I’ll tell you my sins and you can sharpen your knife



Vamos brincar de compartimentalizar? Vamos.
Extrovertidos = estímulos externos, comunicação, agitação, gostam de sair, formar laços e de cachorro. Introvertidos = estímulos internos, análise, tranquilidade, gostam de ficar em casa, da própria companhia e de gatos. E quase invariavelmente os extrovertidos vão achar os introvertidos meio esquisitos/doentes, e os introvertidos por sua vez vão achar os extrovertidos meio vazios/irritantes.

Isso é observação e não está escrito em nenhuma pedra. Nem mesmo naquela debaixo de que eu, como boa introvertida, me escondo. Vivo me explicando para extrovertidos, que costumam analisar ao pé da letra tudo o que ouvem. Talvez por não terem tempo de refletir sobre o que acabaram de ouvir porque precisam chegar logo a uma conclusão a fim de “manter a conversa andando”. Perdi as contas de quantas vezes interrompi uma opinião precipitada para perguntar, “eu sei que você OUVIU o que eu disse, mas você ENTENDEU o que eu quis dizer?”

Respira, doido.





Outro dia eu li no jornal sobre um experimento feito com dois grupos de pessoas: um que havia se declarado como “extrovertido” na entrevista e outro que havia se declarado “introvertido”. Depois da entrevista elas eram deixadas individualmente em uma sala e ouviam “você se importa de esperar aqui por 15 minutos?”. Na sala havia uma botão que, quando apertado, fazia com que músicas tocassem e luzes se acendessem. Os introvertidos apertavam o botão uma vez, descobriam o que ele fazia e não apertavam de novo. Os extrovertidos passavam os 15 minutos apertando o botão continuamente. Necessidade de estímulo externo. O introvertido abana a cabeça. “Passaram os 15 minutos em silêncio”, pensa o extrovertido. E abana a cabeça também.





Certa vez eu estava com duas pessoas na casa de uma delas. Enquanto tomávamos cerveja na piscina, o cachorro do dono da casa (um desses raros introvertidos que prefere cachorro a gato, embora ele reclamasse que o bicho era meio “chato” e “carente”) escapa pelo portão que o moço da entrega de gás havia esquecido aberto. Saímos para a rua a procurar o cão. A extrovertida diz, “vamos pedir ajuda para procurar e perguntar às pessoas se elas viram o cachorro”. O introvertido diz, “o cachorro é meu, eu sei exatamente como ele é, não preciso pedir ajuda a ninguém, não complica”. O introvertido assobia e chama pelo cachorro; a extrovertida começa a parar pessoas na rua a fim de conseguir ajuda para procurar e perguntar se elas por acaso viram um cachorrinho marrom. Notei que ela perdia mais tempo procurando gente para procurar o cachorro do que, efetivamente, procurando o cachorro. O introvertido perdia tempo reclamando disso.

Embora o reclamão fosse chato (e nem todo introvertido é chato, juro - embora possamos parecer assim para extrovertidos) eu reconheço que a necessidade da outra de interagir para tudo, de buscar nos outros, mesmo que fossem estranhos, um certo consolo no meio do desespero não ressonava em nada comigo. Ela teria tropeçado no cão que estava procurando, tão focada estava em fazer o mundo inteiro saber que o cão havia sumido. O chato assobiava.





Por fim eu achei o cachorro. Seguro pela coleira, levo portão adentro, fecho o trinco e volto para a rua a fim de anunciar a minha descoberta.

Os dois: “onde ele estava??”
Eu: “não sei, eu estava aqui parada rindo de vocês quando senti alguém lamber o meu dedo.”

Isso descreve de forma mais ou menos precisa a minha personalidade.



(fotos em Battersea Park / Albert Bridge / Chelsea Embankment, iphone)

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