And she smells like lemongrass and sleep.





















Depois da heatwave vem a chuva. 

Umidade alta, o suor que não seca na pele, as nuvens cinza asfalto no céu e em breve começa a música dos pingos grossos batendo no teto da varanda. Plic, plec, ploc - e quem sabe um trovão, pra animar a sinfonia. Minha alma canta junto. O que posso dizer? Desculpa. Eu tentei, mas eu não gosto do sol. Minha aesthetics é dark academia, mesmo: tweed, xadrez, blusas de lã, brogues e cachecóis, café quentinho, lareira acesa, cheiro de chuva e de livro velho. Essas coisas provocam em mim a mesma sensação de euforia e prazer de estar vivo que um dia de sol e céu azul causa na maioria das pessoas. O sol provoca em mim a mesma sensação de estar em um jantar íntimo à luz de velas e alguém de repente acender um HOLOFOTE de estádio de futebol no meio da minha cara. Too much.


Então podemos dizer que há mais ou menos uma semana eu estou feito pinto no lixo porque meio que não pára de chover. Ainda não esfriou/escureceu o bastante pra acender velas pela casa (embora eu tenha feito isso sim, porque the girl can't help it) mas hoje eu pude colocar um pulôver por cima da camiseta. Semana que vem já é outono, segundo o calendário meteorológico. E eu obviamente já tenho uma vela de abóbora. Ou cinco.


As coisas à minha volta já começam a se tingir de tons acobreados. As folhas dos castanheiros estão mudando de cor. Gato e raposa, ruivos e belos, uma selvagem e outro nem tanto, ambos muito à vontade, ela no jardim, ele em qualquer superfície felpuda o bastante. Parece que finalmente o ano está entrando nos eixos. Nem de longe normal. Mas o retorno de algumas visões familiares, de um clima que me faz bem, da possibilidade de fazer planos, de poder andar descalça pela grama seca do meu quintal catando os frutos verdes que os esquilos atiram dos galhos do carvalho... Parece normal. E na atual conjuntura? Está de bom tamanho. I'll take it.


Come on over, Autumn. Not a day too late.

Quarantine City



































Mês passado esse foi o meu primeiro rolê na zona 1 (ou o "centro" da cidade) desde meados de março, quando exceto por idas semanais ao supermercado em busca de papel higiênico e álcool gel, eu comecei a me isolar do mundo exterior. Tínhamos acabado de sair do pseudo lockdown do Boris Johnson e as lojas não-essenciais já tinham permissão para abrir, mas a maioria das pessoas ainda estava optando por ou sendo recomendada a trabalhar no conforto dos seus lares.

As ruas estavam vazias. Não tanto como em abril/maio, quando a foto de um ciclista solitário cruzando a normalmente movimentada intersecção da Oxford com a Regent viralizou na rede, mas o suficiente para dar um aspecto desolado e pós-apocalíptico à um dos maiores formigueiros humanos do planeta. Tomei meu primeiro café na rua desde março, e estava bom. A tortinha foi um equívoco por motivos de massa de farinha de amêndoas e um naco de chocolate amargo embaixo dos morangos. Estou sempre caindo na armadilha do produto mais vistoso. Devia ter pedido um croissant.

Por um lado devo admitir que fiquei empolgada em poder saltitar livremente pelas calçadas sem esbarrar em pessoas ou me desviar de carrinhos de bebê, fazer fotos sem precisar esperar que hordas de engravatados, turistas ou vans brancas saíssem da frente e me sentir menos oprimida e apressada pelas multidões. O dia estava lindo e eu, livre do claustro e vagamente eufórica, estava possuída por um desejo incontrolável de sentar no meio fio à sombra de um carvalho e tomar um picolé como se estivesse numa rua de bairro, enquanto observava as gaivotas do Tâmisa sobrevoando arranha-céus.

Mas apesar de ter sido bastante agradável ver a cidade assim, desobstruída de transeuntes, esse biscoito que me foi jogado pelas circunstâncias tinha retrogosto amargo. Cidades vazias significam mais que diminuição na emissão de carbono e commuters trocando o cubículo no escritório pela mesa da cozinha. Significam estabelecimentos fechados e arriscando falência porque se não há trabalhadores, compradores ou turistas circulando naquela área, não há consumidores para ocupar mesas e não haverá empregos para os atendentes, baristas, cozinheiros, seguranças, fornecedores e pessoal da limpeza. A van que não estava circulando significava mais do que 10 minutos a menos de photoshop pra mim: significava um motorista que provavelmente ia perder o sustento. Significava que aluguéis poderão cair sim, mas a que custo? Cada escritório, restaurante ou loja que fechar as portas estará fechando-as não apenas na cara dos clientes, mas de centenas de famílias que terão que encontrar um outro modo de sobreviver - e o efeito cascata de tudo isso significa que ninguém, absolutamente nenhum de nós, está a salvo.

Olhei para o alto. Guindastes parados cortavam o céu azul como se atravessassem nuvens. Ao meu lado um ônibus vazio cruzava a A4200 em direção a Bloomsbury Square. Tive medo pelo meu futuro. Tive medo pelo futuro de gente que eu nem conheço. Acho que está todo mundo com medo; de ficar doente, de morrer, de sobreviver mas sem saber como. Entre o bicho que pega e o bicho que come no fim das contas não há pior ou melhor, porque em qualquer dos casos o bicho come e o lanche somos nós.

Pus a minha máscara com estampa de Toy Story, entrei no metrô em Holborn e voltei pra casa.