Throw back thursday: Santa Teresa (2003)























Há onze anos eu peguei a minha câmera digital Kodak Easyshare (DOIS megapixels, wow) e subi a ladeira para Santa Teresa. A tenebrosa onda de violência que viria a assolar o bairro ainda estava distante na linha do tempo e eu não tive muito medo de me levarem a máquina; na verdade fiquei com mais medo de um assalto no ônibus, mas resolvi o problema enfiando a câmera no traseiro - da calça, é claro. Ok, deformou a bunda, mas eu estava sentada e ninguém percebeu.

Mas a primeira vez mesmo que eu fui a Santa Teresa foi de bondinho, extasiada com a experiência de subir aquelas ruas de paralepípedos e pedrinhas portuguesas e me encantando pelos casarios centenários, românticos em seus váriáveis graus de decrepitude. Sentada num dos bancos de madeira do bonde eu tagarelava ao lado da E., uma amiga mais velha que era auxiliar de enfermagem e estava me levando para conhecer o hospital onde trabalhava (e onde na cozinha me deu um copinho de gelatina, roubada da sobremesa dos pacientes). A E. tinha quase 30 e eu era uma criança; pessoas não viam com bons olhos a nossa amizade, mas E. era naturalmente esquisita e ficou ainda mais depois que sofreu um aneurisma. Que foi quase fatal, mas apenas a deixou meio adulta, meio criança - uma combinação irresistível para quem era pequeno de fato; tanto que vários amiguinhos meus também eram amiguinhos dela.

E. tinha bonecas, o favorito sendo um “Feijãozinho” da Estrela que ela chamava de André e para quem minha mãe, a pedidos, costurava roupinhas. Rezava a lenda que E. tinha sofrido um aborto natural durante o seu breve casamento (eu fui à festa, mas eles se separaram pouco tempo depois) e nunca se recuperou da tristeza por ter perdido o bebê. Diziam também que ela “não teria outra chance”, já que o casamento na verdade havia terminado por ela ser lésbica. Isso eu jamais saberei - apesar de ela usar roupas “de menino” e ter uma amizade próxima e conturbada com uma colega de trabalho chamada R.. O que sei é que depois de algum tempo minha mãe me proibiu de ir à casa dela. As mães das outras crianças também vetaram as visitas. O que certamente a deixou muito triste. E a nós também, já que ela nunca fez nada além de miojo com salsicha, deixar que brincássemos com as suas coisas e conversar conosco como se não fôssemos imbecis. Saudades do quarto escuro com paredes de tijolo aparente, do André sentadinho na cama junto das outras bonecas e bichos de pelúcia baratos e dos copos de plástico com refresco colorido em pó. Me pergunto por onde ela anda, se teve filhos, se ainda é amiga da R., se está feliz. Sempre que penso em Santa Teresa (e eu penso em Santa Teresa mais do que gostaria) ela é uma das pessoas de quem me lembro.

Revendo essas imagens eu percebo o quanto fotografava mal. Não que tenha melhorado muito, mas agora eu ao menos considero detalhes como composição e exposição antes de meter o dedo no shutter. Onze anos atrás a idéia não era “fazer bonito” porque eu não pretendia expôr nada - nem em galerias, nem no instagram. Nem mesmo num blog, apesar de eu já ter tido alguns. Eu só queria mesmo poder registrar o momento e dar um jeito de trazê-lo comigo num lugar além da memória, já que a minha nunca foi boa. Onze anos atrás levar histórias na lembrança bastava. Mas hoje nessa curiosa vida 2.0 hipercompartilhada eu estou aqui, jogando essas desimportâncias e fotos ruins ao vento como se elas tivessem valor para mais alguém além de mim.

Às vezes eu me pergunto o que foi que mudou mas logo tiro a pergunta da cabeça, evitando atinar acidentalmente com uma resposta que eu não queira ouvir.

No comments