A tia-avó

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Perdemos essa linda no fim de semana, depois de 94 anos de graça, generosidade e alegria nessa terra.

Minha primeiras lembranças de você já envolvem beleza: o cabelo branquinho de algodão contrastando com a pele curtida pelo sol da lavoura, as mãos ásperas de toque suave segurando firme as minhas, pequenas e rechonchudas, para me ajudar a subir o morrinho atrás da casa e me mostrar no topo das montanhas da serra dos órgãos a silhueta do Dedo de Deus contra as nuvens.

Queria então te agradecer (já que não tive chance antes; eu, assim como todo mundo, achava que você fosse viver pra sempre), pelos ovinhos de galinha caseiros que você punha fritos em cima do meu macarrão (nunca comi ovos mais amarelinhos, nem tão gostosos); pelo abraço e beijo melado na bochecha que eu ganhava assim que você me alcançava no portão e pelo chinelo enorme que você tirava do pé e colocava no meu quando eu tirava os sapatos na sala, pra que eu não “pisasse no cimento frio”; por ficar de guarda na entrada do banheiro que não tinha porta, para que não me vissem fazendo xixi; pelas dancinhas no quintal ao som do violão de um filho ou outro, você rodopiando seus vestidos meio curtos de chita desbotada (os menos surrados eram para a missa de domingo); pelas inúmeras mudas de plantas que você nos dava para plantar em casa e que cresceram e continuam crescendo na casa que já não é mais minha; por ter me ajudado a procurar minha pantera cor-de-rosa de borracha quando a perdi no meio de uma enxurrada de barro (e suportado de bom humor meus berros de desespero); pelas graças que você fazia, tirando a dentadura e mostrando as gengivas para as crianças rirem; pelo orgulho com que você me apresentava para todo mundo contando que eu, tão pequena, já sabia ler e escrever; pelas garrafas de Lindóia que você trouxe do armazém porque minha mãe não queria que eu bebesse a água do seu honestíssimo poço artesiano, e por engolir essa humilhação com dignidade e um sorriso; pelos cachos de banana que você me ensinou a arrancar do pé e os bolos que fazíamos com eles na cozinha sem geladeira ou fogão, assados naquele épico forno de barro do quintal; pelas histórias de bicho-papão que sempre acabavam bem para todos - até pro bicho-papão, que no fim das contas não era tão mau assim porque até no bicho-papão você conseguia remediar a maldade. Te perdôo por tentar me arrumar namorado entre os meninos da vizinhança, tão apavorados com a idéia quanto eu, e pelas desculpas desnecessárias que você me dava pela casa humilde onde eu me sentia tão feliz e livre e amada.

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Criou os filhos, os netos, os bisnetos e todos os agregados que chegavam do nada e iam ficando sem jamais se ressentir, sem jamais reclamar, sem pedir nada em troca. Nunca tratou a filha deficiente como inferior ou incapaz, aceitou outra filha deficiente abandonada por outra mãe que não conseguiu lidar e a carregou no colo até que saiu do corpinho retorcido e frágil o último suspiro. Nunca uma palavra ruim para se referir a alguém, sempre um prato de comida ou um canto de dormir para oferecer a conhecidos (e desconhecidos) que batessem à porta da casinha de pau a pique ao pé da serra, que com muito sacrifício ao longo dos anos foi se transformando em tijolo. Quando o capitalismo descobriu aquela fonte de água mineral puríssima no seu terreno (e então eu ri do nojo que minha mãe tinha do seu poço) e quis comprar tudo eu me perguntei se eles sabiam que estavam oferecendo (pouco) dinheiro em troca de memórias de uma vida inteira, da formação de uma família, da criação de filhos, netos, bisnetos, de colheitas e criações de animais que proveram tantas mesas, de árvores mais velhas que todas as gerações que passaram sob a sua sombra, dos nascimentos e mortes e ciclos de vida que se completaram debaixo daquele teto erguido por mãos calejadas e que de vez em quando ameaçava cair. Os olhos dos filhos arregalaram diante da tentação do dinheiro oferecido, mas você bateu o pezinho pequeno e rachado no chão de barro vermelho que era seu e disse que pariu e criou oito filhos ali e que dali só sairia morta. Ok, parte da terra foi embora antes (em troca de um teto novo e água corrente na torneira, porque o capitalismo não desiste fácil), mas eu senti tanto orgulho de você e fico tão feliz que pelo menos essa promessa você pôde cumprir.

Te vestiram de cetim branco, te cobriram de flores brancas que se confudiam com o branco dos cabelos e encheram dois ônibus de gente que queria te dizer adeus. O sorriso com poucos dentes que iluminava o seu rosto não virá mais, mas ainda posso ouvir a risada que você deu quando eu pus uma cuia de coité na cabeça do cachorro e disse que ele era o Papa; obrigada por ter sido uma das poucas pessoas nessa vida que achava graça das minhas piadas. E em momentos como esse eu queria não ser assim tão descrente, para não ter que usar dessa licença poética fazendo de conta que daqui em diante você vai rir lá no céu com o seu querido Dutinho, companheiro de uma vida inteira, e com a filha que herdou a maior parte da sua generosidade e nunca saiu do seu lado. O seu coração bateu por mais alguns anos depois que o dela falhou, mas finalmente se rendeu. Que todos os vira-latas e gatos e patos e bodes e outros bichos que você acolheu e alimentou em vida venham lá da rainbow bridge te encontrar para deixar os seus dias mais alegres, assim como todas as crianças que foram um pouco (ou muito) suas filhas e todos aqueles a quem você amou; porque foi só amor que você deu em todos esses anos e é só amor que você merece.

E eu vou lembrar de você sempre que olhar para o dedo de Deus, cortando as nuvens que se espalham sobre a serra e apontando o caminho que você seguiu.

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