A Merry Little Christmas.



Chega essa época e começam a pipocar pelas redes sociais, jornais e revistas aqueles guias sobre “como sobreviver às festividades de fim de ano” e eu me sinto meio excluída da brincadeira porque nunca passei por nenhum perrengue natalino digno de merecer um tutorial de sobrevivência. A minha única preocupação era decidir se valia a pena perder o especial de Natal da Xuxa (sempre uma incerteza, mas o talking point do dia seguinte) para poder assistir alguma reprise de Scrooge (sempre uma garantia de divertimento). Minha única fonte de irritação era a maldita canela que minha mãe insistia em polvilhar sobre as rabanandas. O “chocotone” ainda não tinha sido inventado e, portanto, não corria o risco de chegar à minha mesa - frutas cristalizadas são para os fortes; os losers apelam pro chocolatinho. :)

Por falar em panetone, já tentaram fazer torrada com as fatias? E rabanada de panetone?
Yummo.





Natal = música + comida. ♥ (e ok, televisão)
Nossa família fragmentada (e dividida em facções de idéias violentamente opostas em questões básicas como por exemplo “seria certo roubar dinheiro da gaveta do meu tio?”) quase nunca se reunia nessas ocasiões. E assim sendo eu não tenho no currículo momentos embaraçosos com parentes (cujo nome ou relação sanguínea eu ignorava) me sabatinando quanto ao meu status de relacionamento no facebook (“como assim, ‘it’s complicated’? O Gustavinho, aquele menino tão bom…”) e aquela indireta vaga que eu soltei no twitter em 1989 (“aquilo foi pra mim, né? Você nunca vai admitir, mas tem meu nome inteirinho escrito nas entrelinhas daquela patada!”)

É claro que ajuda bastante o fato de a internete só ter começado a se difundir no Brasil no fim dos anos 90. Eis a minha adolescência (mais ou menos) salva.







Sei lá, não compreendo a dinâmica da coisa. Não entendo o Natal tendo que ser esse eterno “dia da marmota”, populado ano após ano pelo mesmo tio do pavê, pelas mesmas tias indiscretas querendo relatório da vida sexual dos jovens, pelo mesmo pai reaça fazendo discurso contra a pouca vergonha desses travestis, pelo mesmo cunhado bêbado que vai fazer vergonha e vomitar em cima da árvore de natal, pela mesma mãe irritada e estafada por ter organizado tudo sozinha e que vai aproveitar a hora dos brindes para fazer um discurso amargo feito o vinho barato que o pai miserável comprou no Guanabara, pelos mesmos adolescentes que vão passar a noite catando as passas da farofa, dedando violentamente na tela do celular: “ai que saco, todo ano é a mesma coisa”, clicando em “post” e dando reload na página para contar os likes enquanto rezam praquilo tudo acabar logo e sobrar bolinho de bacalhau.

É isso mesmo? Really?
Pra que reunir essa turma? Por que repetir essa tortura anualmente? O conceito de família nuclear (ou seja, só os MAIS CHEGADOS, sabe) é uma coisa tão bonita. Certamente mais bonita do que encher uma sala de pessoas cujos santos não combinam porque a idéia é repetir na vida real aquela mesa para doze pessoas do comercial da Sadia. Mas se você olhar direito, no comercial da Sadia não há dois cunhados que se odeiam trocando farpas cada vez mais afiadas e sangrentas enquanto as respectivas esposas choramingam em cima da salada de batata e põe a culpa numa recém adquirida alergia à cebola.

A vida real não tem roteiro de agência de publicidade premiada.
O Natal não precisa ser assim. War is over if you want it.







Se é tão ruim, por que não se libertar? Se a coisa chegou nesse nível, fugir de casa por uma noite me parece uma saída digna. Ceia coletiva na rua com os amigos, que tal? Cada um traz um McLanche Feliz amanhecido e garrafas de vodka. Qualquer coisa é melhor do que se resignar a aumentar essa coleção de memórias ruins. Pai e mãe depois perdoam e esquecem a rebeldia. Vocês não vão esquecer o trauma.

Criem pelo menos UMA lembrança realmente boa dessa época. Nada mais triste do que ter uma data no calendário destinada a evocar apenas sentimentos ruins. Já basta os inevitáveis, associados à perda de pessoas e bichinhos queridos. Não deixem uma coisa tão desimportante como o Natal se transformar nesse fardo. Ter que comer pelo menos uma fatia do bolo de nozes da tia Ofélia para ela não ficar sem graça já é complicado o bastante.









Há dois anos eu estava no Rio e optei por passar o ano novo sozinha em casa, comendo empadão de frango e tentando achar alguma coisa assistível nos canais da Sky. Na frente do apartamento da minha mãe tem um posto de gasolina Ipiranga e um puteiro. O puteiro estava fechado, é claro. Putas tem família, e seus clientes também. Ou talvez não. À meia noite, enquanto o foguetório amador iluminava os céus da cidade, eu fui para a janela e os frentistas do posto estavam dançando no pátio e se abraçando. Um cliente que havia parado o carro pra abastecer deixou o volume no máximo, fornecendo a trilha sonora da festinha. Até quem não teve folga do trabalho se diverte mais do que quem faz “lista de como sobreviver às festas de fim de ano”. Reflitam, sortudos.







(É eu tenho duas árvores de Natal. Não me julgue. A menor serviu de substituta ano passado quando a grande estava empacotada num galpão esperando a mudança, e não tive coragem de jogá-la fora.)

Tios, tias, avôs, avós, cunhado(a)s: por favor, considerem a possibilidade de serem menos pau no cu em 2013. E nos anos vindouros. Acredite, vocês NÃO precisam saber com quem sua sobrinha está saindo, ou onde seu neto está trabalhando. Não transformem essas conversas de elevador para passar o tempo num relatório de cobranças. Perguntem aos jovens quais seriados eles acharam mais legais em 2013. Perguntem se recomendam algum livro, se têm dicas de aplicativos bacanas para melhorar as fotos. Contem a eles que vocês fizeram conta no Tinder. Elogie o cabelo roxo da afilhada de 15 anos; afinal, essa é a idade perfeita para ter cabelo roxo. Passe receitas para os mais prendados, conte piadas sujas para os mais saidinhos e histórias de quando você conheceu o vovô para os mais românticos. Faça a receita preferida de alguém. Evite dar o seu pitaco sobre atualidades polêmicas se você SABE que não está na mesma onda que os demais. Você não vai mudar a opinião de ninguém e seu discurso raivoso só vai causar indigestão - esse peru seco + farofa não ajudando na causa. Existe tanta coisa melhor para se falar. Que tal, também, aproveitar o dia para mastigar e OUVIR?







Jovens, considerem se aperfeiçoar na arte de escutar sem prestar atenção. É apenas uma pergunta besta sobre o raio da sua namorada. Aquela que você não tem ou aquela que você não quer; DAÍ vem a sua irritação, convenhamos, e não da pergunta em si. Mas imagino que, caso quisesse e tivesse uma, você não teria problemas em falar sobre ela. Muito pelo contrário. Aposto que se tivesse acabado de passar no vestibular adoraria mostrar o recorte do jornal com o seu nome na lista de aprovados. Ou que estaria entusiasmado falando do seu novo trabalho, caso tivesse um. Então não vista a carapuça de loser, not yet. Não se ofenda. É apenas uma tia entediada e curiosa, que por acaso não tem culpa de as coisas não estarem dando muito certo pra você nesse momento - e não o Grinch que acabou de destruir o seu Natal, mimimi, comosufro. É. só. uma. pergunta. Responda (vale mentir, em nome da boa convivência e do encurtamento da prosa; ao invés de reclamar com antecedência no twitter comece a ensair as mentiras perfeitas) e mude de assunto.

Ou de família, caso eles sejam de fato insuportáveis.
O McDonalds abre amanhã. Corra antes que os lanches felizes esgotem.

And have yourself a merry little christmas now. ♥









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