Where do your kids live?

A mulher subiu as escadas atrás de mim girando o pescoço, olhando para os lados, investigando o ambiente, e eu apontei o cômodo cheio de caixas empilhadas me desculpando pela desordem. “Tá tudo empacotado ainda, mas esse vai ser mesmo o quartinho da bagunça”. Ela apontou para um canto “o que é aquilo?” e eu respondi, já murchando a voz e antevendo problemas: “minha casinha de bonecas” e ela, me olhando com perceptível desdém: “você coleciona essas coisas?” e eu suspirei internamente e respondi que “sim, mas também gosto de brincar com elas, fotografar…” e ela deu uma risadinha irônica cobrindo os dentes com a mão. “Some people NEVER leave childhood!”

Prefiro ter dez anos pra sempre a me transformar numa dessas pessoas que cobrem a boca com a mão quando riem. E que parecem ter orgulho de terem se tornado “adultas” como se houvesse, de fato, alguma grande vantagem nisso. Até porque o hábito de julgar, se preocupar com o julgamentos dos outros, zombar e ser bully tem mais a ver com a adolescência. Ou seja, você não cresceu ainda o tanto que gostaria, dear.

Mulheres em especial têm esse complexo de maturidade poser. A menina mal menstrua e já está doando as bonecas para a irmã mais nova. Se demora a doar, sofre bullying das amigas. Chamam o namorado de “infantil” como se fosse ofensa, riem da coleção de carrinhos/videogames/bonequinhos do He-Man dele, se orgulham de ter um emprego e “não depender de marido” mas continuam subservientes na cozinha, na cama e no quarto dos filhos porque “isso é tarefa para mulher adulta”. Acham graça nas meias coloridas da outra (“nossa, fulana é uma criançona, né? risos”) enquanto seu próprio guarda-roupas vai ficando cada vez mais bege, mais cinza, mais preto, mais “utilitário” e “prático” e os vestidos com estampas coloridas e as camisetas com piadas que não foram jogadas fora na adolescência viram pano de chão.

Com 25 anos (ou menos) começam a pensar em bebês, porque “é coisa de mulher adulta, procriar” e, tendo jogado fora hobbies, paixões e interesses não sobrou mesmo muita coisa com que ocupar o tempo livre. E não percebem a ironia de ter seu universo tão adulto invadido por brinquedos em cores primárias e personagens infantis depois que as crianças nascem. De vez em quando elas encontram subterfúgios para extravassar o lúdico sufocado, comprando maquiagens “edição especial da Hello Kitty” e esmaltes com glitter. Mas tudo isso em nome da aparência, da beleza, que se ocupar de parecer bonita “é dever de mulher adulta”. A mulher adulta só precisa se fingir de boba na hora de esticar a mão no chuveiro e pegar a gilete. Porque adulta sim, mas sem pêlos! Exatamente como as crianças…

Não vejo qual a grande vantagem de ser adulta o tempo todo. A maturidade tem seus prós, mas também seus muitos contras. Adultos se tornam mais cínicos, e não é exatamente comemorando que eu descubro traços desse cinismo se multiplicando em mim. Travo uma luta diária para não encher meu guarda roupas de cardigans marrons, e cada casaco vermelho com botões de coração, cada vestido de bolinha, cada meia calça verde-limão é uma vitoria. Adultos são práticos, precisam ser responsáveis e via de regra não se excitam com muita coisa. Mulheres, por exemplo, costumam se excitar com sapatos. Ok, eu curto sapatos como a maioria das moças, mas eu não os chamaria de excitantes porque eles não me surpreendem. A adulta diz que sapatos são fabulosos porque fazem com que ela se sinta mais bonita, mais magra, mais rica, uma versão melhor dela mesma. E eu penso que crianças estão, geralmente, muito satisfeitas com quem elas são e isso tem que ser uma coisa boa. Quando a gente começa a querer ser outra pessoa é sinal de que nossas falhas estão se tornando aparentes. Estamos crescendo. Crianças não querem ser bonitas, magras ou ricas, crianças querem ser piratas, princesas, robôs, super heroínas, fantasmas, leões… E não precisam de sapato novo pra isso.

Some people, indeed, never leave childhood.
Bless them.

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