A brief eulogy.

Liguei pra velha ontem e fiquei sabendo que a dona Elzir morreu. Enterrada no dia do meu aniversário, aparentemente; minha mãe não tem certeza. Enfim. Não fiquei exatamente chocada porque era esperado. Há anos ela mal levantava da cama, se locomovia com dificuldade (e raiva do fraldão geriátrico) e estava deprimida. Os filhos foram cuidar da própria vida e as visitas rarearam. Ela se queixava de solidão. Minha mãe morria de dó, mas também não visitava sempre porque é muito difícil estar com uma pessoa deprimida; a energia é sugada muito rápido e às vezes a gente precisa ter cuidado para não acabar deprimindo junto.

Lembrei daquelas festanças de natal e ano novo na casa dela, que minha mãe invejava a ponto de choramingar em cima do prato de peru com farofa. Lá em casa éramos só nós três. Por muitas vezes, depois da nossa ceia (no horário comum de jantar de todos os dias) ela também ia para a ceia deles (à meia noite, conforme o costume absurdo brasileiro). Eu devo tê-la acompanhado umas duas vezes e de fato era tudo muito animado; crianças da minha idade, música alta, comida, risadas e, dependendo do clima, as pessoas acabavam se atirando na piscina - que eu vi ser construída e onde quebrei um dente.

Era legal, sim, mas sei lá, eu não tinha inveja. Eu gostava da minha casa. Da quietude, de que a minha música não precisava estar no volume dez para competir com o barulho, de receber feliz natal da vizinha do lado por cima do muro, se sentar no terraço olhando o céu e ouvindo a algazarra na vizinhança (eu podia estar lá sem ter que estar), da comida da minha mãe, de ficar balançando na rede da varanda ouvindo discos do Roberto Carlos, de assistir os especiais de natal na televisão sentada no sofá dando rabanada para a cachorra e, apesar de ser divertida a gritaria e a correria com as outras crianças, na minha casa eu não tinha que aturar as brigas nas quais elas acabavam se metendo, as brincadeiras estúpidas (numa delas quebrei o tal dente) e nem precisava dividir a minha comida e a minha piscina, que inclusive era maior, com ninguém. De onde se conclui que eu já nasci velha, egoísta e sem paciência para dramas alheios. :)

Incontáveis foram as manhãs que passei sentada na mini biblioteca que eles tinham em casa (com três filhas professoras era óbvio que os muitos livros didáticos e de literatura infantil precisavam de um espaço só deles, para evitar o caos), lendo compulsivamente qualquer coisa que pudesse ser lida enquanto minha mãe não vinha me buscar. Muitas vezes eu simplesmente “acordei” ali, tendo sido levada nos braços adormecida e ainda enrolada no cobertor (eram vizinhas de frente; bastava atravessar a rua) quando minha mãe precisava sair muito cedo e me deixava sob os cuidados da Elzir, meio gordinha, bonitona e animada, cabelo cor de laranja bem tratado e unhas impecavelmente vermelhas. Os cafés da manhã sempre contavam com bolo ou pão na chapa quentinho, que eu comia sentada na mesa da copa com as pernas ainda enroladas no cobertor de casa mas já com um livro no colo. “Pare de ler pra poder comer, menina!” ela ria, mas eu amava comer lendo e o hábito se cristalizou de tal forma que hoje em dia eu acho estranho ler qualquer coisa sem comer ou comer qualquer coisa sem ler.

Ela usava uns macacões de tecido estampado e sandálias abertas, porque os pés sempre foram um problema. Sempre ia fazer compras num supermercado fora da cidade (ela dizia que os preços eram melhores; eu e minha mãe duvidávamos) e muitas vezes fomos todas juntas, a Elzir dirigindo o seu fusquinha cor de tijolo sem muito cuidado pelas estradas mal conservadas da Baixada.

Da última vez em que estive no Rio eu fui com a minha mãe visitá-la; a dona Elzir queria me ver. Ela veio se arrastando, beeem devagar, para abrir o portão e por trás dele encontrei quase inalterado o enorme quintal onde passei a infância brincando e subindo nos pés de amora e goiaba (esses não existem mais). Ela já estava viúva há muitos anos e a garagem vazia não mais abrigava a velha picape do seu Haroldo, que passou a vida sujo de graxa e consertando carros. Sentei no banquinho de balanço, feito de ferro retorcido e pintado de branco que ainda morava na varanda com aquela mesma almofada fina demais para ser confortável (os ferros cortavam a bunda da gente) onde devo ter me balançado por anos da minha vida, enquanto ouvia a dona Elzir reclamar da dor nas pernas me servindo bolo de banana com suco de manga e café - era impossível ir à casa dela sem ser entupida de comida gostosa.

Tentei evitar carboidratos naquela visita, mas ah, aquele almoço. Naquela copa onde, provavelmente com a boca cheia de pão, eu li o primeiro livro de verdade da minha vida. Uma das filhas fez um prato que envolvia batatas e depois fomos assistir TV no ar condicionado do quarto. Alguns netos chegaram, as crianças que um dia brincaram comigo e me empurravam na piscina trazendo suas esposas e noivas, e tudo foi ficando meio surreal. Era o meu passado voltando numa versão atualizada e me fazendo sentir a idade de um jeito estranho. Tendo saído do país eu não convivo com muitos contemporâneos no meu dia-a-dia, e é sempre curioso me dar conta de que não foi só pra mim que o tempo passou.

Mas passou sim, o tempo, para todos nós, e levou a dona Elzir, e eu provavelmente nunca mais vou entrar naquele sobrado verde claro quadradão, com telhas portuguesas e um azulejo cafona com a figura de São Jorge colado na frente. Fui olhar pra ele no google maps e me dei conta de que não é mais verde, foi pintado de amarelo. Isso, por alguma razão, me entristeceu. Mas me consolou ter feito essa última visita, sentado naquele balanço, comido aquele segundo pedaço de bolo e acenado com um sorriso à distância quando ela me disse pela última vez, exatamente como quando dizia ao me devolver para minha mãe décadas atrás: “beijos, minha querida; até a próxima”.

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