rand?micas pr?-weekend.
Escrito em LOL, celebrities, diariamente, home, reminiscências, Julho 18, 2008 @ 06:54

Eu juro: at? vinte minutos atr?s, eu acreditava piamente que o nome da filha da Nicole Kidman era Sunday ROAST. Ah, ? Sunday Rose. Ok. Ah, mas que nome babaca… Rosa de Domingo? E em se levando em conta que ela nasceu numa segunda feira?? Sunday Roast seria bem mais interessante. A quest?o seria saber, roast de qu?? Galinha, porco, vaca ou ovelha?

Sem coment?rios para o nome que Madame Boc?o escolheu pra batizar seu primeiro filho homem. Ali?s, sem coment?rios para todo esse circo orquestrado pela parturiente em torno do nascimento dos beb?s. Nunca simpatizei muito com esse casal e, ao contr?rio de quase todo mundo, que acha muito lindo esse sistema de ado??o de minorias em s?rie, eu sempre tive sincera pena dessas crian?as.

Que tipo de inf?ncia ? essa, nunca sabendo em que casa ou pa?s v?o morar daqui a seis meses (dependendo dos caprichos da mam?e, pode ser am?rica, vietn?, nam?bia, fran?a… etc), impossibilitados de fazer amigos que n?o sejam filhos de celebridades, de estudar em uma escola normal, de desenvolver uma identidade, criados por bab?s e seguran?as (Angelina fez uma m?dia de 2,5 filmes por ano desde que adotou Maddox… “M?e presente”? Me engana que eu gosto) e seguidos por TODA a parte por um batalh?o de fot?grafos, tendo suas vidinhas esmiu?adas e seguidas feito novela pela metade da popula??o mundial.

Por muito menos nego fica louco no showbusiness e faz a festa e fortuna dos terapeutas de celebrities. A troco de escapar da mis?ria de seus pa?ses de origem, vendem a inf?ncia aos tabl?ides, com a coniv?ncia de papai e mam?e?? Tem coisas que o dinheiro n?o compra, ainda mais para uma crian?a, cujas necessidades s?o t?o b?sicas e incluem carinho e rotina. Minha inf?ncia foi muito mais feliz, obrigada.

Lendo o blog da Loll?, no post onde ela narra o dia em que saiu com uma bota de cada cor, me lembrei do dia em que s? no ?NIBUS fui me dar conta de que havia vestido o suti? por cima da blusa.

Em minha defesa, eu estava saindo de casa ?s cinco da manh? de uma segunda feira, depois de ter ido dormir ?s duas (lembra daquele tempo em que internet com pulso ?nico s? depois de meia noite? E que voc? - VOC? SIM, n?o negue! - ficava acordado com a finalidade de passar a madrugada clicando alopradamente enquando a conex?o n?o ca?sse? Pois ?).

A minha sorte ? que o ?nibus estava praticamente vazio. Opa. Pera?. N?O ERA pra estar vazio! Naquele hor?rio, eu estaria me sentindo uma sardinha enlatada, em meio ?s empregadas dom?sticas, pedreiros, bab?s e office boys indo trabalhar na zona sul, sem contar as velhinhas hipocondr?acas que sempre acordam super cedo para se enfiar em filas do SUS. Mas n?o. S? havia um rapaz sentado num dos bancos da frente, dormindo a sono solto. E uma velhinha logo atr?s de mim (provavelmente hipocondr?aca), tentando abafar o riso.

S? duas pessoas?? N?o pode ser. Tem algo estranho. Foi a? que percebi que, al?m de ter me vestido errado, tamb?m havia pego o ?NIBUS errado. Great. Me levantei resmungando e fui me sentar no banco de tr?s, onde tirei o suti? e, fazendo malabarismo pra n?o ficar pelada, vesti o dito cujo devidamente por baixo da roupa (mais tarde verifiquei que havia vestido o suti? do lado avesso, mas enfim).

Na volta, passei pela velha hipocondr?ada-e-engra?adinha e percebi que ela ainda estava se divertindo ?s minhas custas. “Pensei que fosse pegadinha do Faust?o!”, riu ela. “Ah, ? claro que ?, mo?a”, respondi, com o bom humor pr?prio quem est? devendo cinco horas de sono a si mesmo. “T? vendo aquela c?mera ali na frente? Cruza as pernas que eles devem estar filmando a sua calcinha!”. A velha olhou pra baixo t?o r?pido (a fim de verificar se suas partes pudendas estavam expostas) que bateu com a cabe?a no apoio do banco da frente. Seria a minha vez de rir, amarga n?o estivesse. “At? parece que algu?m quer ver a sua calcinha, dona”, pensei, enquanto tocava o sinal do ?nibus pedindo pra descer nalgum ponto remoto da Avenida Brasil.

Com botas trocadas eu nunca sa?, mas com a roupa pelo avesso ou com a etiqueta de pre?o dependurada do lado de fora… ?, toda hora.

Eu amo comprar roupa. S? n?o amo mais porque t? gorda - o que, de certa forma, ? at? bom, porque economizo uma grana. E prefiro lojas de departamento ao inv?s de “butiques”, porque esse “E a?, amor? Vestiu bem?” me exaspera. Se vestiu mal, eu digo exatamente o qu??? “N?o, gata, vestiu P?SSIMO. Ali?s, nem passou do joelho. C? tem alguma coisa a? maior do que GGG ou eu preciso deixar a bunda em casa antes de vir comprar aqui?”.

Ent?o, depois de aproveitar o sald?o das liquida??es de julho, achei que estava com sorte e entrei na Marks & Spencer. Que vem a ser o equivalente brit?nico da falida Mesbla (n?o uso a C&A como exemplo porque a C&A ? holandesa e n?o vende comida). Basicamente, s? achei coisa cara e roupa de av?. A idade m?dia dos clientes da Marks & Spencer ? 101. As mais jovens s?o as executivas de 30-40 anos, que n?o compram roupas mas enchem carrinhos de comida congelada superfaturada no supermercado da loja. O que ? a pregui?a de cortar um piment?o, n?o ? mesmo, minha gente?

Acabei comprando tralha, claro. Animada com os descont?es de at? 70% que eu havia conseguido nas outras lojas, levei pra casa uma saia na cor salm?o e uma sa?da de praia branca. A saia at? prometia, mas a entidade que eu incorporei para ter coragem de comprar uma SA?DA DE PRAIA e, para piorar, BRANCA, eu ignoro.

Eu simplesmente odeio roupa branca. Eu era a louca que usava preto da cabe?a aos p?s nas festas de reveillon, em batizado de crian?a (de prefer?ncia com um anel de caveira maior do que a minha cabe?a enfiado no dedo), em missa de a??o de gra?as… A ?nica ocasi?o em que eu tinha vontade de usar branco era em casamentos, s? pra ser esp?rito de porco.

Ent?o. A sa?da de praia (que na verdade comprei pra usar como vestido, mas ? feia demais at? pra isso) t? aqui. Me olha, me aponta dedos e ri. “VINTE LIBRAS”, diz ela. “Se voc? tivesse deixado ? mim e ? saia salm?o (salm?o? a saia me deixa parecendo um baiacu) de vinte e cinco na loja, poderia ter comprado um casaquinho de cashmere”. E Deus sabe que, em qualquer hemisf?rio, eu teria mais uso para um casaco de cashmere do que uma… sa?da de praia.

Parab?ns se voc? leu at? aqui. Tava disposto, hein?
Mas se voc? ? daqueles que s? “l? as figuras”, toma (fotos podres porque feitas com uma c?mera vagabunda):

Isso a? ? o banco que fica no fund?o do jardim, meu ref?gio predileto pra ler um livro e ignorar telefone tocando, gatos miando e convenientemente longe da “Dupla Fode Vida“: geladeira e computador.

O cantinho ? mesmo uma del?cia; tanto que n?o sei se leio, se namoro os figos na figueira, se paparico as minhas fuschias que voltaram ? vida ou se me co?o depois de encostar os p?s na urtiga. Mas o banco estava caqu?tico. Resolvi ent?o usar o resto da tinta do arm?rio da cozinha para dar uma cor. Porque, ao contr?rio daquela mob?lia novinha que comprei na promo??o e pintei, esse banco eu “herdei” junto com a casa e ? de qualidade muito superior - apesar de estar em p?ssimo estado.

Ok, eu devia ter lixado e aplicado um wood filler antes de pintar, devia ter pregado a t?bua solta do assento, devia ter tirado do lugar, “devia ter” uma p? de coisas. Mas, se eu decidisse esperar, ser paciente e seguir o esquema, o banco nunca ia ficar azul.

A t?bua solta eu vou pregar no lugar hoje, e pintar as t?buas do assento de branco.
E mais tarde, come?o a pintar o lavabo. Paredes VERMELHAS. Ui. Wait and see. :)

wait a minute, mr. postman
Escrito em reminiscências, Junho 26, 2008 @ 12:55

a ollie postou sobre isso recentemente, e hoje li um post fabuloso no blog do rafael. e me dei conta de que eu tamb?m tenho algum direito a ser nost?lgica quando o assunto s?o cartas.

h? uns bons anos atr?s, eu tinha dezessete anos e quase nenhuma auto estima. passada a ef?mera fase de popularidade ginasial, eu me vi saindo de um relacionamento destrutivo pela porta dos fundos (fugindo, quase), entrando em outro ainda pior (dessa vez com um “senhor” 14 anos mais velho), dando os primeiros passos na vida universit?ria em uma faculdade onde eu n?o tinha amigos e que ficava exatamente a duas horas e tr?s ?nibus de dist?ncia, com uma m?e abandonando o inferno dom?stico que era o nosso lar e um pai que, ferido em seu orgulho, encontrou em mim o bode expiat?rio perfeito onde descontar a raiva. a maioria dos meus amigos na ?poca eram amigos do ex e, sem exce??o, tomaram o partido do rapaz. os meus amigos pessoais, por sua vez, se opuseram ao meu novo relacionamento. great.

foi esse cen?rio de conto de fadas ?s avessas que me fez afundar o rosto choroso num jornal de domingo. quando por fim me levantei, as manchetes do dia estavam impressas na minha cara, e um pequeno an?ncio de canto de p?gina propagandeava um novo “clube de correspond?ncia”. arrumei um pseud?nimo, redigi uma cartinha e enviei para a reda??o do jornal. meu endere?o foi publicado no domingo seguinte e, j? na ter?a feira, ao tentar enfiar a m?o na caixa de correio, me dei conta de que ela n?o cabia mais ali. a caixa estava abarrotada por cerca de 60 envelopes. e mais 60 no outro dia. e mais uns 80 no dia seguinte. o influxo de missivas durou mais de uma semana, deixando o carteiro do bairro deveras curioso.

n?o posso descrever o efeito que isso teve sobre mim. de repente eu n?o era mais a garota estranha, isolada, incompreendida e solit?ria. de repente, centenas de pessoas queriam ser minhas amigas e saber de mim. tipo, wow.

? evidente que n?o consegui responder a todos. escolhi cerca de 100 pessoas (em si j? um n?mero corajoso) para retribuir o contato, sabendo que a maioria n?o ia durar muito tempo. ainda assim, no final daquele ano, eu contava com cerca de 50 correspondentes fixos, sendo que apenas uns 20 recebiam cartas personalizadas. para o restante eu enviava cartas padr?o, escritas no computador, com um resumo semanal/mensal das minhas novidades + um ou dois par?grafos escritos ? m?o, respondendo a perguntas e fazendo outras. ainda assim, eu conhecia aquela gente pelo nome e sobrenome, sabia dos seus problemas, dos seus sonhos e dos seus medinhos rid?culos. porque todo mundo tinha muito medo de alguma coisa rid?cula, assim como eu. descobrir isso foi descobrir, finalmente, que os meus medos eram rid?culos.

com algumas dessas pessoas eu troquei telefonemas. outras at? mesmo encontrei pessoalmente (viajando para outros estados, inclusive). e aprendi que algumas amizades funcionam lindamente por carta, mas s?o um fracasso ao telefone… ou que pessoas que s? escreviam cartas mornas e sem brilho poderiam ser fascinantes e divertidas via embratel. e ainda que pessoas que escreviam mal *E* eram monossil?bicas ao telefone poderiam ser maravilhosas pessoalmente. aprendi a conviver com essas caracter?sticas e respeitar o modus operandi de cada um. foi uma aula de toler?ncia ao pr?ximo e, de quebra, aprendi a aceitar as minhas pr?prias imperfei??es. eu n?o era melhor e nem pior do que ningu?m e, naquele momento da minha vida, saber isso era suficiente.

acabei perdendo contato com a maioria. hoje, apenas uns 4 ou 5 ainda sobrevivem, mas a falta de tempo e as reviravoltas da vida acabaram reduzindo nosso contato a emails ocasionais e ?s minhas cada vez mais raras incurs?es no MSN. mas s?o amigos. com quem sa?, com quem vomitei depois de misturar vinho barato com whisky nacional, com quem chorei o fim de novelas e de etapas, com quem celebrei o come?o de outras, com quem briguei horrivelmente e com quem voltei a falar tempos depois como se nada tivesse acontecido.

desse tempo eu guardo lembran?as curiosas. como o correspondente feinho que me pediu uma foto em retribui??o ? que ele havia mandado e, quando mandei, ele disse que eu “n?o era t?o bonita quando ele imaginava” e cortou o contato. ou do outro que se apaixonou por mim e veio me visitar em casa, trazendo latinhas de cerveja na mochila (n?o rolou nada, mas continuamos nos escrevendo por um bom tempo).

ou da belorizontina patricinha que me chamava de “irm?” nas cartas, mas que n?o se dignou a descer para me receber quando passei pela cidade e apareci para uma visita, devidamente anunciada e com a qual ela havia concordado. ao inv?s dela, desceu a m?e, e pediu que eu n?o procurasse mais a menina; nunca entendi a raz?o do au?, e a patty (curiosamente, esse era mesmo o nome dela) nunca mais me escreveu. lembro da mulher louca que tinha 300 correspondentes e resolveu armar uma campanha difamat?ria contra a minha pessoa entre eles, s? porque eu n?o quis comprar os selos repetidos que ela tentou me vender (observa??o pertinente: eu jamais colecionei selos).

lembro dos “friendship books” que troc?vamos, livrinhos feitos em casa com papel A4 colorido e grampeador, onde cada um anotava seu nome, endere?o, idade e interesses, colava um adesivo e repassava a outro correspondente; era a nossa maneira simples e gratuita de divulga??o. lembro de passar tardes inteiras fazendo FBs, e eles ficavam lindos, com capas de tecido bordado ou colagens com paet?s e muito glitter.

lembro das “cartas sociais”, que podiam ser enviadas pela bagatela de um centavo, desde que o endere?o fosse manuscrito, com a frase “carta social” escrita acima do CEP e que tudo pesasse menos de 10 gramas. pod?amos mandar, no m?ximo, cinco dessas por dia. lembro tamb?m do dia em que o funcion?rio enxergou atrav?s do papel fino dos meus envelopes (que eu fazia em casa, para economizar) e jogou minhas cartas no ch?o da ag?ncia dos correios, porque, segundo ele, eu estava infringindo uma lei - que sequer existia. em lugar algum se afirmava que o conte?do de uma “carta social” tamb?m devia ser manuscrito; at? porque o conte?do de uma carta interessa apenas ao remetente e ao destinat?rio (funcion?rios abelhudos e de mau humor n?o contam).

eu n?o tenho nenhuma mem?ria t?til ou emocional que tenha vindo de emails. essa comunica??o ? instant?nea demais. n?o existe a ansiedade da espera, o risco de extravio, o prazer de abrir uma caixa de correio lotada de cartas gordas, cheias de coisinhas coloridas e cheirosas, o cora??o disparado ao avistar aquele uniforme amarelo e azul royal subindo a rua quando se est? esperando uma carta que pode mudar tudo.

e ainda concedo uma ?ltima vantagem. com raiva do remetente? picar uma carta em mil peda?os ou v?-la retorcendo-se no fogo ? MUITO mais cat?rtico do que, simplesmente, deletar um email.

e, j? que estamos falando em cartas, achei esta aqui o m?ximo:

trata-se de uma carta de rejei??o enviada pela disney, em 1938.
em resumo, a aplicante Mary Ford estava sendo informada de que n?o seria considerada para a vaga no setor criativo do est?dio de anima??o por ser mulher. mas que poderia tentar uma vaga de assistente, em que teria o privil?gio de pintar os desenhos nas folhas de celul?ide “seguindo instru??es”.

o detalhe da “bruxa” ao lado da assinatura do est?dio ? fenomenal.
e a mensagem, clara. pra qu? usar o c?rebro se voc? pode ser bela, indefesa e tola como a branca de neve (afinal, atender pela segunda vez a mesma bruxa velha que lhe aplicou um golpe e cair em outro n?o ? sinal de intelig?ncia, ??) e, ainda assim, encontrar o seu pr?ncipe e ser feliz para sempre? vai catar um marido, Mary Ford, e p?ra de encher o saco. thanksbye.

Mary Ford guardou a carta (os netos a encontraram em meio aos seus pertences, depois da sua morte) mas, ao contr?rio da branca de neve, n?o caiu em conversa fiada. continuou tentando e, por fim, durante a segunda guerra, realizou seu sonho e come?ou a trabalhar com anima??o.

por?m, tivesse sido um email ao inv?s de uma carta, os netos n?o teriam preciosidade alguma para encontrar dentro de uma caixinha cheirando a naftalina.

pequeno compêndio de reminiscências
Escrito em nice things, reminiscências, Maio 8, 2008 @ 16:51

ainda em hannover, faxinando enlouquecidamente e percebendo que eu não nasci para viver em cidades que enfiam pó preto de pneus e fumaça de carburadores por todos os cantos de uma casa e menos ainda em casas cheias de superfícies brancas e reentrâncias difíceis de limpar. minha casa parece uma caverna e transforma em pacífica a minha convivência com a poeira.

mas os meus sapatinhos vermelhos novos me fazem sentir a dorothy de o mágico de oz e me lembram de que nada de mal me atingirá enquanto eu seguir com eles pela estrada de tijolos amarelos.

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quinze euros na banca de promoção. hannover é o paraíso das meninas que detestam sapatos de salto mas que adoram uma pechincha.

lembra de quando estávamos “acampando” no seu quarto e eu confessei que nunca havia bebido vaca preta e seus olhos arregalaram de tal forma que iluminaram tudo em volta e você não quis acreditar e disse que ia preparar uma, nós tínhamos sorvete de creme mas não tínhamos coca cola, e você se levantou e eu disse que não precisava se importar e você respondeu que muitas vezes “a preguiça mata o desejo” e se eu não bebesse vaca preta agora, acabaria jamais experimentando, e saiu no temporal sem guarda chuva e, junto com a coca cola, me trouxe um pacote daquelas balas de tamarindo cafonas, que eu tinha vergonha de admitir que adorava - mas você sabia.

lembro de como eu me sentia importante quando você comia o resto do bife que eu deixava no prato.

lembra daquele dia no jardim brincando de casinha com as meninas e eu chamei você para ser o “pai” e os seus olhos se ergueram do livro lentamente e me sorriram lentamente e você perguntou “e o que o pai faz” e eu respondi que ele trazia a comida pra casa e a gente riu, e mais ainda quando aquela menina estranha apareceu do nada no portão e pediu para brincar um pouco e nós deixamos, e ela era toda desajeitada e arrancou a cabeça da barbie e depois recolocou por engano em outra boneca menor e, toda satisfeita, reconheceu a própria façanha com delicioso sotaque nortista: “alá! butei a cabicinha!” e nós rimos de doer a barriga e rolar pela grama.

lembra de quando eu comecei na escola nova e você me ajudou a encapar meus cadernos com folhas de mapas antigos, e depois colamos durex transparente por cima de tudo para preservar as imagens e eu achei que os meus cadernos eram os mais lindos da escola inteira e você “assinou” o seu nome na contracapa e quando eu me sentia burra ou sozinha ou perdida, só precisava virar uma página para me sentir melhor… e admirar o traço preciso da sua caligrafia, e passar os dedos devagar pelas marcas que a assinatura havia deixado na cartolina (você escrevia forçando a caneta no papel; era da sua natureza fazer tudo intensamente) e imaginar as suas mãos delicadas cheias de pedaços de durex esperando para serem usados.

lembra de quando você roubava os discos da nina simone da gaveta de vinis do seu pai e levava para o seu quarto para me ensinar a dançar?

lembra daquela tarde de sexta feira onde as meninas estavam se arrumando para sair e a sua mãe colocou um cd do heart para tocar e você e a sofia cantaram junto com ela e eu estava ali, atrás da porta ouvindo tudo e rindo e ninguém me viu, mas eu vi o jeito como ela olhou pra você naquele pedaço da música que falava “but the secret is still my own and my love for you is still unknown” e eu nunca esqueci pois foi a primeira vez que eu senti ciúme na vida.

lembra daquele dia em que você tocou uma música muito longa no piano sem tirar os olhos da janela, e depois ficou em silêncio e quase sem se mover por um tempo maior ainda, e eu tolamente quebrando o silêncio para perguntar, sem resposta, o que estava acontecendo… e foi apenas depois de um tempo muito maior, depois de anos na verdade, que eu enfim soube o motivo do silêncio e o nome da música.

lembra de quando eu e a sua irmã choramos na van achando que você nunca mais ia voltar pra casa, e eu achei que nunca nunca nada nos uniria porque os nossos ódios se reconheciam no olhar, mas naquele momento estávamos as duas irmanadas numa coisa muito maior?

lembra de quando você se arrependeu tanto de ter me dito algo que pensou ser uma ofensa e não era mesmo necessário, porque foi precisamente a coisa mais bonita que alguém já me disse na vida (apesar de não ser de uma beleza óbvia) e eu fiquei um tanto quanto desapontada por você não ter notado.

espero que algum dia, mesmo que tenha sido muito depois daquele fatídico dia em que eu escolhi a estrada errada naquele cruzamento onde você ficou me esperando (em vão), você tenha notado. porque significou o mundo inteiro para mim e, entre as muitas coisas que eu involuntariamente dividirei com você enquanto durar essa vida, eu queria poder dividir mais essa, também. e porque aquelas palavras eu ainda ouço, sempre que uma criança me olha e sorri, sempre que meus olhos casualmente encontram os de um estranho nas ruas de um novo país, sempre que os olhos dele encontram os meus.

porque, entre as muitas pequenas ambições que nunca realizei, a mais importante terá sido, talvez, a mais simples: a de que um dia, mais alguém olhasse para mim e reconhecesse a mesma menina que somente você viu.

protect and survive.
Escrito em reminiscências, vida, Maio 1, 2008 @ 15:17

? fato: adoro ver a vida passar pela janela.
mas nem sempre foi assim; me lembro bem de v?rios s?bados onde ficar sentada na frente de uma enquanto o mundo inteiro parecia estar vivendo plenamente, era raz?o suficiente pra deprimir e arquitetar cortar pulsos.

uma l?mina de vidro separando o mundo l? fora do meu mundo aqui dentro. isso, nunca mudou. com a ?nica diferen?a de que agora s?o duas l?minas de vidro (mais uma camada de ar) e o meu mundo n?o ? mais um esconderijo for?ado de coisas que doem.

l? fora o sol brilha, o vento sopra, a chuva cai e as esta??es mudam.
aqui dentro, eu apenas acompanho com os olhos. e me sinto protegida e, ao mesmo tempo, longe de tudo e parte de tudo.

ser espectadora nunca havia sido t?o bom.

ocupada com malas e planos; estou indo para hannover no s?bado e, no pr?ximo, para a it?lia. sete dias na sic?lia, num monast?rio medieval (tive que encher MUITO o saco para conseguir uma vaga, j? que o lugar ? t?o inacredit?vel quanto barato). ? evidente que pretendo comer como se n?o houvesse amanh? e n?o passar perto de nenhuma loja.

no dia 20, eu e ele embarcaremos num ferry em saint malo de volta para jersey.
e dessa vez, se tudo der certo, com uma pequena passageira peluda na bagagem.

:)

atire a primeira pedra…
Escrito em reminiscências, Abril 22, 2008 @ 11:07

…quem nunca teve uma paixonite de gin?sio.
eu tive. n?o s? uma, como v?rias. n?o cheguei a “entrar no cio” como algumas colegas de classe, mas acompanhava com certo interesse a fogueira que as consumia. e, paciente, esperava pela minha vez, me perguntando qual dos espinhentos magricelos do segundo grau seria o merecedor dos meus suspiros. porque ter crushes era hype, desde que feito com classe.

acontece que 99% dos meus interesses n?o eram genu?nos. e, como eu n?o conseguia me interessar de verdade por ningu?m, era cara-de-pau o suficiente para pegar carona nos amados das amigas… no fundo, ach?vamos a coisa toda mais divertida do que rom?ntica e, do alto dos nossos doze anos, ca?amos na risada quando algum deles passava por n?s. del?cia era inventar apelidos monstruosos para os meninos, de acordo com certas caracter?sticas f?sicas ou falhas de car?ter. assim surgia o “alem?o”, o “prestativo” e at? mesmo o “ovo gorado de galinha preta” (don’t ever ask).

mas no fundo eu considerava aqueles alt?es, moren?es, desfilando b?ceps e barrigas tanquinho nos shorts de educa??o f?sica, uma coisa muito fora da minha realidade e pela qual eu n?o tinha muito interesse. eu nem saberia o que fazer com um daqueles, sinceramente. n?o, na boa - a gente faz o qu? com um homem desses aos 12 anos?? coloca dentro de um arm?rio de vidro e fica admirando? faz fotos de nu art?stico (ou n?o) e vende para as amiguinhas na hora do recreio? pede pra ele espancar aquele moleque chato que vive puxando o seu cabelo? n?o, por favor, n?o sugiram sujidades de cunho sexual porque, aos doze, christiane F eu n?o era, s? tinha barbies na cabe?a e n?o tava podendo.

ent?o, nesses termos, analisei as op??es que me restavam. e, j? que tava na moda, acabei tratando de me “apaixonar” por uma coisa mais pr?xima do meu universo - e que mais parecia um h?brido de cofre de porquinho + coelhinho de pel?cia. o henrique devia ter uns 13 anos, cabelos castanhos cacheados, era dentu?o (da? a alus?o ao coelho), estava meio acima do peso (porco) e vivia com o traseiro saindo por cima do c?s da cal?a (cofrinho). n?o, eu t? falando s?rio. em defesa do infeliz, digo que ele tinha um par de olhos verdes-farol que paravam o tr?nsito, ao inv?s de abrir. absurdos, mesmo. e l? ficava eu, da sacada do terceiro andar do pr?dio da escola, procurando o balofo com olhos ansiosos, enquanto as amiguinhas se derretiam feito sorvete na praia pros gostos?es em seus jeans apertados.

um dia a d?bora, moreninha de ?culos, cabelo curtinho e fofoqueira que s?, veio me perguntar qual era a gra?a em passar o recreio inteiro colada na grade. no melhor esp?rito “se n?o puder contar pras amiga n?o vale a pena” eu procedi a despejar a hist?ria completa. at? porque, na minha alucina??o, eu achava que o moleque era realmente uma gracinha e a d?bora ia tipos, totalmente concordar comigo, se apaixonar por ele tamb?m e passar?amos a dividir o posto de “gordo watcher” (true love knows no jealousy). s? quando ela caiu no ch?o contorcendo-se de tanto rir (verdade: acho at? que estirou um m?sculo, nesse dia) eu percebi que, afinal, talvez n?o tivesse sido uma boa id?ia revelar o alvo do meu afeto. fiz a infeliz jurar pela m?e, pai, todos os parentes j? mortos e que ainda nem haviam nascido, que ela ja-mais contaria aquilo pra algu?m.

desnecess?rio dizer que no dia seguinte ela contou pro moleque.

hora do recreio, eu toda faceira com o meu la?arote de tule no cabelo (anos 90 - me absolvam, ok?), me acabando na coxinha com coca cola, ergo os olhos e me deparo com o dentu?o vindo na minha dire??o, exibindo n?o apenas os incisivos gigantes, mas TODA a arcada dent?ria. rindo arreganhadamente. atr?s dele vinha a d?bora, tamb?m mostrando a gengivas - at? que os olhos dela encontraram os meus, muito s?rios, quase assassinos. a pequena salafr?ria sentiu o perigo no ar, engoliu os dentes e deu meia volta. “v-a-g-a-b-u-n-d-a”, pensei eu.

enquanto eu bolava maneiras demoradas e sanguinolentas de dar cabo da linguaruda, o coelh?o supernutrido sentava-se no banco ao meu lado. ? claro que ele havia adorado a not?cia. eu n?o era nenhuma rainha da festa de formatura, mas era jeitosinha o suficiente para dilatar as pupilas do “pega ningu?m” oficial da escola. o moleque estava num estado de felicidade praticamente palp?vel (de novo, favor n?o imaginarem al?m da conta).

“oi, me disseram que voc? ? afim de mim?”. ASSIM. na lata. e meio com cara de pergunta, que era pra for?ar uma situa??o. “f-i-l-h-o-d-a-p-u-t-a”, pensei eu. e enxuguei o catchup da cara, pra evitar os olhos verdes enfiados em mim.

“quem disse isso?”, perguntei, disfar?ando para ganhar tempo, j? que eu sabia nome, sobrenome e endere?o da dedo-duro.
“eu prometi que n?o ia falar. mas olha, anota a? o meu telefone”.

tipo eu-n?o-estou-acreditando que minha caneta est? tipos saindo da minha mochila e eu estou aqui anotando o telefone do bolo fofo na contracapa do meu caderno de biologia (sintom?tico). e n?o acredito que a minha m?o NEM TREMEU, sabe. deve ser o choque. o pior de tudo foi confessar pra ele que EU n?o tinha telefone (de verdade). a vergonha de ser uma exclu?da das telecomunica??es foi maior do que as supostas borboletas que deveriam estar dan?ando na minha barriga (nope, s? coxinha mesmo, thanks). ele se despediu pedindo que eu ligasse e me estalou um beijo nojentamente molhado na bochecha que me fez ter vontade de trocar de identidade com aquela barata subindo ali na parede. oquei, ningu?m podia rotular o pequeno batr?quio como t?mido. “quando se est? na seca n?o se tem tempo para formalidades”, conclu?.

“e ?, tem mais catchup na sua cara. aqui” e LIMPOU.
fiquei mais verde que os olhos dele. n?usea. ? dist?ncia, d?bora e luciana tinham c?licas de tanto rir. v-a-g-a-b-u-n-d-a-s.

desnecess?rio dizer tamb?m que eu passei os pr?ximos tr?s dias ocupada demais lavando a bochecha com ?gua fervendo e desinfetante; n?o liguei e, no quarto dia, o dentu?o despontou no p?tio de m?os dadas com uma loirinha de farm?cia (o sub?rbio come?a a produzi-las cedo), de pernas finas e mochila jeans cheia de buttons com desenhos de folhinhas de maconha, caveiras fumando e o “A” de anarquista.

“roqueira wannabe”, pensei eu. “v-a-g-a-b-u-n-d-a!” condenaram d?bora e luciana, e demos as costas de nariz pra cima, porque eu n?o ia brigar com a minhas amigas por conta de um dentucinho gorducho. por mais que ele tivesse lindos olhos verdes. lindos mesmo. droga.

“o fen?meno se verifica na pr?tica”, disse o fernando ao ouvir a hist?ria alguns dias depois, do alto da sabedoria que s? a testosterona (e alguns chutes na bunda) fornece aos meninos. “assim que o pega-ningu?m acha que tem mulher chovendo na horta, ele se transforma. auto confian?a atrai mulher, sabia?”.

t? sabendo.
se atrair HOMEM tamb?m, me v? duas d?zias e p?e na conta, faz favor.

the music box.
Escrito em reminiscências, Março 7, 2008 @ 18:25

lembra daquela noite em que voc? me viu agachada no escuro, no quarto da sua irm?, ao lado da mesinha de cabeceira? foi engra?ado porque voc? pensou que a luz fraca acesa no quarto significava que ela estava em casa, quando na verdade ela estava de f?rias na praia com as amigas. ent?o voc? ficou surpreso, mas n?o muito, ao me encontrar ali ao inv?s dela, cabelo molhado do banho e vestindo uma camiseta, rosto molhado pelas l?grimas que n?o paravam de rolar embora eu estivesse sorrindo.

em cima da mesinha de cabeceira uma l?mpada de luz vermelha (daquelas que dizem fazer bem para a pele/cabelo/etc?tera, mas que na verdade s?o apenas bonitinhas) iluminando uma caixa de m?sica velha. que pertencera ? sua irm? e havia sido um brinquedo adorado na inf?ncia, mas que h? meia hora atr?s estava indo para o lixo dentro de uma caixa grande de papel?o pardo. eu mal pude acreditar quando meus olhos a reconheceram, coberta de p? em meio a livros de escola antigos, bonecas mutiladas e papel amassado. eu a vi pela primeira vez quando tamb?m era uma crian?a e ela se instalou na minha mem?ria como se gravada a fogo.

ao se olhar, n?o era muito. nada al?m de uma caixa redonda, vermelho sangue escuro, coberta de manchas de gordura, e tocava uma m?sica bastante conhecida e cl?ssica - mas o nome eu nunca soube. em cima uma redoma pl?stica levemente arranhada, protegendo um pequeno casal de dan?arinos, unidos por um fio prateado. um bast?o de metal no meio dos dois fazia com que ficassem de p? e girassem e dan?assem. e eles giravam, rodopiavam e saltavam de acordo com a melodia, e a mo?a era t?o linda, vestida de dan?arina espanhola com o cabelo negro puxado para o alto num coque e ele t?o elegante em seu terno azul escuro e sapatos ridiculamente brilhantes. e eles dan?avam, e saltavam, e rodopiavam, e junto com eles meus olhos, seguindo cada movimento como se deles dependesse o meu cora??o para continuar batendo.

eu me lembro de t?-los visto pela primeira vez exatamente assim: com a l?mpada vermelha projetando uma luz de cabar? sobre o pequeno palco e iluminando os corpinhos dan?ando juntos. sua irm? mostrava o brinquedo para as amigas e eu estava ali por mero acaso (j? que n?o havia sido formalmente convidada). eu sei o quanto vai soar est?pido se eu tentar descrever como me senti - por isso n?o descreverei. afinal, era apenas uma caixinha de m?sica. mas eu tinha cinco anos e uma fascina??o incomum por caixinhas de m?sica; e como aquela, eu jamais havia visto. a escurid?o do quarto, a luz vermelha, os pequenos dan?arinos, a m?sica… todos os elementos se reuniram para criar aquele momento simples, por?m perfeito; e que, durante os anos que se seguiram, recriei religiosamente na mem?ria sempre que me sentia triste e precisando de um pouco de m?gica.

aquela m?gica, em sua forma f?sica, me foi poss?vel naquela noite, quando a pressa peculiar da adolesc?ncia me fez trope?ar na caixa, deixada ao p? da escada para o por?o. foi quando me dei conta de que todas aquelas coisas provavelmente estiveram escondidas ali todo aquele tempo; e l? estava eu, sem saber dividindo o quarto com uma das minhas mais preciosas mem?rias de inf?ncia. meus dedos envolveram a caixinha de m?sica e, com desproporcional cuidado, giraram o mecanismo que a traria de volta ? vida. e ent?o a m?sica, exatamente como eu me lembrava dela, se espalhou por todos os c?modos da casa, e saiu das janelas para o bairro e para o mundo - embora provavelmente apenas eu a estivesse ouvindo. a luz vermelha eu sabia exatamente onde estava. e ent?o corri para o quarto da sua irm? e preparei o meu pequeno palco; e chorei de felicidade no escuro por algum tempo at? que voc? me encontrou.

e ent?o voc? veio e se sentou na minha frente e juntos assistimos ao show por alguns instantes, em absoluto sil?ncio. quando a m?sica finalmente cessou voc? tomou a caixinha nas m?os, girou o mecanismo fazendo os pequeninos prontamente voltarem a dan?ar, como se felizes por estarem de volta ?s atividades depois de longas f?rias n?o solicitadas. e voc? fez essa exata observa??o, e eu ri porque havia pensado a mesma coisa, e disse que eles nasceram para dan?ar e estavam felizes por estar dan?ando juntos de novo, e ent?o voc? disse que eles tinham sorte de ter um ao outro, e n?s rimos, e ent?o a m?sica parou, e voc? deu corda novamente, e n?s rimos mais um pouco e logo os dan?arinos tinham nomes (paco e dora) e toda uma vida. voc? inventou para eles uma longa hist?ria absurda, onde paco viajava o mundo como vendedor de tecidos e bordados e tinha uma amante em cada cidadezinha, at? encontrar dora. e de repente, como se temendo ter entrado num c?modo proibido e esbarrado em qualquer coisa muito delicada, voc? me olhou s?rio e disse “n?o, eles s?o apenas dois estranhos. n?o vamos dar nomes a eles. n?s n?o sabemos de nada”.

ent?o voc? disse que eu podia ficar com a caixinha de m?sica. mas eu n?o podia, ? claro que n?o. como poderia? possu?-la seria como ser dona de um unic?rnio - de repente ele n?o seria mais um mito, n?o seria nada al?m de um cavalinho com um chifre na testa, amarrado nos fundos do quintal. coisas m?gicas n?o devem ter donos. o que h? de “m?gico” em algo que voc? pode enfiar numa gaveta? eu simplesmente n?o poderia guardar aquela caixinha de m?sica e sab?-la ? m?o, me referir a ela como uma coisa guardada, que eu poderia estar admirando agora, mas “sabe, agora n?o quero”. jamais seria a mesma coisa.

e ent?o voc? deu corda ? caixinha de m?sica pela ?ltima vez e n?s ouvimos e assistimos, quase sem nos mexer, at? que paco e dora (no fim acabei gostando dos nomes) fizeram seu derradeiro rodopio e ent?o pararam juntos, em perfeita sincronia com o final da m?sica. eu enxuguei do rosto uma l?grima beb? e nossos olhos se encontaram por alguns breves instantes. foi quando voc? cuidadosamente tomou a caixinha nas m?os, abriu a porta do quarto, desceu as escadas quase sem ru?do e a colocou de volta em meio aos livros e as bonecas e a poeira.

enxuguei outra l?grima ao ouvir seus passos descendo os degraus para o p?tio com a caixa de papel?o nos bra?os.
e, em sil?ncio solene, quebrado apenas por um clic seco, a luz vermelha deu lugar ? escurid?o.

cv3.jpg

photo by felipe sancy, edited by me.
(not the actual music box. that one is long, long gone)

xmas countdown.
Escrito em alemanha, reminiscências, Dezembro 11, 2007 @ 07:26

eu juro. se encontrar mais alguma porcaria, na internet ou nas vitrines, clamando conter cristais swarovski, eu vou gritar.

tamb?m queria entender qual ? a do rebuli?o em torno do bagulho. me lembro de uma certa menininha que anunciava aos quatro ventos o fato de que seus brincos tinham “cristais swarovski aut?nticos”. me pergunto por que diabos ela agia como se tivesse um diamante de pureza IF pendurado na orelha quando, na verdade, os “cristais swarovski” n?o passam de peda?os de vidro superfaturados. poupe-me.

c?us, eu preciso de um doce. tipo, AGORA.

estamos quase na metade de dezembro e pelos blogs j? come?am a espocar posts sobre o natal.
admito gostar das festividades de fim de ano. mesmo quando eu era pequena e minha m?e me costurava dois figurinos cafonas dos anos 80, um para o natal, e outro para o ano novo. nunca descobri a necessidade de ter “roupa nova” para essas ocasi?es, j? que eu quase sempre ficava em casa, deliciada diante de uma mesa cheia de comida com meu pai, enquanto mam?e se enfiava na festa familiar da casa em frente ? nossa.

adoro as luzes de natal. a felicidade simples de avistar, l? pelo final de novembro, a primeira janela enfeitada do ano, com os “pisca-piscas” comprados nas lojas americanas. a onipresen?a do papai noel nos an?ncios de tv e outdoors. a classe “C” se deslocando para fu?ar as prateleiras das lojas de 1,99 na rua da alf?ndega. remoer a d?vida: fazer o tradicional peru ou inovar e assar um pernil? (e acabar, invariavelmente, fazendo o peru de novo) shoppings lotados (mesmo que eu n?o aprove o consumismo, adoro o furdun?o). especiais cafonas de fim de ano. panetone, castanhas e bacalhau nos supermercados. o cheiro das rabanadas assando. encher o saco da m?e para, mais uma vez, fazer um pudim de leite. decorar a ?rvore sem apelar para clich?s do tipo “20 bolas vermelhas + pisca pisca multicolorido + 3 tipos de enfeites, 5 de cada” (na minha ?rvore em jersey eu penduro pequenas coisas que amo, como brinquedos, conchinhas da praia de rozel, os items mais vistosos da minha cole??o de bot?es, souvenirs de viagem que trago ou ganho do british boy…). expectativa.

a ?nica parte chata s?o os t?picos filmes natalinos, carregados daquela glicose norte americana e de criancinhas chatinhas que “n?o deixam a magia natalina morrer”. por mim a magia pode ficar, mas os diretores/roteiristas que apelam pra esses clichez?es xaroposos podem morrer ontem.

os alem?es s?o conhecidos por celebrar o natal com estilo. aqui a comilan?a rola na noite do dia 24 (como ? no brasil), e n?o no dia 25 como na inglaterra, por exemplo. foi aqui que nasceram os mercados natalinos (weihnachtsmarkt), que se espalham pelas cidades vendendo comida, bebida (principalmente cerveja e gluhwein, um vinho quente com a??car e especiarias), bolos como t?pico stollen alem?o, meias, gorros, cachec?is e luvas de l?, e toda a sorte de objetos de decora??o de natal, alguns tradicionalmente esculpidos em madeira. achei essa foto no yvestown:

? uma t?pica “pir?mide de natal” alem?. quando se acendem as velas da base, o calor da chama ativa as h?lices no topo (lembram-se das aulas de f?sica? ar quente sobe, ar frio desce, etc) e toda a cena natalina come?a a girar, iluminada pelas velinhas. em uma palavra: ador?vel. os tamanhos, modelos e cenas variam muito, de acordo com a habilidade e criatividade do escultor (os pre?os tamb?m variam muito, claro). o ebay tem v?rios modelos lind?ssimos.

eu tenho algo parecido; n?o ? uma pir?mide, nem ? de madeira, mas o mecanismo ? o mesmo. comprei na gift shop do museu skansen de estocolmo: quando as velas se acendem, os anjinhos giram e tocam nos sininhos da base. o som resultante ? t?o simples quanto m?gico. apesar de o meu candle chime ser igualzinho, a foto abaixo n?o ? minha (ainda n?o fotografei o meu); encontrei-a num site de artigos escandinavos chamado ingebretsen’s, onde o kit custa menos de 30 reais:

enfim, tenho visitado v?rios mercados natalinos, comido e bebido (principalmente cerveja e porco assado, hehe), mas n?o compro nada. tudo ? muito bonitinho, pitoresco e ador?vel, mas se eu for p?r na sacola tudo o que cai nessa categoria, vou falir em meia hora, minha casa vai se encher (ainda mais) de entulhos e se transformar num “museu de tralhas do mundo”.

por?m, s?bado passado, no mercado de natal de potsdamer platz em berlin, eu n?o pude resistir:

oi, eu tenho 10 anos e essa ? a minha casa de bonecas.
t? legal, eu confesso: essa ? MAIS UMA casa de bonecas.

hm. talvez aquela id?ia de “museu de tralhas do mundo” nem seja uma id?ia t?o m?, hein?

beleza roubada.
Escrito em reminiscências, Novembro 29, 2007 @ 08:16

lendo um artigo sobre shoplifting (roubar coisas de lojas) numa revista, me lembrei de um meme que correu o livejournal tempos atr?s, onde uma das perguntas a serem respondidas era: “voc? j? roubou alguma coisa?”.
nossa, tantas vezes.

era pra ficar com vergonha de admitir? n?o fa?o id?ia. n?o ? uma coisa da qual me orgulhe, mas minhas bochechas tamb?m n?o ficam vermelhas ao admitir que cansei de sair das lojas americanas com uma sacolinha de compras na m?o - sendo que s? metade do conte?do havia sido pago. necessidade? cleptomania? mau caratismo? nenhuma das anteriores. na ?poca eu achava que se tratava de uma pr?tica inerente ? adolesc?ncia (quase um rito de passagem), que todo mundo fazia isso, que o seguro da loja pagaria os eventuais furtos de um bloquinho barato de papel de carta, um anel de pl?stico colorido ou um vidrinho de esmaltes na cor verde bandeira. sem contar os mecanismos que a minha mente desenvolvia para justificar o furto: “meus gostos s?o t?o bizarros que, se eu n?o roubar, eles n?o v?o conseguir vender essa porcaria, mesmo…”.

devo admitir tamb?m o fator gen?tico. aos 12 anos, 80% dos meus brincos e an?is chegaram ? minha gavetinha de “j?ias” desacompanhados de nota fiscal: um dos hobbies de mam?e era roubar pe?as pequenas em lojas onde ela fosse mal atendida. sabe aquelas bancas de an?is “de prata” a R$1,99 sobre a qual a mulherada se joga e as atendentes est?o mais preocupadas em comentar o cap?tulo de ontem da novela ou se o gatinho que trabalha no estoque ? ou n?o viado? pois era dessas mesmas que mam?e emergia vitoriosa, os dedos antes desnudos cobertos de an?is decorados com pedras vagabundas. e sinceramente, se o lojista tinha a cara de pau que afirmar que aquilo era “de prata”, merecia ser subtra?do.

tamb?m havia os primos: uma bem mais velha do que eu e, essa sim, profissional. era especializada em falsificar aquelas plaquinhas que as atendentes nos d?o com o n?mero de pe?as de roupas com que entramos no provador. ela entrava com seis pe?as, enfiava cinco na bolsa (junto com a plaquinha original) e sa?a do provador com a mais barata delas e a plaquinha fake marcando o n?mero “1″. FODA. o problema ? que as filhas pequenas dela aprenderam cedo. a primog?nita enfiava quilos de maquiagem dentro da fralda pl?stica da menorzinha.

mas meu her?i mesmo era um outro primo, um pouco mais velho. porque, mais importante do que a quantidade/pre?o/frequ?ncia do furto, era o estilo, originalidade e auto confian?a com que o perpetrante o praticava. e o garoto tinha panache. ele n?o escondia nada que pegava - simplesmente sa?a com a pe?a embaixo do bra?o. segundo ele, eram as atitudes furtivas que tra?am o ladr?o. e a classe de jogar uma jaqueta nas costas no meio da loja (depois de checar cuidadosamente se havia security tag) e, conversando animadamente, ir embora vestido nela? ele nunca roubava de quem seria, de fato, prejudicado financeiramente. e n?o ficava com o produto do roubo. nunca. sempre doava na rua a algu?m menos favorecido. acho que era a sa?da dele para n?o sentir culpa.

certa vez est?vamos na antiga loja mesbla do centro do rio (sim, eu sou velha) e ele ia saindo com dois cds. uma mocinha magrela e com cara de “peguei um trem + dois ?nibus para chegar no trabalho” nos puxou pela manga, apontou o caixa e sugeriu que pag?ssemos. primo nem piscou. deu seu melhor sorriso ir?nico e disparou “mas de novo, meu anjo? esses cds s?o meus h? meses”. a garota perdeu o rebolado. engasgou pateticamente na pr?pria l?ngua ao tentar explicar que tinha visto o primo pegar os cds 10 minutos atr?s na g?ndola. dessa vez ele n?o sorriu; apenas levantou uma sobrancelha (talento de fam?lia isso, tamb?m), gelou os olhos eletric blue a temperaturas polares e respondeu: “eu estou enganado ou voc? est? realmente insinuando que EU n?o paguei esses cds?”

os dois se encararam por alguns segundos. ele alto, lindo, rico, articulado e bem vestido. ela mal preenchendo a camiseta surrada do uniforme da loja, sapatos baratos com vest?gios de lama seca. ela podia ter chamado o seguran?a. podia ter estranhado o fato de os cds ainda estarem, depois de “meses”, dentro do pl?stico. mas no brasil a divis?o social fabrica suas pr?prias leis e etiqueta.

a mo?a deu de ombros e virou as costas.
e um adolescente aleat?rio num ponto de ?nibus, com uma camiseta do metallica por baixo da blusa do uniforme de escola p?blica, ganhou dois cds da banda s? pra contrariar.
realmente.

wardrobe crisis.
Escrito em alemanha, reminiscências, Novembro 26, 2007 @ 10:45

devo dizer que comprar roupas aqui ? meio problem?tico.
ou voc? paga uma fortuna em pe?as de boa qualidade mas com cara de roupa de av?, ou paga merreca por tecidos t?o vagabundos que se pode enxergar atrav?s, servindo de material para roupas projetadas para o mercado “adolescente” - e que, claro, s? cabem em meninas de um metro e meio e 25 quilos.

n?o entendo que tipo de sociedade coloca roupas XS (extra pequeno) nas lojas, mas n?o o correspondente XL (extra grande). e, quando o faz, o “extra grande” ? t?o pequeno a ponto de ficar apertado em mim. agora entendo porque todas as molecas aqui em hannover s?o esquel?ticas. elas sabem que, se engordarem 300 gramas, simplesmente n?o v?o mais caber nas roupas ? venda e ter?o que, aos 15 anos, vestir uniforme de tia.

nesse ponto a inglaterra e o brasil s?o mais democr?ticos. entendem que a faixa et?ria 25-30 n?o quer mais, necessariamente, usar estampas de caveirinha e figurino 80s em cores c?tricas (crian?as, acordem – roupas dos anos 80 j? eram rid?culas nos anos 80) mas nem por isso entrou para o mercado de jaquetinhas de linho bege. em jersey eu posso me esbaldar em rendinhas e bordados sem parecer que frequento reuni?es de bingo, ou estampas malucas e cores vibrantes mas que nem por isso fariam um barman pedir minha ID antes de me vender cerveja. meio termo, pessoas: eis a alma do neg?cio.

se bem que, na p?tria amada m?e gentil, a tend?ncia ? termos que rebolar para achar roupas que fujam ao padr?o princesa-preparada-boladona (principalmente no rio de janeiro, mas n?o somente). no ver?o ent?o, ? uma trag?dia. parece que o mercado n?o se d? conta de que existem pessoas que simplesmente N?O ficam bem usando lycra, micro shorts ou jeans com stretch.

o que me transporta automaticamente de volta ao gin?sio. eu passei ANOS da minha vida tentando descobrir de quem havia sido a brilhante id?ia de transformar os shorts do uniforme feminino de educa??o f?sica em verdadeiras calcinhas de elastano azul. s?rio, era algo nesse “n?vel”:

provavelmente o autor do atentado era homem. porque mulher alguma seria t?o insens?vel ao fato de que apenas as gostosonas da turma ficariam bem naquilo, enquanto que as gordinhas ou magricelas sofreriam o vexame de se expor aos olhares alheios - ou ? falta de olhares alheios; honestamente n?o sei o que ? pior numa idade onde aprova??o ? o ar que se respira.

na ?poca eu n?o era nem gorda, nem magrela (embora tamb?m n?o jogasse no time das boazudas teens), mas absurdamente t?mida. a id?ia de desfilar de calcinha por uma quadra lotada de ere??es ambulantes me fazia inventar uns 500 resfriados por ano, matar cinco av?s por semestre ou ficar menstruada treze vezes por m?s, a fim de evitar o supl?cio. no final do ano, eu acabava fazendo uma reda??o de 50 linhas sobre a hist?ria do voleibol e ficava tudo ok.

o short eu usava como calcinha, mesmo.

bus stop.
Escrito em reminiscências, Novembro 1, 2007 @ 04:52

“senhoras e senhores passageiro, desculpe t? interrompendo o descanso da sua viagem, mas eu trago aqui o novo chocolate da nestr?, o verdadeiro passatempo da sua viagem, e o passatempo das suas crian?a em casa. ? um delicioso chocolate, n?, senhores, com cobertura de chocolate ao leite e o delicioso recheio crocrante de caramelo. l? fora nas padoca os senhores vai pagar um real por cada chocolate, aqui na m?o leva tr?s por um real, mais uma sacolinha de pr?stico para carregar o lanche, aceito tamb?m o seu vale transporte. ?queles que puder ajudar, eu agrade?o. e ?queles que n?o puder, eu agrade?o da mesma maneira. e a?, senhores, mais algu?m vai querer chocolate? mais algu????m?”

(erros de portugu?s intencionais. porque tem que avisar, n?? e tal)

n?o sinto falta dos vendilh?es, mas minha alma prolet?ria sente falta de coletivos.
e de comprar aquela bananada, mais vermelha que sangue arterial e mais dura que paralep?pedo, para roer durante os muitos minutos que separam o sub?rbio da civiliza??o, vendo a vida (e os botecos, e os traficantes, e as tchuchucas de shortinho, e as tias sentadas na cal?ada, e os cachorros vira latas desfilando a sarna, e os moleques soltando pipa e os fiat 147 estacionados na porta do sal?o do reino das testemunhas de jeov?) passar pela janela do ?nibus.

eu quero agora: DADINHO DIZIOLI, o maior “adubo de lombrigas” da minha inf?ncia.
e aquelas pipocas vagabundas que v?m dentro do saquinho de pr?stico rosa pink (so very fashion) e s? v?m em dois sabores: doce ou amargo. e a gente nunca sabe qual ? at? comer a primeira. cada pipoca ? uma surpresa. aiquesaudades da minha inf?ncia suburbana.

t?dio + c?mera = pose “emo myspace“.
o ?ngulo ? cl?ssico. faz quilos a mais desaparecerem instantaneamente e batr?quias virarem princesas. ou voc? nunca se perguntou por que todo mundo no myspace parece ser bonito?

p.s.: a quem interessar possa, esse olho avel? a? ? fake.
como eu estava dizendo, bem myspace, mesmo.


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menina, do rio 40 graus para uma pequena ilha entre a inglaterra e a normandia. uma tatuagem de lua e estrela e outra onde se lê "l'enfer, c'est les autres". odeia pepinos, hypes e intelectualóides. adora 70s rock, 80s pop, fotografia e badulaques vintage. xinga com frequência. e essa é a sua vida, em fotos amadorísticas e poesia roubada. mais?

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online desde 2001 pela mesma razão que você: ócio. o site é apenas uma sequência desconexa de updates para família/amigos, lembretes para mim mesma e coisas bonitas demais para não serem compartilhadas. como não pretendo ganhar notoriedade ou dinheiro com internet, não tenho a obrigação de ser relevante.


todas as fotos e textos pertencem a mim; exceções com o devido crédito. por favor não copie nada sem permissão. layout feito por mim, usando elementos appletooth e ephemera. wordpress rodando thanks to sweet marya.


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