I miss my pre-internet brain.

Bons tempos aqueles em que eu conseguia ler um livro de 500 páginas inteiro em menos de 48 horas. Bons tempos onde praticamente qualquer livro de 500 páginas conseguia prender o meu interesse por 48 horas. Estamos falando aqui de uma pessoa que *literalmente* lia bula de remédio. Não sobrou UMA da gavetinha de remédios do banheiro sem ser lida de cabo a rabo. Decorei mais nomes de princípios ativos e compostos químicos sentada na privada do que nas aulas de Bioquímica na faculdade.

É oficial: a internet comeu o meu cérebro.

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Decidi cancelar a assinatura do Netflix porque não tenho mais o foco necessário para assistir filmes inteiros. Nem mesmo vlogs com mais de dois minutos (às vezes 30 segundos é o limite da minha atenção à piada). Levei dois dias pra assistir Boyhood, que eu queria muito ver, e estou até agora me recuperando psicologicamente da ruindade da película e do TEMPO que ela levou pra acabar. Eu sou a pessoa que se desespera na sala de cinema porque já desligou o celular mas esqueceu de googlar a duração do filme, e agora vai ter que sentar ali por sabe-se lá quantos minutos sem saber quando termina. Não faço a menor idéia de quando vou terminar de assistir todos os episódios da minha coleção de DVDs do Moomin, e tenho mais vergonha de admitir essa incapacidade adquirida do que de confessar publicamente que eu actually possuo uma coleção de DVDs do Moomin (e da Candy Candy também).

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Eu sou a pessoa que escrevia longos textos para a internet e hoje em dia deixa de postar fotos por preguiça de escrever as pequenas legendas que as acompanham. Uns anos atrás eu achei que tinha material interessante e suficiente para encher um livro, comecei a escrevê-lo e hoje em dia tenho crises de riso ao me lembrar disso. Não porque o assunto seja risível (embora de certa maneira seja, mesmo), e sim porque eu realmente acreditei que depois de 2001 eu conseguiria escrever qualquer coisa que exigisse mais de duas horas de esforço.

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Meus hobbies estão basicamente abandonados. Atividades que demandem atenção, persistência, detalhismo e criatividade estão sendo delicadamente empurradas para baixo do tapete. E entre homens reclamando do suposto feminismo em Mad Max, ou nove usos para a pasta de dente que você nunca imaginou, ou saber quem pagou pelo casamento da filha do Gil eu vou me acostumando a receber esses pequenos drops de informação, rápidos de ler (e mesmo assim pulando parágrafos mais arrastados), fáceis de metabolizar e de esquecer logo em seguida. Abrir um artigo, rolar a barra até o fim, concluir que é longo demais, jogar nos favoritos para “ler depois” e esquecer logo em seguida. Comecer a escrever um texto, a editar uma imagem, me acovardar diante do tamanho (e da chatice) da tarefa, colocar o trabalho numa “lista de coisas a fazer” e esquecer logo em seguida.

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Não estou curtindo, mas não tenho idéia do que fazer para reverter o processo - e em meio às tentativas fracassadas de diminuir o passo e absorver informação de maneira menos frenética, temo descobrir que se trata de um processo sem volta. Temo descobrir que nunca mais vou conseguir ler um livro e que o aumento geral da duração dos filmes (dos 90 minutos padrão da minha infância para as duras horas super comuns hoje em dia) me faça desistir de ir ao cinema. Seriados já não assisto porque quando contemplo a enormidade de OITO temporadas com dez episódios cada eu realmente sinto que ain’t nobody got time for that.

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Outro dia ganhei esse sapo repousando em cima de uma pedrinha. Chamei de Teófilo e achei o lugar perfeito pra ele no meu vaso de suculentas/cactos. Observo o bichinho estático, mas que na minha imaginação está prestes a pular e eu me pergunto quando será o próximo salto e para onde ele vai dessa vez. É mais ou menos assim que acordo de manhã; sem saber ainda quando vou, ou para onde. Só sei que não vou passar muito tempo num mesmo lugar e que ando pulando demais, e assim como o meu sapinho de resina talvez seja hora de encontrar uma pedra no sol e, em paz contemplativa, voltar a simplesmente estar.

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