Valley of Health + Three Things

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Eu tinha feito essas fotos há uns 2 anos, quando descobri esse lugar onde uma criatura muito sortuda das minhas relações tem o privilégio de habitar. Mas quando baixei as imagens vi que estava tudo desfocado - provavelmente consequência do sensor imundo da minha câmera. Que eu deveria na verdade trocar por um modelo mais novo, mas eu me apego a coisas (mais do que à maioria das pessoas) e o dó de aposentar essa pequena que me acompanha há anos só não é maior que o pão durismo de gastar dinheiro com equipamento. Mas sei lá, essa semana garrei um afeto nostálgico nesse pedacinho de interior escondido numa quebrada no norte de Londres e aí lembrei que essas fotos ainda estavam por aqui. Tá borrado, tá escroto, mas é de ♥

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Essas plaquinhas azuis indicando que pessoas célebres ocuparam aquele endereço estão por toda a parte.

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3 coisas que mal posso esperar
- minha próxima viagem (seja pra onde for)
- outubro, outono, “sweater weather” e poder voltar a usar botas quentinhas
- a renovação do meu banheiro: pisos, pia e armário novos

3 coisas que me dão medo
- insetos (especialmente os voadores ou rápidos)
- escadas espiral em ambientes fechados
- a vinheta de encerramento da Porta da Esperança (sim, até hoje)

3 coisas que me dão preguiça
- videologs e podcasts
- gente super extrovertida (tenho preguiça)
- passar roupa (por isso nunca passo)

3 coisas de que eu gosto
- meias felpudas da Primark
- barulho de chuva
- passar chá de folhas pelo coador

3 cheiros que eu gosto
- cloro/água sanitária
- loção hidratante Johnson’s Baby
- cimento fresco

3 cheiros que eu não gosto
- perfumes marc jacobs
- incenso (a maioria)
- cigarro (de maconha, inclusive)

3 comidas GIMME MORE
- biscoitos (desde que não levem chocolate/gengibre/nozes)
- bacon (o corte britânico)
- panetone com passas (fuck chocotone)

3 comidas “prefiro a fome”
- quiabo
- beterraba
- chocolate (especialmente amargo, urgh)

3 redes sociais favoritas
- instagram
- twitter
- pinterest

3 redes sociais desgracentas
- facebook
- linkedin
- google +

3 bebidas preferidas
- coca zero
- cidras (menos a tradicional de maçã, porque boring)
- vinho

3 bebidas que URGH
- chá verde (e derivados)
- água de coco
- red bull

coisas que eu quero fazer
- me livrar dos carpetes no andar de cima
- ir a Tóquio novamente
- assistir meus dvds novos

3 coisas que eu deveria fazer
- pintar as paredes do estúdio
- plantar as roseiras antes que a temperatura esfrie
- terminar de editar as fotos que estão na fila

coisas que eu sei fazer
- versões de improviso para músicas
- bordar ponto de cruz
- entediar todo mundo

3 coisas que eu não sei fazer
- cozinhar
- deixar o avesso do meu bordado organizado
- olho esfumado (mas estou melhorando)

3 coisas que estão na minha cabeça
- a to-do list da faxina semana
- pôr os macarons na geladeira para não estragarem
- a necessidade chata de renovar o passaporte brasileiro

3 coisas que eu falo bastante
- caralho
- fuck me sideways
- good grief

3 assuntos de que eu falo bastante
- música
- comida
- natureza humana

3 coisas que eu quero
- Perfume Vol de Nuit da Guerlain
- três fotínias para plantar no jardim
- Funko Pops Bob’s Burgers

3 coisas que me acalmam
- desenhar
- assistir filmes
- morder o meu braço direito (melhor que rivotril…)

3 coisas que me estressam
- Drama/carência
- Pessoas que falam aos berros
- Sites em flash cagado que travam o meu computador

3 coisas que eu vou fazer essa semana
- plantar as suculentas que comprei em borough market
- jantar no duck & waffle
- tomar café com a S.

3 coisas que eu fiz na semana passada
comi donuts quentinhos sentada no south bank olhando o sol se pôr sobre o tâmisa
- degustação de macarons na pierre hermé
- tomei meu primeiro pumpkin spiced latte do starbucks (e o xarope estava todo no fundo do copo)

East end boys, West end girls

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Camden market é um lugar esquisito.
Visualmente interessante, SE você não prestar muita atenção nas porcarias para turista - embora muita gente alegue que o lugar inteiro vem se transformando, nos últimos tempos, em “porcaria pra turista”. E eu penso nas diversas “fases” pelas quais o mercado passou nessa década em que nos conhecemos (incluindo uma breve, porém maciça, invasão de lojinhas asiáticas vendendo tralha Made in China) e penso que há muitos anos não sou importunada por algum rapaz de dreadlocks rastafari me oferecendo erva. É, as mudanças são fato. Estive lá semana passada para fazer uma pesquisa e também porque queria comer churros - a versão brasileira, gordinha e recheada de doce de leite, não os espanhóis fininhos pra mergulhar em chocolate. Era fim de semana e o lugar estava lotado, mas foi um sacrifício válido. Só os 2.50 cobrados e o fato de que hoje em dia Camden é um lugar que vende… churros me deixaram meio chocada.

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Londrinos são meio arrogantes. Para eles, Londres é o centro literal do universo - afinal até o meridiano de Greenwich está aqui! São também obcecados com a idéia de parecer “cool” e estar por dentro da última novidade em qualquer coisa; talvez por isso o hipsterismo tenha encontrado aqui um solo tão fértil onde proliferar - até mais do que vi no Brooklyn, em NY - e dado origem a epicentros como Shoreditch, Dalston e Hoxton. Nesse contexto, Camden (o mercado em si, não a região administrativa que é enorme e inclui diversos bairros) é old news. Tipo, very old news indeed. Você anda pelas ruas, espicha o ouvido e percebe que quase não se fala inglês. A presença de nativos é mínima; fora as pessoas que trabalham nas lojas e cafés, praticamente só tem turista. A juventude hipster pode até morar em Camden, mas nem morta seria vista comprando sapatos no mercado. Para eles, o mercado é só para turistas e os roceiros que vêm passear na cidade. Ponto.

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Pra quem ainda não sabia, Londres é uma cidade bastante dividida. O oeste e partes do norte são bem vistas. O leste é “cool”, porém “sujo e feio”. O sul é “o fim da picada”; pobre, sujo, feio e alienígena. E ao contrário do que acontece no Brasil, por exemplo, existe uma certa tolerância para comentários derrogatórios sobre as áreas consideradas inferiores. Ao mesmo tempo que o londrino jovem tem pavor de parecer playboy (e para evitar essa impressão vale até mudar o sotaque) ele não tem o menor problema em chochar as partes pobres da cidade. Já vi gente bem educada comentando que “o sul poderia ser separado fisicamente do resto de Londres e implodido”, sob risadas dos presentes. Jura? O sul, que concentra grande quantidade de imigrantes marrons, pretos e pobres que saíram dos buracos do Commonwealth para os buracos da metrópole a fim de varrer o seu chão, limpar a sua privada, servir o seu café? Curiosamente, essas são as mesmas pessoas que seguram plaquinhas de “REFUGIADOS BEM VINDOS” em manifestações. Indignação diante das injustiças faz sentido quando rende selfies em passeata e textão no face - mas tudo bem querer explodir os pobres que não estão na moda. E é claro que essas pessoas e sua humanidade seletiva são adoráveis. O diabo sou eu. :)

O londrino que habita as áreas bacanas, assim como o carioca, não se espalha. É comum jovens profissionais comprometerem mais da metade do salário para habitar vizinhanças nobres, mesmo que isso signifique ter que dividir o quarto com alguém ou morar dentro de um armário. E uma vez instalado ele não vai arredar pé. Já tive “amizades” aqui que deram como desculpa por jamais aceitar o convite para me visitar o fato de que eu moro “muito longe” (ou seja, 40 minutos de trem do west end). Lojas, cafés e shoppings fora das “áreas frequentáveis” permanecem desconhecidos mesmo que a pessoa viva aqui há décadas. Esse apartheid geográfico não entra na cabeça de quem nasceu com o gene explorador. Eu sempre quero conhecer *qualquer* lugar, feio ou bonito, rico ou pobre, cool ou brega, desde que não haja o risco iminente de morte. Tudo isso me soma experiências e vivências que eu jamais teria sentada no meu quadradinho de tijolos no West end com a cara enterrada no Netflix.

“Você só fala essas coisas porque mora no subúrbio enquanto EU moro no centro!”, dirão certas Más Línguas (hi!) Bem, todos nós podemos pegar o metrô para o centro e curtir os mesmos restaurantes e lugares. Mas eu vou demorar mais pra chegar e, contrário de você, eu não posso pegar um táxi pra casa porque custaria uma fortuna. E, por questões de espaço, você não pode ter o meu jardim ou o meu closet. São escolhas. :)

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Enfim. Camden market ainda é obrigatório para turistas. Apesar de algumas lojas, que para mim poderiam se aposentar sem prejuízo para o local, ou da vagamente reprovável obsessão em capitalizar em cima da imagem da Amy Winehouse. Perdeu um bocado daquela vibe “Londres alternativa” para o East end, até porque hoje o conceito de “alternativo” das grandes cidades deixou de ser punks de moicano, góticas de cabelo roxo, cogumelos alucinógenos e estúdios de piercing e tatuagem. Hoje o conceito inclui coisas como café artesanal, roupas apropriando cultura indígena, pasta de abacate em pão orgânico, restaurante vegano e food trucks pilotados por ruivos de barba e tatuagem old school vendendo sanduíche de porco desfiado por uma pequena fortuna. Assim sendo, Camden é inapelavelmente demodé. Mas eu acho que nunca levei um turista ali que não tivesse adorado cada segundo, cada esquina, cada casinha colorida, cada escultura gigantesca de sapato ou inseto grudada nas fachadas das lojas, cada bota plataforma na vitrine, cada punk enrugado de jaqueta de tachinha segurando um cartaz de propaganda de restaurante. Até os pombos imundos e engordurados de tanto caçar em latas de lixo e que tentam roubar sua comida são visto com benevolência e algum grau de encanto. Despido da condescendência e do classismo dos locais, o olhar do turista é como o das crianças: sempre o melhor. Pena que o tempo, o cinismo e a familiaridade acabem fazendo com que ele se perca.

Não tire Camden da sua lista de lugares para visitar em Londres porque, sei lá, a TimeOut diz que “não vale a pena”. Os artigos de muitos sites turísticos são escritos por nativos PARA nativos, com olhos de nativos. E você é *turista*, lembra? Nothing but a legal alien. Ok, Camden market é brega e passé. Vá assim mesmo e tire suas próprias conclusões. Até porque, como dizem os hipsters, “quando chega a ser elogiado na TimeOut então já virou passado”.

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E nunca compre nada nos camelôs logo ao lado da estação. Ande mais algumas quadras e compre as mesmas “porcarias para turista” por um preço mais em conta. :)

[6x6] Food (caaaakes!)

O post devia ter entrado ontem, mas uma das fotos só pôde se materializar hoje de manhã e então phew! eis o 6x6 desse mês, tema COMIDA ♥ Até pensei em incluir os fish and chips e full breakfasts; maaaas, como já temos uma irlandesa e uma australiana honorárias no grupo eu resolvi honrar meu recém-adquirido sweet tooth (coisas que uma dieta lowcarb faz por você!) e fazer um top 6 SOBREMESAS.\o/

Bem, em parte. Pra mim bolo não conta exatamente como “sobremesa”; acho pesado demais para comer depois de uma refeição e, sendo essa iguaria tão maravilhosa, merece lugar de destaque e cerimônia apropriada. Ingleses não costumam comer bolo andando pela rua e nem com refrigerante em praças de alimentação superlotadas; bolo é companhia de chá e de um momento contemplativo só dele, no aconchego do seu lar ou curtindo os rituais de um tearoom. Sobremesa, pra mim, é um bom café ou uma tábua de queijos; o bolo fica pro chá das cinco. Ou das duas e meia, porque regrinha tem limite né. :D

Como toda Cake Lover, tenho minhas preferências. Entre elas não consta bolo contendo legumes e nem chocolate. Frutas são apreciadíssimas, nozes nem tanto. Massas do estilo “mil folhas” me interessam menos, e as crostinhas finas cobertas de quilos de creme típicas da patisserie francesa idem. Cupcakes são visualmente adoráveis, mas costumam desapontar no resto: doces demais, massa ressecada/anguzenta, logisticamente difíceis de transportar e uma lambança na hora de comer. Ou seja, eu sou bem tradicional e prefiro passas às gotas de chocolate (tão favorecidas nos panetones brasileiros), mas também sou daquelas que dependendo da seca vai comer até pedra.

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Eu tenho que admitir que Carrot Cake não está na minha lista de favoritos por motivos de *cenoura no bolo*, mas quis incluí-lo no post por conta da grande popularidade no Reino Unido e pela sua história. De origem medieval, o bolo se tornou bastante popular na Inglaterra no período do pós-guerra, onde o racionamento de farinha fez com que as donas de casa se tornassem mais criativas e usassem legumes (que não eram racionados e podiam inclusive ser cultivados no quintal) para substituir. Aqui a cobertura costuma ser de cream cheese ou buttercream (prefiro a segunda) com opção de nozes salpicadas (elas também podem entrar na massa, mas não é obrigatório) e raramente vejo sendo servido com a cobertura de chocolate tradicional no Brasil (ainda bem). O bolo de cenoura europeu também tem diferenças do bolo brasileiro: a massa é mais escura, tem menos gosto de cenoura e geralmente é um bolinho denso, com farelos grossos e textura macia.

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Não existe “Afternoon tea” que se preze e mereça esse nome sem a presença de Scones quentinhos, cortados ao meio e cobertos com geléia de morango e “clotted cream” - um tipo de creme de leite consistente e cremoso, que espalha feito manteiga… Os da foto levam passas, mas também existe a versão pura. Geralmente fazem parte do “afternoon tea” tradicional, que inclui também sanduichinhos e bolos, ou então vêm fazendo carreira solo no não menos tradicional “cream tea”, que consiste de um ou dois scones + creme e geléia + chá. Existe toda uma controvérsia sobre o que deve vir primeiro em cima do scone: o creme ou a geléia? Qualquer semelhança com a discussão “feijão por cima do arroz OU arroz por cima do feijão?” não é intencional. Eu, pessoalmente, tenho uma técnica: se o scone estiver quentinho a geléia vai primeiro - do contrário o clotted derrete antes que eu possa apreciar a sua cremosidade. Do contrário sou do time “creme primeiro, geléia por cima”, porque acho que a geléia espalha melhor em cima do creme do que vice-versa. Ufa.

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Essa coisinha colorida aí em cima se chama Battenberg cake, e apesar da vibe chucrute do nome ele é 100% britânico. Reza a lenda que foi criado em comemoração pelo casamento de uma das netas da Rainha Victoria com o príncipe germânico Louis of Battenberg. O nome da família foi alterado para “Mountbatten” durante a guerra porque ninguém queria estar associado a nada de origem alemã; até o Rei teve que mudar de sobrenome, mas o nome do bolo foi preservado. Respect the cake heritage! :) Enfim, o Battenberg não é tão complicado quanto parece. Basta assar dois bolinhos, um de massa branca e outro rosa, cortar e juntar alternando as cores dando esse efeito quadriculado (usando geléia de damasco para colar as partes), envolver com uma camada de marzipan e pá. Ou então comprar no supermercado, já que é praticamente impossível não encontrar. :)

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Um dos meus preferidos, Victoria Sponge é um dos bolos mais tradicionais do reino e presença obrigatória nas vitrines de salões de chá, seja na cidade ou no interior. Batizado em homenagem à Rainha Victoria (que aparentemente curtia um bolinho com o seu cup of tea - quem nunca, Vicky?), consiste em um bolo branco básico de massa fofinha, recheado de geléia de frutas (geralmente framboesa ou morango) e creme fresco batido ou buttercream. Muitas vezes o creme é omitido, e quando isso acontece eu sinto vontade de chorar e abrir um processo contra o estabelecimento por crime contra o patrimônio cultural + propaganda enganosa: não tem creme? Então o nome é Victoria Sandwich. Não deve ter cobertura (ou seja, é um “naked cake” muito antes da invenção desse termo idiota) a não ser por um leve polvilhado de açúcar de confeiteiro. Ta-da! Vicki pede outra fatia e diz, “we are amused indeed”.

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French fancies são pequenos petit fours de inspiração francesa criados pela empresa britânica Mr. Kipling e notoriamente difíceis de fazer - vide o fracasso que foi a tentativa de reproduzi-los no Great British Bake Off… São quadradinhos de bolo branco menores que um cupcake; normalmente não há recheio, mas no topo é colocada uma bolinha de buttercream e então tudo é então coberto com fondant - rosa (morango), amarelo (limão) e marrom (chocolate) - e por fim decorados com fios de fondant em cores contrastantes. São bastante populares nas prateleiras dos supermercados e consumidos com gosto por senhorinhas britânicas buscando um acompanhamento doce para a hora do chá + programas da tarde. 30% de açúcar e muito amor na sua corrente sanguínea. ♥

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E para concluir a hiperglicemia, Sticky Toffee Pudding. ♥ Apesar da cor não tem chocolate algum aí; trata-se de um bolo bem úmido e fofinho, assado em banho-maria, com tâmaras raladas, molho de caramelo e geralmente servido (como o da foto) com creme de leite batido e uma bola de sorvete de baunilha. Apesar do nome a textura não é grudenta, mas sim molhadinha; o bolo é servido quente em contraste com o sorvete gelado que derrete incorporando o sabor à massa. O creme batido serve para balancear o gosto bem doce das tâmaras. É uma mistureba deliciosa de sabores, temperaturas e texturas, um dos meus “puddings” preferidos e bastante comum em menus de sobremesa de pubs. Esse aí foi consumido ontem mesmo no Castle Inn, um pub de 600 anos de idade na vila de Chiddingstone, junto com uma trifle gigantesca (bolo ensopado com licor, coberto de creme inglês, frutas e creme de leite batido e que ia entrar no post também por ser super british mas né, APENAS SEIS, LOLLA!)

Hmm, algo me diz que vou ter que fazer um follow-up. :D

Outras delícias: Taís (Irlanda) - Paula (Holanda) - Alê (Ucrânia) - Loma (Coreia do Sul) - Paula (Austrália)

Aleatórias de sexta

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Aparentemente no Brasil se você é homem e não curte bermudão, tênis com meia e bonê então você é gay. Não faz muito sentido. Lembro quando meu melhor amigo apareceu com uma camisa de listras finíssimas cor de rosa e encarou bullying corretivo pra ir “colocar blusa de homem” (já eu achei que ele estava lindo) e um ex namorado sempre ouvia comentários sobre “essas roupas de bicha velha”. Hm?

Isso me deixava confusa porque os gays que eu conhecia não usavam “uniforme de gay”; na verdade eram os rapazes hétero que aderiam a um código de vestimenta extremamente rígido, como se tivessem medo de passar a mensagem errada. Sempre achei que viver assim, com cagaço eterno de que alguém questionasse a sua sexualidade mainstream com base em coisas tão aleatórias quanto a cor da sua camiseta era por demais estressante. Dermelivre, nossinhora, vadiretro.

Na minha fase roqueira/gótica (quem nunca) as pessoas diziam que “roqueira e gótica é tudo sapatão”. Não, não era a minha avó falando, que ela inclusive curtia a face descarnada do Eddie nas minhas camisetas do Iron Maiden; essa fala era dos adolescentes do meu vintage. Mesmo quando eu cansei de inadvertidamente me vestir de acordo com o ethos de alguma tribo eu ainda era confundida com roqueira, satanista, gótica ou lésbica. Apenas por não vestir camiseta “baby look”, não ter o corte de cabelo certo, raramente usar maquiagem (que naquela época pra mim significava apenas batom) e nem mesmo ter um sapato de salto. Nunca me senti superior a quem usava essas coisas (pelo contrário, cresci me achando inadequada) mas sempre me irritei com a insistência de que todo mundo deveria usar o mesmo. Eu só queria ser inadequada em paz.

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Boa parte das minhas roupas era costurada pela minha mãe; o resto vinha de liquidações de lojas de departamento ou bazares de igreja, e quase sempre customizadas por mim. Eu realmente curtia a idéia de ter uma peça que era só minha, de ver o meu dedo no design do que eu vestia. Só que isso ia totalmente na contramão do conceito de moda das outras mocinhas suburbanas como eu: usar o que todo mundo estava usando. Nunca entendi qual era a graça.

Não que esse tipo de coisa inexista por aqui, mas pelo menos as tribos são mais variadas. E mesmo que alguém desaprove ou ache graça do que você veste quase ninguém ousa comentar ou olhar feio caso você decida se expressar de maneira diferente. 2015 e em pleno Rio de Janeiro as pessoas ainda acham graça nas minhas meias, nos meus sapatos, chapéus e bolsas - e fazem questão de me informar disso. Sim, até estranhos. Principalmente eles.

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Por que estou dizendo tudo isso? Ontem na rua eu vi uma senhorinha de meia calça vermelha, sapatinhos de fivela amarelos, um vestido azul escuro esvoaçante e cabelos rosa pastel presos num coque. Eu tentei seguir e fazer uma foto para guardar na memória aquela inspiração septuagenária ambulante - mas a tarde já ia longe, as pessoas se embolavam umas nas outras entrando em seus respectivos buracos de metrô e acabei perdendo de vista aquele farol cor de rosa iluminando a minha hora do rush.

Acho que pouca gente prestou realmente atenção nela além de mim e de um menininho cansado no colo da mãe, que sorriu e apontou para a velhinha em technicolor: “MOMMY, CANDYFLOSS HAIR! IT’S LOVELY!” Ela virou-se e deu uma risada e um aceno antes de desaparecer por trás de uma nuvem de ternos azul marinho e blazers feitos sob medida em Saville Road. A sola de borracha das maryjanes da Clarks (sei a procedência porque tenho iguais, em outra cor) ao contrário dos saltos agulha não martelavam “plic, plec, plic, plec” no chão duro da estação de metrô. Ela seguiu seu caminho sem fazer ruído, como se flutuasse. She was lovely indeed. ♥

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E agora senta (ou foge) que lá vem aquela modalidade de mimimi cheirando a creme anti-espinhas que eu devia ter deixado lá na quinta série, porque facepalm, cê já deveria ter matado esse chefe e passado dessa fase, Lolla. Mas enfim. Eu geralmente não ligo pra ser importante na vida dos outros; meus melhores amigos ficam semanas/meses sem fazer contato, e quando nos encontramos continuamos melhores amigos. Mas o abraço especial de hoje vai pra quem te aluga quando precisa de apoio moral pra encarar uma situação/evento difícil ou tedioso, mas logo que chegam os Amiguinhos Coolcê tá dispensado. Note que os Amiguinhos Cool nunca estão disponíveis para ajudar naquelas situações tediosas porque, sendo cool, eles obviamente têm coisa melhor para fazer com o tempo. Não. Para isso serve você, o Panaca Útil.

Eu sempre tentei incluir todo mundo. Era um prazer pra mim fazer com que as pessoas se encontrassem e sempre que conhecia alguém legal eu queria compartilhar com o maior número de pessoas legais possível, porque pra mim gente legal merecia estar junta. Como retribuição eu tive minhas intenções questionadas, virei assunto de cochichos e fui cortada de alguns grupos de “gente legal” que ajudei a entrosar. Ou seja, ou “gente legal” não passa de uma teoria que não funciona na prática ou o meu radar para detectá-las está definitivamente quebrado.

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O problema sou eu? Talvez, mas essa é uma justificativa preguiçosa. É mais fácil culpar o denominador comum sem se dar ao trabalho de analisar as variadas atitudes cagadas tomadas pelos demais. Algumas falhas de caráter consideráveis em cima da mesa e eu fechava os olhos pensando, “bom, ninguém é perfeito, eles têm outras qualidades, a sobremesa vai ser boa”. Engano meu. Eu estava perdoando defeitos piores do que aqueles que essas pessoas viam em mim e que serviram de justificativa para que elas me deixassem em banho-maria para uso ocasional ou me cortassem do convívio. Sendo indulgente e magnânima eu não estava agindo como a “pessoa legal” que eu queria ser e merecer; eu estava simplesmente fazendo papel de imbecil. Vivendo e aprendendo, não é mesmo? :)

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Tá tudo bagunçado de novo porque, como alguns de vocês já viram em outras redes sociais, tô mudando tudo de novo. E não será a última vez, porque meus ataques de siricutico são cíclicos. Perdi a vista do jardim, mas ganhei em luz. E em espaço, porque joguei fora muita coisa que vinha guardando por preguiça de me decidir se valia a pena manter ou não. Terminei de arrumar tudo na quarta e desde então tenho estado apaixonadinha pela nova configuração das coisas, pela daybed embaixo da janela e pela luz que entra por ela de manhã nesse finzinho de verão de dias já consideravelmente mais curtos.

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Esse ano eu estava meio chué por conta da mudança das estações, mas já passou. Tudo o que eu precisava era de um novo ninho quentinho (done), meias novas (check!), pijamas novos (em breve) e a proximidade das coisas e pessoas que fazem tudo parecer melhor. E em breve a minha estação preferida, mas enquanto ela não chega… let’s put the kettle on.

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