decorar meu vaso (na verdade um copo inexplicavelmente caro comprado na Ikea), já que não deu tempo de ir à loja de plantas.



E acabei de perceber que o aspirador de pó da casa ou não funciona ou está com a “bolsa” cheia. Não há palavras no léxico para descrever o quanto detesto ter que limpar bolsa de aspirador de pó. Mas isso ainda seria melhor do que ter que comprar outro (quando acabei de comprar um em Jersey…) ou esperar até a próxima vez que Respectivo atravesse o canal de carro para trazer o nosso.

O carpete está sujo. O leite estragou. Acho que vai chover. Estou com saudade dos meus gerânios. Me pergunto o que a Maluca estará fazendo a essa hora. Não consigo achar a chave da garagem. Tenho medo que uma raposa jante a Chantilly. O gato da vizinha fez cocô na minha grama. As janelas desta casa são pequenas e os cômodos um tanto escuros.

Oh well. Pelo menos não falta vista verde pelas janelas. E sem a sensação de isolamento, não me sinto mais como se o resto do mundo fosse uma espécie de festa incrível e gigantesca para a qual eu não havia sido convidada. Agora estou aqui, olhando para o convite e preferindo abstrair, ligar a chaleira e pôr no prato a última fatia de bolo.


shedding skins

Na última noite como residente em Jersey fiz algo que há tempos não fazia - molhar meus pés no mar. Observei a maré subir na minha praia preferida (pequena, pitoresca, um mix de areia e pedrinhas frequentado quase que exclusivamente por gaivotas e patos) e me cobrir os pés, e depois os tornozelos, e depois quase até os joelhos enquanto um sentimento inexplicável de gratidão aliviava a sensação de nostalgia antecipada.

Na última manhã, enquanto eu procurava desesperadamente por mais caixas para abrigar o resto do mundo que estava transportando para o outro lado do canal, a porta azul aberta trazia para dentro da casa o canto dos pássaros, o zumbido dos insetos, o cheiro enjoado do honeysuckle e a primavera através das cores das folhas que acabavam de nascer novamente.

Minha relação com esse lugar foi um mal entendido desde o princípio. Seis anos de clausura no paraíso e agora eu tenho a cara de pau de ir embora sentindo que não me despedi direito. Pieguice de última hora, apego ao conhecido ou simplesmente amor aprendido pelo impacto do silêncio, o contraste entre a natureza quase intocada e a beleza obsessivamente cultivada e condensada em poucos quilômetros, esse vento constante que nunca me deixou sentir calor totalmente nesse lugar estranho, que não é exatamente um país mas não faz parte de nenhum outro. Que não é como nenhum outro.

Vou nos poupar das minhas analogias pseudo poéticas. Vou fechar essa porta, terminar o meu chá e voltar para as caixas.

Asleep.

sing me to sleep
sing me to sleep
i'm tired and i
i want to go to bed





sing me to sleep
and then leave me alone
don't try to wake me in the morning
'cause i will be gone





don't feel bad for me
i want you to know
deep in the cell of my heart
i will feel so glad to go





there is another world
there is a better world



"well, there must be."


St. Saviour's cemetery, Jersey.
Lyrics: Morrissey