Aleatórias de sexta

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Aparentemente no Brasil se você é homem e não curte bermudão, tênis com meia e bonê então você é gay. Não faz muito sentido. Lembro quando meu melhor amigo apareceu com uma camisa de listras finíssimas cor de rosa e encarou bullying corretivo pra ir “colocar blusa de homem” (já eu achei que ele estava lindo) e um ex namorado sempre ouvia comentários sobre “essas roupas de bicha velha”. Hm?

Isso me deixava confusa porque os gays que eu conhecia não usavam “uniforme de gay”; na verdade eram os rapazes hétero que aderiam a um código de vestimenta extremamente rígido, como se tivessem medo de passar a mensagem errada. Sempre achei que viver assim, com cagaço eterno de que alguém questionasse a sua sexualidade mainstream com base em coisas tão aleatórias quanto a cor da sua camiseta era por demais estressante. Dermelivre, nossinhora, vadiretro.

Na minha fase roqueira/gótica (quem nunca) as pessoas diziam que “roqueira e gótica é tudo sapatão”. Não, não era a minha avó falando, que ela inclusive curtia a face descarnada do Eddie nas minhas camisetas do Iron Maiden; essa fala era dos adolescentes do meu vintage. Mesmo quando eu cansei de inadvertidamente me vestir de acordo com o ethos de alguma tribo eu ainda era confundida com roqueira, satanista, gótica ou lésbica. Apenas por não vestir camiseta “baby look”, não ter o corte de cabelo certo, raramente usar maquiagem (que naquela época pra mim significava apenas batom) e nem mesmo ter um sapato de salto. Nunca me senti superior a quem usava essas coisas (pelo contrário, cresci me achando inadequada) mas sempre me irritei com a insistência de que todo mundo deveria usar o mesmo. Eu só queria ser inadequada em paz.

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Boa parte das minhas roupas era costurada pela minha mãe; o resto vinha de liquidações de lojas de departamento ou bazares de igreja, e quase sempre customizadas por mim. Eu realmente curtia a idéia de ter uma peça que era só minha, de ver o meu dedo no design do que eu vestia. Só que isso ia totalmente na contramão do conceito de moda das outras mocinhas suburbanas como eu: usar o que todo mundo estava usando. Nunca entendi qual era a graça.

Não que esse tipo de coisa inexista por aqui, mas pelo menos as tribos são mais variadas. E mesmo que alguém desaprove ou ache graça do que você veste quase ninguém ousa comentar ou olhar feio caso você decida se expressar de maneira diferente. 2015 e em pleno Rio de Janeiro as pessoas ainda acham graça nas minhas meias, nos meus sapatos, chapéus e bolsas - e fazem questão de me informar disso. Sim, até estranhos. Principalmente eles.

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Por que estou dizendo tudo isso? Ontem na rua eu vi uma senhorinha de meia calça vermelha, sapatinhos de fivela amarelos, um vestido azul escuro esvoaçante e cabelos rosa pastel presos num coque. Eu tentei seguir e fazer uma foto para guardar na memória aquela inspiração septuagenária ambulante - mas a tarde já ia longe, as pessoas se embolavam umas nas outras entrando em seus respectivos buracos de metrô e acabei perdendo de vista aquele farol cor de rosa iluminando a minha hora do rush.

Acho que pouca gente prestou realmente atenção nela além de mim e de um menininho cansado no colo da mãe, que sorriu e apontou para a velhinha em technicolor: “MOMMY, CANDYFLOSS HAIR! IT’S LOVELY!” Ela virou-se e deu uma risada e um aceno antes de desaparecer por trás de uma nuvem de ternos azul marinho e blazers feitos sob medida em Saville Road. A sola de borracha das maryjanes da Clarks (sei a procedência porque tenho iguais, em outra cor) ao contrário dos saltos agulha não martelavam “plic, plec, plic, plec” no chão duro da estação de metrô. Ela seguiu seu caminho sem fazer ruído, como se flutuasse. She was lovely indeed. ♥

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E agora senta (ou foge) que lá vem aquela modalidade de mimimi cheirando a creme anti-espinhas que eu devia ter deixado lá na quinta série, porque facepalm, cê já deveria ter matado esse chefe e passado dessa fase, Lolla. Mas enfim. Eu geralmente não ligo pra ser importante na vida dos outros; meus melhores amigos ficam semanas/meses sem fazer contato, e quando nos encontramos continuamos melhores amigos. Mas o abraço especial de hoje vai pra quem te aluga quando precisa de apoio moral pra encarar uma situação/evento difícil ou tedioso, mas logo que chegam os Amiguinhos Coolcê tá dispensado. Note que os Amiguinhos Cool nunca estão disponíveis para ajudar naquelas situações tediosas porque, sendo cool, eles obviamente têm coisa melhor para fazer com o tempo. Não. Para isso serve você, o Panaca Útil.

Eu sempre tentei incluir todo mundo. Era um prazer pra mim fazer com que as pessoas se encontrassem e sempre que conhecia alguém legal eu queria compartilhar com o maior número de pessoas legais possível, porque pra mim gente legal merecia estar junta. Como retribuição eu tive minhas intenções questionadas, virei assunto de cochichos e fui cortada de alguns grupos de “gente legal” que ajudei a entrosar. Ou seja, ou “gente legal” não passa de uma teoria que não funciona na prática ou o meu radar para detectá-las está definitivamente quebrado.

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O problema sou eu? Talvez, mas essa é uma justificativa preguiçosa. É mais fácil culpar o denominador comum sem se dar ao trabalho de analisar as variadas atitudes cagadas tomadas pelos demais. Algumas falhas de caráter consideráveis em cima da mesa e eu fechava os olhos pensando, “bom, ninguém é perfeito, eles têm outras qualidades, a sobremesa vai ser boa”. Engano meu. Eu estava perdoando defeitos piores do que aqueles que essas pessoas viam em mim e que serviram de justificativa para que elas me deixassem em banho-maria para uso ocasional ou me cortassem do convívio. Sendo indulgente e magnânima eu não estava agindo como a “pessoa legal” que eu queria ser e merecer; eu estava simplesmente fazendo papel de imbecil. Vivendo e aprendendo, não é mesmo? :)

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Tá tudo bagunçado de novo porque, como alguns de vocês já viram em outras redes sociais, tô mudando tudo de novo. E não será a última vez, porque meus ataques de siricutico são cíclicos. Perdi a vista do jardim, mas ganhei em luz. E em espaço, porque joguei fora muita coisa que vinha guardando por preguiça de me decidir se valia a pena manter ou não. Terminei de arrumar tudo na quarta e desde então tenho estado apaixonadinha pela nova configuração das coisas, pela daybed embaixo da janela e pela luz que entra por ela de manhã nesse finzinho de verão de dias já consideravelmente mais curtos.

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Esse ano eu estava meio chué por conta da mudança das estações, mas já passou. Tudo o que eu precisava era de um novo ninho quentinho (done), meias novas (check!), pijamas novos (em breve) e a proximidade das coisas e pessoas que fazem tudo parecer melhor. E em breve a minha estação preferida, mas enquanto ela não chega… let’s put the kettle on.

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