Cocoricó

Momentos de diversão no trabalho: certo dia, numa esquina próxima do nosso querido galpão em Bonsucesso, amanheceu um despacho colossal. OITO alguidares (tigelas de barro) cercados de uma infinidade de velas pretas e vermelhas. Dentro de cada alguidar, uma camada caprichada de farofa amarela + pimentas dedo-de-moça inteiras + uma galinha preta com pena e tudo, tudo rodeado de garrafas de cachaça Pitu. Nada contra a liberdade de culto, mas OITO? Não seria SETE o tal número cabalístico?

Raciocinei. Cabalístico o cacete. Puseram oito galinhas mortas porque são oito as pessoas que vão “rodar” e ir bater ponto no além por causa dessa macumba.

O meu raciocínio até podia proceder, mas a prática revelou uma falha: uma das galinhas estava VIVA. Na verdade até quiseram matá-la (o imenso talho em seu pescoço demonstrando claramente a sórdida intenção), porém cagaram o serviço - devia ser fim de expediente no terreiro, sexta feira, geral já com a cabeça no feriadão, eu entendo - e a bicha cacarejava ALTO caída dentro da tigela. E a cada cacarejo o talho no pescoço cuspia sangue. THIS IS GORE, my son. Virou o espetáculo da rua, as criança tudo apostando dinheiro em quanto tempo a agonizante levaria até dar seu último cocoricó e se unir ao papagaio do esquete do Monty Python no céu dos pássaros desencarnados.
O moço da limpeza, que tanto gosta de animais, se apiedou do sofrimento da bicha. Teve coragem de bulir no despacho, recolheu a penosa moribunda e, enquanto todos nós pensávamos que ela seria encaminhada à panela (com o perdão dos orixás, mas desperdício de carne é pecado), ganhou ao invés disso um curativo no pescoço, feito com pano e papa de erva-de-santa-maria. Isso foi na semana passada, e hoje temos uma galinha correndo alegremente de um lado a outro no galpão da empresa, detonando punhados e mais punhados de farelo de milho.

Um dos oito capetas que ia se beneficiar do banquete ficou com fome. Mas a galinha Umbandinha (not my fault) ficou viva para contar (?) a surpreendente história da sua quase morte. E me apraz pensar que um dos oito condenados que iria ganhar passagem sem volta pro inferno por causa daquela macumba, talvez esteja, assim como a galinha, vivo neste dia de hoje.

(post publicado originalmente em 15/10/2003)

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