Outubro Eterno






















Outubro foi... anticlimático. Pra não dizer um fracasso. Chuva, chuva e mais chuva, acompanhada de uma ventania que arrancou as folhas das árvores em tempo recorde, muito antes que eu tivesse tempo, ânimo e oportunidade de ir admirá-las. As prateleiras, geralmente abarrotadas de caveiras e abóboras, praticamente vazias. Todo mundo antecipando um halloween mixuruca, e não estavam errados: um total de zero crianças bateu na minha porta em busca de gostosuras, e estavam certas. Arriscar um corona em troca de bala? Não parece uma proposta muito interessante. Quase indecente. Comi todos os doces que comprei por precaução, assisti uns filmes de terror, ouvi minha playlist de halloween (inclusive maravilhosa, depois compartilho o link), não desentranhei nenhum jack o'lantern, mal decorei a casa e fui dormir em situação de sugar high, spirits low.


Pardon my french, mas que BOSTA de ano, meus amigos.


O que deu pra registrar de outono está aí. Quase não fui à cidade para evitar transporte público, e nas poucas vezes em que houve carona houve também chuva, e então eu me restringi a fuçar algumas lojas e tomar um ou outro café. Registramos um total de zero testes positivos pra Covid nesta casa. Apesar dos deslizes, tipo mão na boca depois de tirar a máscara e antes de passar o bendito álcool.

Mais alguém de SACO CHEIO desse maldito assunto e ao mesmo tempo incapaz de falar de outra coisa simplesmente porque NÃO EXISTE mais assunto?


Uma das desvantagens de não poder ver pessoas é que aos fins de semana não posso mais fazer bolo. Ele não come, e sem ter com quem compartilhar eu teria que comer tudo sozinha. O que não seria má idéia, mas eu realmente não estou a fim de renovar meu guarda roupa  pois 50% dele está comigo há mais de uma década. Não sei quantos quilos ganhei em 2020. Não quero saber quantos quilos ganhei em 2020. Se 2020 não pode me dar alegrias que me traga pelo menos ilusões. 


Já passamos do meio de novembro. Amanhã é o dia oficial de montagem da árvore de natal na minha casa, mas devido a completa ausência de espírito natalino eu vou... deixar pra outro dia. Talvez pra outro mês. Talvez quem sabe a experiência de passar o natal a seco, sem um monte de porcaria pra juntar e desmontar e guardar dia 06 de janeiro, sem um pisca-pisca sequer. Talvez não, né? Luzinha é essencial. De apagado já basta o ano. Talvez quando o lockdown terminar eu consiga ir na Paperchase e ouvir "Last Christmas I gave you my heart" tocando nos alto-falantes e me sentir minimamente normal. Talvez eu monte a porcaria da árvore amanhã.


Outro dia eu escrevi em algum lugar que "outubro não é um mês, é um estilo de vida". Nunca falei maior verdade. Falhando a aesthetics, esse outubro podia muito bem ter sido março. Talvez tenha sido março. Talvez ainda seja. Talvez eu esteja presa num umbral do espaço-tempo, percorrendo corredores de supermercado buscando inexistentes rolos de papel higiênico e pacotes de arroz. Quando não sabíamos quando tudo isso ia acabar. E continuamos sem saber - só que sem o atenuante da novidade.


I'm bored already. Bored, bored, bored.
Wake me up when vacina chegar.


(Fotos: Epping Forest/Essex, Virginia Water/Surrey, Wanstead/London)


No comments