A trip down memory lane







Eu tenho uma memória estranha. Ela é muito, muito ruim para o passado recente, tanto que sinto ser preciso manter registros. Ontem estava tentando preencher uma folha sobre o que fiz na véspera e simplesmente não consegui me lembrar de um único evento acontecido há pouco mais de 24 horas. Tive que ir fazendo conexões, tentando recordar por exemplo o que comi (e não foi fácil), para num efeito cascata retroativo me lembrar do que veio antes.

No meio do esforço me surge na mente a memória de uma festa (de 15 anos?) onde eu estive com minha mãe, às vésperas de me mudar para cá. Não lembro mais de quem foi a festa, mas lembro exatamente em qual casa ela aconteceu e de que algumas pessoas (a maioria mulheres) nas mesas à volta não tiravam os olhos de mim. Algumas vinham conversar com a minha mãe e aproveitavam a oportunidade para me checar, os olhos examinando cada detalhe da minha roupa, do meu cabelo, da minha cara, e sorriam mil dentes como resposta ao meu olhar assustado/inquisitivo. Situação bastante desconfortável pra qualquer pessoa. Algumas se dignaram a me dirigir a palavra mas eu muito preferiria que não porque a conversa variou quase nada além do “NOSSA, QUE SORTUDA VOCÊ HEIN? SE DEU BEM”.

Lembro que comecei a me sentir enojada e concluí que a perspectiva de uma fatia de bolo não compensava o incômodo de permanecer ali; até porque o nó de náusea que se formava na minha garganta me impediria de engolir qualquer coisa. Fui embora mais cedo e sozinha, caminhando pelas ruas vazias do bairro, as lâmpadas de mercúrio iluminando o caminho e as memórias que eu tinha feito em cada esquina. Mas elas também não compensavam o incômodo de permanecer ali. Nunca senti tanto alívio por estar indo embora, nunca tive tanta certeza de estar fazendo a coisa certa.





Frequentemente algum trigger me faz “puxar” algo assim lá do fundo do baú mental. Hoje, por exemplo, durante a minha caminhada matinal alguma coisa que vi na rua me fez lembrar de ter ido com meus pais a uma festinha no Lespam/Casa do Marinheiro na Avenida Brasil, onde os Trapalhões estavam se apresentando. Eu era bem pequena, devia ter uns 2 ou 3 anos, mas lembro do Dedé me entregando um saco de pipoca e depois me repreender docemente com um “você deixou cair a pipoquinha, neném?” (a pipoca deve ter caído) enquanto um bando de adultos bobões ria de mim.





A primeira lembrança que tenho de verdade eu ainda era bebê. Parece que as cores são supersaturadas (em tons de verde, amarelo e vermelho), porém tudo está desfocado e nada tem sequência certa. Eu num vestido, uma caminhonete amarela, um lugar cheio de verde. Há coisas (brancas?) estendidas no gramado e diversas pessoas ao redor. Muito barulho, mas a atmosfera me passa a impressão de tranquilidade. Eu estou no colo de alguém, e os braços dessa pessoa me erguem até algo grande e bem verde que interpreto como sendo a copa de uma árvore. Lembro de sentir a presença de uma pessoa morena (parecia ser um homem), que pode ser o meu pai ou simplesmente alguém com uma roupa da mesma cor da pele dele. Eu parecia estar feliz.

Descrevi as partes soltas que me vinham à memória para minha mãe, pensando ser um sonho antigo, e ela se lembrou desse dia com alguma exatidão. E ficou chocada por eu me lembrar - a caminhonete, o piquenique, o que eu vestia, ela me erguendo para que eu tocasse a folha das árvores. Eu tinha menos de um ano. É engraçado ter lembrança dessas coisas quando elas acontecem numa idade tão tenra, é como lembrar de um sonho no dia seguinte, ou dias depois; a memória vem meio disforme, cercada por uma espécie de névoa que embaça as imagens. Talvez o nome dessa névoa seja tempo.



Para ajudar na memória recente eu costumo manter journals - nome menos teenager e mais metido a besta para “diários”. Mas ao contrário dos diários clássicos, geralmente 90% escrevinhação e desabafos catárticos, os journals também podem conter fotos, coleções de efêmera (ingressos de cinema, papel de bala, flyer de festas, etc), listas de coisas queridas (e outras nem tanto), arte, mementos e desenhos. Esses cadernos também vão me ajudar no futuro; outro dia eu tive que fuçar agendas pra lembrar em que ano a Chantilly veio morar conosco a fim de preencher um documento no veterinário.



Silly, how could you forget?

O plano para 2015 era fazer um Project Life, mas preguiça avassaladora porque o projeto é bem “photo oriented” e eu não tenho muito saco pra imprimir fotografias. Quem sabe no futuro, quando eu aprender a usar melhor o meu tempo? Mantive os journals, apesar de às vezes atrasar vários dias; esses cadernos, por razões óbvias, não são compartilhados na internet, mas o planner com colagens sim. Sem contar que são desculpa excelente para se jogar em tralhas de papelaria. ♥















Para começar, no entanto, você só precisa de caderno e caneta.
Pode fazer quantos journals quiser, com os mais variados objetivos, mas eu prefiro reunir cada ano em um lugar só. Você pode usar pastas, arquivos, qualquer meio que possibilite guardar o que quiser no formato em que desejar. As “memory boxes” (caixinhas com lembranças acumuladas vida afora) são populares por aqui, mas podem acabar ocupando muito espaço caso a pessoa não seja muito seletiva ou capaz de editar o conteúdo. Eu acho uma boa idéia ir guardando o que for especial e todos os anos, por volta do Natal, abrir a caixa e reavaliar cada item, aproveitando para fazer um balanço do ano que passou e manter apenas o que for mais relevante. A cada cinco anos vale repetir o processo e ir eliminando os supérfluos, deixando ficar apenas aquilo que você terá prazer em rever daqui a cinco décadas.









Eu tenho uma tag sobre journalling aqui no blog que anda meio morta, mas vou tentar reativar. :)

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