When we were wanderers.































Lembra quando a gente podia andar livremente pelas ruas? Escolher uma manhã bonita, não esquecer o filtro solar, passar um batom na boca, a chave na porta e se levar pra almoçar? Ver as novidades na vitrine, sentar num café de bairro pra ler a cópia do Evening Standard que pegou de graça na saída do metrô, dar moedas na mão da senhorinha do caixa e ver o sol se pôr em Primrose Hill? Fotografar a floração das glicínias (ah, o cheiro!), passar o sábado num pub garden bebendo cidra Kopparberg e fazendo planos de viagens, ir ao garden centre domingo de manhã e encher um carrinho de rosas, camélias, gerânios e margaridas africanas pra enfeitar o jardim?

Levar a amiga para um salão de chá em Mayfair, ir com o amigo passear com o cachorro em Hampstead Heath, ir com o marido ver a exposição do Pink Floyd no Victoria And Albert Museum, fazer piquenique em Richmond Park com comidinhas da Maids of Honour, comer o arancini com parmigiano do Harry's, o char siu bun do Castle Dragon, pôr o fone de ouvido sentada no banco da frente do double decker e assistir a cidade do alto, dirigir duas horas pra um brunch em Brighton, andar pela areia da praia em Clacton, comprar cacarecos vintage em Lewes - tudo isso calçando sapatos! Sapatos, você lembra do conceito?

Gasta-se menos removedor de maquiagem. Gasta-se mais pó de café. Os dias se embaralham um nos outros. O céu de um azul irônico sem uma única nuvem ou avião. O que era escolha virou dever. Já tem papel higiênico e arroz no supermercado, mas tem também produto novo na prateleira; um que ninguém quer levar pra casa, mas que tal como num sonho de marketing perfeito não sai da cabeça do consumidor.

E vamos enganando a ansiedade com memes e transformando ressentimento em olimpíadas de virtude.
 Éramos andarilhos e agora estamos fugindo de algo sem sair do lugar.
Que tempos esquisitos.

(Fotos: Poule au pot, Michelin House e Whipped London - maio 2019)

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