Like a glow worm in a jar



























Meio dia, two brown girls and a white boy pelas ruas de London City, o coração cinza pulsante do centro financeiro. Rapazes de gravata e gel no cabelo esbarrando em loiras high maintenance de terninho e tênis que atravessam a rua ignorando o sinal aberto para os carros. As mechas no cabelo da moça parada em frente à estação segurando um copo de café do Starbucks devem ter custado uma fortuna para parecer tão naturais. Os rapazes andam quase sempre em dupla. “Eles são mórmons?” brinca uma menina; a outra até tenta rir, mas está preocupada porque o céu escurece, vai chover, já está chovendo e ela não trouxe o guarda chuva. As moças andam de mãos dadas, embora uma delas não goste (mas não reclama). O rapaz cantarola uma música antiga, as mãos enfiadas no bolso do sobretudo de onde um fone de ouvido tenta escapar. Uma das meninas é bonita; a outra às vezes gostaria de ser invisível. Ela acredita que está se tornando cada vez mais cinza, mimetizando com a cidade e talvez em alguns anos finalmente atinja seu objetivo.

O sol fraco faz o que pode para atravessar as nuvens ainda pesadas depois de uma chuva breve, mas que trouxe granizo. A luz reflete nos cabelos longos e escuros das meninas e ele faz uma observação qualquer a respeito. Uma delas sorri, a outra finge que não ouviu. Olha para o chão e compara os sapatos, ela tem essa mania esquisita de observar sapatos mesmo não sendo nem de longe uma shoeholic (ou fetichista). A idéia de comprar um par de chelsea boots de camurça preta e sem salto surge no horizonte. E meias novas, porque essas já demonstram as muitas lavagens descuidadas a que foram submetidas.

A maldita chuva, como se revigorada pela pausa, retorna mais forte. O trio busca abrigo dentro de uma filial da Carphone Warehouse às moscas onde fingem examinar celulares e tablets, sendo seguidos em silêncio pelo olhar de meia dúzia de vendedores morrendo em pé de tanto tédio. Quinze minutos e o clima concede outra trégua; os três saem à procura de um lugar para sentar e acham um café em frente a um mercadinho de rua, staff polonês sorridente, onde pegam mesa na calçada e ele pede um flat white. Uma menina pede um caramel latte, a outra pede um americano e suspira em silêncio pelas quiches na vitrine. Em meio à conversa os três descobrem uma improvável admiração coletiva pela obra da Nika Costa.

No ônibus para New Cross há ossos de galinha espalhados pelo chão. O modus operandi da galera local é adentrar o coletivo futucando as caixinhas de frango frito e ir cuspindo os restos. Classy. Na lateral de outro ônibus há um anúncio de delivery de comida indiana chamado “tikka to ride” e o trocadilho é desculpa para risadas e piadas de baixo calão (que seriam reproduzidas nesses parênteses mas a idéia foi descartada). O ônibus percorre ruas estreitas, stop-and-start, stop-and-start, a cada 50 metros mais um restaurante de comida orgânica para os city boys (“cash rich, time poor”) preocupados com a saúde e com a procedência das folhinhas de rúcula. À medida que a cidade fica para trás as entranhas do subúrbio se abrem, as ruas vão ficando mais largas, o trânsito menos denso; o ônibus flui em linha reta. Uma das meninas tem um deja vu nostálgico de uma época onde os ônibus disparavam pelas vias expressas de uma outra cidade onde se podia empurrar o vidro da janela e deixar o vento bater no rosto. Aqui as janelas são enormes, mas não abrem.

Entram num supermercado porque elas precisam de banheiro. No espelho uma das meninas retoca o batom e passa a escova o cabelo, enquanto a outra checa a timeline do Instagram e evita o seu próprio reflexo. Na saída o menino aguarda examinando atentamente um bagulho qualquer na prateleira de papelaria. Uma das meninas vai olhar o que é, a outra aperta o braço dele de leve e sussura “don’t even think about it”. Ele sorri e sai caminhando enquanto joga casualmente o objeto no bolso. Uma das meninas prende a risada; a outra suspira. “Why you never do what I tell you?” ele responde “you are not my boss, lady” e uma das meninas ri e a outra odeia os dois um pouco. Saem do mercado rápido demais, se comportando de maneira vagamente suspeita mas nem eles, nem o segurança-parrudo-clichê de pé na saída se importam. Talvez eles nunca tenham crescido, na verdade; probably never will. Na lista de prioridades, crescer está acima apenas de morrer. Mas graças a eles a cidade assusta um pouco menos a cada dia.

Na volta retornam pelo mesmo mercado de rua, onde encontram um cachorrinho de três pernas saltitando alegremente pela calçada, onde as poças de água da chuva começam a secar mas ainda refletindo nesgas de céu cinza e prédios cinza no chão de cimento cinza. As cores que importam estão em outro lugar. Ele chama o cachorro de “cutest furry tripod”. Uma das meninas ri. A outra também.



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