For the price of a cup of tea you’d get a line of coke









































peguei o metrô em stratford e desci em st. john’s wood para admirar o real state (ou seja, as casas). uma moça com cara de rica, rabo de cavalo castanho e leggings preta passeava um french bulldogue e me olhou ressabiada. subi até primrose hill, hipsters falando idiomas eslavos e monopolizando o alto (de onde se tem a melhor vista) enquanto tamborilavam as telas gigantescas dos seus samsungs. meu iphone 4s parecia positivamente antiquado em comparação. a ponta do the shard cintilava no horizonte.

desci, andei até chalk farm, considerei camden mas peguei o 27 para chiswick. passei por um cinema que exibia todos os filmes do oscar + the book thief (que eu ainda não assisti, mas preciso, nem que seja para falar mal - se bem que a crítica já está descascando por mim). comprei livros, inclusive dois pequeninos num antiquário LINDO na high street que me fez ter old books orgasms. 175 libras por uma edição de a cabana do pai tomás, que de tão bonita dava vontade de comer. deixei na prateleira. trouxe um livro babaca de ilustrações + christopher robin storybook (essa uma edição de 1963, cheia de rabiscos infantis e que foi obviamente muito amada) por duas libras cada + outros livros novos. peguei o 27 de novo para notting hill gate, mas desci antes porque queria comprar falafels.

ônibus são legais porque permitem que você veja a cidade, descubra lugares que não conhece e faça planos de voltar. uma pena, porque são muito, MUITO lentos. metrô é rápido e eficiente, uma necessidade em muitos casos, mas jamais me proporcionariam a visão do pequeno cemitério da igreja de st. mary abbots em kensington coberto de crocus desabrochando sob o sol de inverno. a viagem de volta dentro do latão subterrâneo é tediosa e levemente embaraçosa, e por algum motivo eu sempre acabo sentada na frente da única outra pessoa do vagão que não está lendo jornal ou batucando no celular. é desconfortável ficar evitando cruzar olhares ao mesmo tempo sabendo que a pessoa *vai* estar olhando para você quando você estiver olhando para o chão (analisando os sapatos dos outros passageiros), da mesma maneira que você fará com ela.

Mirror on the wall.







selfies taking over the internet. nunca foi tão fácil (e tão bem visto, incentivado até) colocar a sua cara na rede. não que o coro de “nossa, mas que futilidade!” tenha se extinguido - mas acredite, ele já foi muito maior. um celular, um aplicativo com filtros de superexposição que fazem a sua acne (e por consequência, a sua timidez) desaparecer e de repente os seus amigos e inimigos sabem da localização de cada mancha no seu rosto, da profundidade de cada ruga; o que apenas os seus amigos íntimos conheciam virou domínio público. será que um dia vamos todos nos arrepender coletivamente dessa super exposição? será que eles (seja lá quem “eles” forem) vão usá-la contra nós?

minha casa tem muitos espelhos. as janelas são pequenas e eles ajudam a refletir a luz pelos cômodos. com uma ajudinha da tecnologia eles refletem também a minha imagem para além dessas paredes e para outros lugares e olhares sobre os quais eu não tenho o menor controle. not gonna lie, this shit scares me sometimes

can you hear me calling you?

fui para hampstead heath e resolvi entrar naquela manor house no meio do parque, kenwood. o lugar estava relativamente cheio; dentro da casa velhas e velhos com cara de upper middle class, twin sets, pulôvers de cashmere, jaquetas de couro, sapatos de verniz, cachecóis de lã merino, observavam com atenção os quadros na parede - e a mim, de rabo de olho ou abertamente, desrespeitando a regra número um de ser inglês que é não encarar ninguém abertamente. judeus circulavam em pleno sabbath e um grupo de meninas adolescentes tagarelava em volta de um filhote de springer spaniel, o sotaque fino compondo a trilha sonora da tarde. o restaurante estava lotado, mas conseguimos tomar um latte no jardim e depois descer a bishops avenue (vulgarmente conhecida como “avenida dos bilionários”, posto que perdeu há tempos para outros endereços) rindo daquelas casas caríssimas, porém monstruosamente feias.

terminei cedo a noite anterior, cantando mr. brightside meio bêbada num karaokê em camden. a idéia era não passar da minha habitual taça de prosecco vagabundo, mas alguém abriu um sauvignon blanc na mesa e nada mais me lembro, berenice. antes disso fomos buscar pessoas que não tinham carro mas também não estavam, digamos, “em condições” de utilizar transporte público. a casa ficava em east finchley, era uma terraced vitoriana caindo aos pedaços, com sacos de lixo jogados ao lado da porta que pareciam estar ali há séculos e ervas daninhas brotando de cada uma das rachaduras no cimento. um rapaz magrinho com cabelo black power e camiseta superdry abriu a porta justo quando eu estava me preparando pra fazer uma foto das molduras de madeira apodrecida na marquise. a idéia era não entrar, mas dez minutos depois eu estava sentada com uma lata de cerveja na mão numa pilha de lencóis amarrotados em cima de um colchão de casal no chão de um quarto imenso, mas praticamente desprovido de qualquer outra mobília além de um frigobar vermelho, um macbook e malas de viagem tamanho jumbo.

na sala umas cinco pessoas falando no celular ao mesmo tempo e eu fui ficando ansiosa e aquela sensação de algo sufocando dentro de mim e cravando as unhas por dentro da minha pele tentando rasgar e sair e respirar, e eu comuniquei o fato da maneira mais blasé possível e me deram uma cartela de diazepam e se passaram uns bons anos desde a última vez em que uma dessas me caía nas mãos - mas a prudência não me permitiu engolir. peguei outra latinha de fosters pra tentar relaxar e eu odeio fosters. já que estava bebendo mesmo aceitei também um punhado de pringles. fui pra janela tentar respirar um pouco de ar puro, não adiantou, fui ao banheiro e havia uma quantidade assustadora de sacolas de supermercado (cheias de sabe-se lá o quê; me pareceu tecido/roupa) com as alças amarradas dentro da banheira. o banheiro não tinha tranca. alguém sintonizou o rádio na Radio 1. pedi em privado por favor pra ir embora, e aí três pessoas entraram no banco de trás do carro com a gente e eu só pensava em ir pra casa.

porém uma hora depois eu estava comendo lulas recheadas de chorizo + risoto (o arroz, com forte sabor de manteiga, preto por causa da tinta da lula) e depois um peixe cujo nome esqueci envolto em bacon com cuscuz e abóbora e berinjela ao forno. não tive coragem de pedir sobremesa e o café não me ajudou a ficar nem sóbria, nem calma. o serum da boots + exfoliação diária realmente está deixando a minha pele melhor, mas eu vou ter que passar fome por umas duas semanas, no mínimo, porque minhas pernas estão inchando de novo e eu já não tenho mais coragem de pegar a calça jeans no armário. contei e ainda tenho 80 doses de rivotril caso eu me comporte e não comece a usar com frequência, mas pelo andar da carruagem vai ficar cada vez menos provável ficar ok sem química.

março, de fato, está sendo difícil.

me and charles manson like the same ice cream







don't you just hate when a day that had everything to be amazing ends up being a complete car crash?

pessoas vendendo flores na beira da estrada, uma maldita banquinha a cada 100 metros. um carro parado no acostamento com um pneu estourado, portas abertas e cinco caras bêbados dançando ao som de paint in black, dos stones. duas raposas atropeladas. tori amos no meu mp3 player, caught a lite sneeze. uma embalagem de praline sugarless chocolate derretendo na minha bolsa. alguém com dor de dente. um acidente de moto perto de billericay. nenhum morto. céu alternando nuvens com nesgas de sol, na maior das más vontades. english breakfast num café que tentou sem sucesso uma decoração criativa - as mesas forradas com union flags e os olhos azuis muito claros do menino bonito que veio anotar meu pedido tinham cara de partido nacionalista. acabei confusa: “você poderia me trazer café ao invés de café?” e o menino bonito sorriu e respondeu “sim, eu posso trazer café ao invés de chá“ e eu afundei na cadeira. o café era ok, embora tenha vindo com leite sendo que eu não pedi leite. os tomates eram em lata - gostosos, mas cheios de açúcar. bacon e os ovos ok, mas as salsichas eram desprezíveis; por 6,95 eu esperava salsichas de verdade, não rolinhos de farinha.

fomos multados porque o bilhete de estacionamento virou de cabeça pra baixo com o vento quando fechamos a porta do carro e não dava para ver a data. na b&q enquanto eu procurava tintas uma onda de frustração com a falta de cooperação, energia, entusiasmo, vontade de viver das pessoas me bateu e quase me afoga. uma sensação de impotência, de desistência, de desesperança, de who gives any fuck to any of this and why am i pretending to. escapei e fui andar na cidade, sem bolsa e só pus no bolso do casaco celular, chave, cartão de crédito e o mp3 player, que ainda tocava tori amos. tear in your hand. maybe she’s just pieces of me you’ve never seen. as lojas já fechando, bairro estúpido. as ruas cheias de gente horrível, ainda mais horríveis que durante a semana - devem sair do esconderijo aos sábados e domingos. agradeci pelo mp3 player; eu podia ter que olhar para elas mas pelo menos não tinha que ouvi-las. comprei coisas desnecessárias (revistas, livro) e necessárias (macarrão low carb, um gaveteiro de acrílico). não achei um único café aberto onde eu pudesse me sentar e passar o tempo ouvindo música e lendo o livro. bairro estúpido. vi um rato morto gigantesco na calçada. carreguei tudo para casa, repassando o dia na cabeça. olhar o mar, ouvir o mar, as gaivotas, me fez ter saudades de jersey. what the fuck am i doing here. what the fuck am i doing.

está difícil, eu sabia que março ia ser difícil mas há dias em que está sendo pior do que o esperado. inferno astral é uma piada, a menos que tenham registrado meu nascimento em janeiro por engano. março sempre é terrível. as cerejeiras e magnólias em flor são lindas, a primavera tem sido gentil com meus olhos, mas é só.

for the times we’ve had I don’t want to be a page in your diary

De vez em quando me encontro perambulando por lugares tão ricos que tenho certeza de que se fuçar as lixeiras vou achar uma Birkin. Ok, não tenho coragem de me enfiar dentro, mas sempre dou uma passada de olhos superficial e em cima de uma delas encontrei esse livro (limpíssimo, aliás… lixo de gente rica é outra coisa):







Não sabia do que se tratava, mas passei a mão e enfiei na bolsa assim mesmo. Parei num café e depois de lavar as mãos com álcool gel fui examinar. A capa, de um azul intenso, é de couro fake com tipografia prateada - mesma cor da lateral das páginas. A introdução dá uma idéia do espírito da coisa:



Querido leitor,

Existem três motivos pelos quais a maioria das pessoas, embora tenha tentado, não consegue manter um diário:

1. Nem todo dia é muito agitado.
2. É preciso bastante disciplina (principalmente em relação ao item 1)
3. Em retrospecto, muitas pessoas consideram o que escreveram embaraçoso.

Você pode usar o Simple Diary:

a) como quiser.
b) quando quiser.
c) onde estiver.
d) de forma aleatória ou em sequência.
e) escrevendo seus pensamentos ou deixando em branco.
f) lendo uma página ou quantas quiser.
g) e deixando de lado por algum tempo.
h) como um assistente para qualquer ocasião na vida.

Espero que você encontre um amigo de verdade, um bom lugar ou alguma sabedoria através desse livro. Isso me faria feliz.

Boa sorte, e obrigada pelo seu tempo. Ele é todo seu.

É uma espécie de diário, só que com prompts criativos para responder e onde você não precisa escrever muito. Cada dia começa com uma questão de múltipla escolha (“como foi o seu dia?” seguida de três alternativas variadas + um breve espaço para explicar o motivo da escolha), perguntas reflexivas, pequenas listas, etc. Uma espécie de “diário para preguiçosos que não têm saco/tempo/talento para manter um”.

A primeira página já havia sido preenchida há quase cinco anos, em caligrafia quase ininteligível, pelo dono original:



Me pergunto o que terá acontecido a essa pessoa. Por que não escreveu mais no diário, por que jogou fora… Se por acaso se arrependeu de ter jogado fora ou se alguém jogou fora por ela. Se ainda está viva, ou se alguém se livrou desse diário por ser uma lembrança dolorosa de alguém que não está mais aqui.

Vou deixá-la como está, como um souvenir do acaso.

Acredito que a idéia não seja usar todos os dias, do contrário o diário acabaria rapidinho; não sei quantas páginas são, mas não são muitas porque são grossas. Depois das duas páginas de experimentação que fiz, vou guardá-lo para dias “especiais” - ou não tão especiais, mas onde eu queira expressar algum sentimento - de forma críptica e para mim mesma. E talvez compartilhe algumas por aqui. :)



O autor, Philipp Keel.

Descobri que existem outras edições do diário, em cores de bala. Como eu sou uma ratazana de papelaria e curti a idéia, já coloquei na minha wishlist. Se alguém quiser me dar um presente barato e muito bem recebido, taí a idéia. ;)