Nostalgia is a bittersweet drug.





















































toda segunda feira pela manhã o celular informa que o meu "tempo de tela" vem caindo a cada semana. o desktop ainda é ligado todos os dias, mas ao contrário das 20 tabs de costume eu deixo abertas no máximo três ou quatro - as necessárias para trabalhar, o pinterest e o reddit. tenho evitado redes sociais desde outubro; o clima pesado daquela tenebrosa eleição já se dissipou, mas o bode adquirido de pessoas e atitudes (que não poupou lado algum do espectro político) continua por aqui, pastando absorto. e estupefato. no que foi que nos transformamos?

ao contrário dos dois anos anteriores, 2018 não me trouxe nada de ruim. mas também nada de bom.
ok, exceto o gato 2018 não me trouxe nada, e talvez seja por isso que eu esteja um tanto quanto perplexa observando o calendário avançar para a última casa do zodíaco enquanto ao meu redor os projetos de tudo o que eu pretendia realizar nesses doze meses se acumulam em pilhas intocadas. estariam cheios de teias de aranha caso o gato não tivesse tomado para si a tarefa de desinfestar a casa do modo mais orgânico possível. burp.

a sensação de fracasso é desagradável, e para evitar preencher o vazio com comida ou auto-piedade eu trabalhei um bocado e voltei a costurar. as sextas feiras sentadas em cafés com o objetivo de discutir formalidades e que terminam com a cliente imitando flatos vaginais com a ajuda de um canudo de bubble tea trazem risadas e uma estranha sensação de acolhimento. os dedos furados de agulha ao som de wolf alice viram blazers de feltro para bonecas, capas de almofadas, cortinas e a conhecida sensação de trabalho bem feito. de projeto finalizado. de algo tangível que não havia antes e agora graças a mim existe. at least something. this is good.

como é possível perceber, tenho passado muito tempo nesse quarto. removi alguns móveis, incluí outros (tenho tido sorte em brechós, e esse foi o ano de trocar a ikea pelo gumtree), tentando deixar o espaço com menos jeito de escritório (o que ele efetivamente é) e mais cara de quartinho de costura de avó (o que eu gostaria que ele fosse; ano que vem, talvez). me sinto como uma ursa polar preparando a toca para os longos meses de hibernação. é difícil fazer meus amigos solares entenderem o quanto essa época me contempla e faz bem; os demais ursos, no entanto, sacodem a cabeça numa compreensão cúmplice - if you know, you just know.

ainda muito clutter a ser eliminado. já comprei as caixas gigantes de plástico transparente; falta a coragem para enchê-las e despachá-las para o sótão. desisti da idéia inicial de despachá-las para o lixão comunitário porque minimalista sim, desapegada nunca. 2018 tem sido o ano de buscar e reencontrar (ou tentar emular) pedaços de mim mesma de 10, 20, 30 (!) anos atrás. tem esse verniz de encantamento nas lembranças mundanas de outrora que parece deixar resíduos em tudo o que é concreto aqui hoje, e que precisa mais do que nunca desse brilho.

tenho passado muito tempo em casa observando as estações mudarem lá fora. tenho mudado quase que diariamente a ordem dos objetos no vão da janela; plantas, velas, miniaturas e livros. tenho deixado a biblioteca fechada só pelo prazer de abri-la uma vez ao dia e ser recebida pelo aroma antigo dos nossos livros. registrei pouco do outono e não compartilhei muito aqui, mas tenho colecionado folhas de tamanhos e cores diferentes e deixado que sequem entre páginas de revista. um dia talvez virem um quadro; pedaços de vários outonos eternizados sob o vidro. um dia talvez sejam pedaços mundanos de um passado distante vistos sob o verniz nostálgico do tempo graças à minha incansável curadoria de memórias. vai ser bom tê-las guardado.

eu tenho um sótão grande. eu sempre tive.

16 comments

  1. Estava com saudade das suas postagem e das suas fotos.

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    1. eu também estava com saudade de escrever aqui. :)

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  2. Passando só pra dizer que o seu journal é uma gracinha. eu nunca consigo gostar do meu, sempre acho que tem informação demais, mas quando tento ser minimalista fica sem graça. Oh Lord!

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    1. eu também fico nesse dilema, mas aí pensei "poxa, o journal é meu". :) não é pra fazer sentido pra todo mundo, desde que faça sentido pra mim. eu ficava me prendendo a fazer igual aos que eu achava bonitos, mas aí ficava sem personalidade como 80% dos que eu vejo (são todos iguais) e a graça é ser a cara do dono.

      (esse é o meu bullet; eu não costumo postar o journal porque teria que borrar os textos e acho feio/chato)

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  3. Que bom ter todas essas sensações de preenchimento, de dever cumprido e de livros. De todas as coisas difíceis que existem na face da Terra, "concluir projetos" elenca uma das Top 10 (outra seria ensinar felinos a não mexer nos vasos proibidos)
    É sempre uma delícia as fotos do outono daí, adoro a variedade de folhas coloridas! Curte bastante esse finzinho de outono, Lolla!
    BTW, estou em busca de uma cama de solteiro pra colocar no quartinho/home office/PC game room, mas as daqui parece que o solteiro tem que ter 40kg e 35cm de circunferência. Acho que vou adotar a dica de procurar em algum brechó :)

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    1. os apartamentos andam tão pequenos que eles estão diminuindo o tamanho dos móveis para que caibam (é sério, li um artigo sobre isso e fiquei abismada). tenta lojas de móveis usados, as camas mais antigas talvez sejam um pouco maiores.

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  4. :-)
    onde ficam guardados seus planners e journals?

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  5. tem ano que é um borrão. e acho que também estou tentando recuperar coisas. beijo.

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    1. um "borrão" define bem o meu 2018. espero que a gente consiga. :)

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  6. existem poucas coisas mais bonitas que sua decoração. tipo as fotos da sua decoração, são sempre maravilhosas.

    lolla, o sentimento de fracasso é quase impossível de fugir, criamos inúmeros planos na cabeça e quando vemos ou talvez planejamos demais ou fizemos de menos. é confuso e acho que demora milenios para aprender o equilibrio perfeito. mas você me ajuda a valorizar (além de uma boa fotografia) momentos muito únicos e simples, só com as fotos do quarto. de uma folha, de uma vela.

    minha terapeuta um dia me perguntou para onde ia um dos meus maiores investimentos, e eu disse que era na minha casa, no aluguel. ela então me perguntou porque quando eu estou em casa lendo um livro ou apenas arrumando a decoração eu sinto que não estou fazendo nada importante, sendo que luto diariamente por aquilo que tenho 100% do tempo. confuso porém ajuda a entender uns trecos, assim como seu texto me fez refletir sobre.

    eu sei que vc já falou pra assinar o site que quando tiver post novo ele avisa, mas sou old fashion e não perco o habito de entrar todos os dias de manhã antes de começar as coisas. quando tem post novo é uma alegria.

    bjs,
    nathi.

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    1. hahaha ser old fashioned é legal, mas eu ando postando tão pouco aqui que vc vai ficar frustrada a maior parte do tempo.

      concordo 100% com a sua terapeuta. eu investi tempo, trabalho e dinheiro na minha casa porque ela é o meu santuário, onde eu quero estar na maior parte do tempo. me pergunto se isso às vezes não faz com que eu passe mais tempo nela do que gostaria, mas quando estou na rua (mesmo quando é bom) eu tenho a minha resposta. acho que o balanço por ora ainda está ok. :)

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  7. Amo está aqui, amo ler seus textos e ver suas fotos. Me sinto esperançosa de ter um dia lindo igual suas fotos.

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    1. muito obrigada, my dear. epifane é um nome lindo, todo um simbolismo. tive uma amiga chamada epifânia. ♥

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  8. Suas fotos e sua casa transmitem completamente esse sentimento nostálgico. Tenho isso tb, é como se meus 16 anos não estivessem tão longe e eu adoro deixar esse meu eu feliz. E concordo com você, a Internet se tornou bem tóxica. As vezes dá saudade de quando ela não era tão presente nas nossas vidas. Ainda bem que os blogs ainda existem pra salvar. Adoro seus textos e fotos, claro. :-***

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    1. eu tenho saudades da internet da virada do milênio e logo depois. as pessoas se comunicavam mas não se atacavam, os newsgroups eram animados, os resultadps das pesquisas eram melhores (e não apenas links pro buzzfeed e pinterest), a gente falava e se divertia com estranhos em chats do uol, os blogs eram pessoais, as opiniões a gente só dava no messenger ou no ICQ quando podíamos explicar e conversar direito. a internet atual é muito invasiva e onipresente. acho que ninguém precisa ter o outro enfiado no celular 24h por dia. isso não faz bem pras relações, eu acho. :/

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