August 05, 2008 cinema, vitrines e picnics.

Então, né, show do MUSE no Brasil.
Odeio oficialmente todo mundo que esteve lá. De mentirinha, e só hoje - mas odeio.
Me ocorre, entre lágrimas de tristeza, que eu sempre vou a shows de bandas inglesas quando estou no Rio - mas a quase show nenhum quando estou aqui. Mas enfim, tenho um currículo legal e já vi a maioria das minhas bandas preferidas ao vivo (fora as que se dissolveram ou morreram antes de vir ao Brasil OU antes que eu tivesse idade de ir a shows).

Fui ver Mamma Mia nos cinemas, paguei caro pela pipoca (quatro libras?? custa o quê para estourar um saco de pipocas pequeno, 50p?? Beejesus...) e, ao entrar na sala, os únicos lugares disponíveis eram aqueles colados na tela. LOTADO. Caramba, eu fui à estréia de Sex & The City e o cinema estava va-zi-o. O que isso significa? Que, realmente, não existe gente jovem nessa ilha. Olhei para trás e parecia reunião de pais e filhos em escola de subúrbio: apenas senhoras de meia idade e crianças pequenas.

Começa o filme e as velhas começam a CANTAR junto. E eu afirmo: 150 velhas conseguem sim cantar mais alto que a Meryl Streep. Vontade de olhar pra trás com cara feia e gritar "SHHHHHH!!!!" mas a) ninguém ia me ovir, mesmo; e b) se 150 velhas decidissem me dar porrada ou despejar baldes de pipoca na minha cabeça, eu estaria fodida. Me resignei ao coral geriátrico, então.

Ah, ok. O filme. Legalzinho, nada demais (à exceção da cena onde as mulheres cantam "Dancing Queen", já antológica). ATENÇÃO: tem um pequeno spoiler no fim desse parágrafo; se não quiser ler, pule. Eu tive que checar no IMDB para me certificar que a noivinha do filme era mesmo a patricinha loira e retardada de Mean Girls. O problema com o Pierce Brosnan cantando não é, ao contrário do que andei lendo, a desafinação; ele não desafina. O que pega mal mesmo é o timbre. Alguém se esqueceu de avisar a ele que aquilo era um filme para senhoras, e que ele não estava fazendo testes para o papel de Calaf em Turandot. Colin Firth mal aparece na fita e, quando aparece, é pra dizer que virou gay e começar a namorar um grego. Eu e todas as moçoilas do planeta que ainda têm aquela cena da camisa molhada na cabeça REALMENTE podíamos ter ido dormir sem essa. E os produtores podiam ter escalado outro cidadão pro papel. Sinceramente.


Ela não tem nome. Pelo menos, não que alguém saiba.
Ela tem a pele pálida, os lábios da Jolie, olhos cor-de-avelã sonhadores sempre voltados para a mesma direção (esperando por algo? Alguém?) e cabelos castanhos escuros num corte atrevido de garoto. E deve gostar de moda, porque todos os meses muda o visual.








Ela é um manequim de vitrine de cabeleireiro, e mora numa vila do Japão.
E foi assim que ela se apaixonou por ela. E eu também.

Picnic em La Hougue Bie, há duas semanas atrás (as fotos são da apresentação da Esther Parkes; a da Cally Joel, tirando melodias medievais de uma harpa, eu não pude fotografar):





Perceba o conteúdo NADA orgânico/natureba da nossa cesta. Pudera, ela foi preenchida às pressas na manhã do picnic... O lugar estava lotado de hipongas, teletransportados direto dos anos 70 com direito a trancinhas, barbichas, crianças desnudas e saias rodadas. Quando chegamos lá em cima de um jeep 4x4 e com pizza dormida dentro da cesta, tive certeza de que iam nos linchar.

Felizmente os hippies de Jersey são como as vacas Jersey: totalmente pacíficos, só querem saber de mascar grama e fazer cocô.






















British Boy in Germany. Volta na sexta, a tempo de pegarmos a inauguração do "Piranha's Bar". Woohoo.

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October 23, 2007 heading back to the cold.

último dia em jersey.
hoje à noite voamos para londres e amanhã cedo, de volta para a gélida hannover. e para o apartamento que, apesar de não ser exatamente pequeno, me parece claustrofóbico.

agora que o verão terminou, me arrependo de ter feito tudo errado na alemanha.
eu poderia ter feito mais caminhadas. poderia ter ido pelo menos mais UMA vez passear no eilenriede, um parque imenso que fica a apenas três quarteirões do apartamento. poderia ter saído do quarto, da frente do computador e ido comprar cogumelos frescos nos mercados de rua, poderia ter fotografado as abóboras coloridas e flores em vasos de cerâmica artesanal, assistido a mais programas da tv alemã (mesmo sem entender nada), aprendido a pelo menos xingar no idioma de goethe, comido mais chucrute, conhecido mais, aproveitado mais além do circuto cama-pc-mesa-compras.

mas sinto que esses quatro meses passaram em pálidas cores.
eu estava ocupada demais lamentando não estar em jersey para prestar atenção na alemanha e ter sido grata pelas chances que tive.
de ampliar os horizontes profissionais do british boy.
de ter enfim podido trazer a minha gata para viver comigo.
de estar vivendo em outro país, imersa numa outra cultura que, apetecível ou não, tinha tanto a me ensinar; e sinto que aprendi tão pouco.

mas ainda temos três meses. onde provavelmente vai fazer muito frio (muito mais do que eu já experimentei na vida), a neve vai cobrir as calçadas e telhados, os mercados natalinos de rua me farão engordar alguns quilos e o meu 25 de dezembro será branco.
se eu não puder celebrar e ser grata por isso, então eu sou uma estúpida profissional.
*corre para a h&m e refaz o estoque luvas de lã coloridas*

ontem, despedindo-me da ilha (que começa a se preparar para o inverno):























because cats are not vegetarians:



bonus photo da responsável pelas fotos (a olympus...) e do dedo que aperta o shutter:



te vejo em janeiro/fevereiro, ilha.

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October 19, 2007 jersey bean

resultado da pendenga com a imigração: positivíssimo.
não serei enfiada à força dentro de uma mala vagabunda da le postiche e embarcada (sem bilhete de retorno) no setor de carga de um vôo da british airways de volta para o subúrbio carioca.

mas eles também não me deram a extensão do visto temporário.
TOPARAM DAR O VISTO DEFINITIVO!

é isso aí - na próxima segunda feira levarei meu passaporte para ganhar o carimbão fodão.
infelizmente o passaporte em si ainda não é "o" fodão.
somente daqui a um ano poderei entrar com o pedido de cidadania, fazer juramento diante de uma foto assustadora da lilibeth e embolsar um passaporte de outra cor que vai reduzir o tempo gasto com filas (e explicações) nos aeroportos.

além disso, poderei programar uma viagem à bushland com mais tranquilidade - e sem precisar passar pela paranóia que é conseguir um visto yankee. se eu vou querer fazer tal viagem é uma outra história.

e antes que as senhoras dignas-de-família-limpinhas-não-chupo-e-nem-engulo comecem a me chamar de "maria passaporte" e dizer "viram só? ela só estava interessada no visto, nem mencionou que agora poderá viver para sempre com o amor da sua vida, blá, etcetera", gostaria de lembrá-las que, num (bastante improvável) caso de retorno para o brasil, é evidente que o "amor da vida" viria comigo. no questions about it. ou seja, eu sempre soube que, independentemente de visto, eu viverei com ele até que nossas escovas de dente possam virar artigo de museu. até aí, sem novidade.

a boa nova é poder, finalmente, chamar de lar o lugar que, ao longo dos últimos três atribulados anos, e depois de muitas lágrimas, ranger de dentes, palavrões e encantamento, eu aprendi a ver como o meu lar.


eu usei o termo "bean" (feijão) no título porque é assim que os nativos daqui de jersey são carinhosamente chamados.

e a bbc publicou uma enquete: "como saber se você está se transformando num bean?"
abaixo, colhidas por mim, as opiniões mais hilárias do pessoal (obviamente exageradas para elevar o teor cômico, mas nem por isso menos verdadeiras):

você sabe que está virando um jersey bean quando:
- vive reclamando do preço dos imóveis (embora londres seja tão ou mais cara);
- vive reclamando dos engarrafamentos no verão (embora o sul da inglaterra seja muito pior);
- vive reclamando dos impostos (embora a inglaterra cobre o dobro);
- tem um bronzeado falso o ano inteiro e usa óculos escuros até de noite;
- paga 100 mil libras num carro que faz 320 km/hora para dirigir numa ilha onde a velocidade máxima é de 65 km/hora;
- percebe que a lista telefônica tem 500 páginas mas apenas 40 sobrenomes diferentes (e todo mundo parece seu primo).
- estuda numa classe com 36 alunos e pelo menos 30 deles são seus parentes;
- mora a um quilômetro do trabalho mas dirige ao invés de andar, gastando meia hora a mais por isso e reclamando do engarrafamento;
- antes lia jornais como o telegraph e se interessava pelos eventos mundiais; hoje em dia lê o jersey evening post e entra em pânico ao saber que o preço do peixe aumentou;
- não aceita que crianças façam barulho, que adolescente ouçam música alta ou andem de skate, reclama da fumaça da churrasqueira do vizinho, reclama dos turistas com a cara colada na janela da sua sala, reclama do latido dos cachorros, nunca faz porra nenhuma e espera que todos sejam iguais a você; (senti MÁGOA nessa declaração!)
- esquece qual é a função do acelerador no seu carro;
- devolve o troco quando lhe pagam em dinheiro da "outra ilha" e exige dinheiro de jersey (embora as notas de guernsey sejam aceitas normalmente);
- começa a torcer pela frança ao invés da inglaterra no futebol, embora o seu passaporte afirme que você é britânico;
- apóia a idéia de transformar as famosas "obras na estrada" de jersey num esporte olímpico para as próximas olimpíadas de inverno;
- sabe que pode encontrar chocolate fudge em todas as lojas, até açougues;
- desenvolve ódio mortal por turistas dirigindo carros alugados;
- tem a imagem de uma vaca nas notas dentro da sua carteira;
- pensa que trens são coisa do passado;
- acha que tem sorte se consegue sintonizar mais de três canais na sua tv;
- paga mil libras por mês para morar num conjugadinho de fundos;
- bebe um leite mais grosso que creme de leite e que é capaz de bloquear artérias só com o cheiro;
- não consegue andar mais de 15 quilômetros em linha reta sem cair na água;
- fala "eh" no final de cada frase;
- considera um trajeto de 20 minutos no carro "uma viagem";
- reclama de turistas espantando as gaivotas e tirando fotos de tudo mas também reclamar que a indústria turística esteja morrendo;
- viver no lugar mais bonito do mundo e ter total consciência disso. :)

"why is a jerseyman happy when he sees a red sky at night?"
"because he thinks guernsey is on fire!"

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October 16, 2007 home, sweetest home

chegamos em casa no domingo à noite para passar a semana. ele a trabalho, eu respirando aliviada por poder me livrar, ainda que temporariamente, daquela gaiola asquerosa onde me escondo na baixa saxônia.
detesto apartamentos porque detesto vizinhos. detesto o retardado imbecil do andar de baixo que fica ouvindo música techno até meia noite e detesto o casal de elefantes que mora no andar de cima - sim, porque eles só podem ser elefantes para fazer tanto barulho simplesmente andando.

o silêncio do meu quintal, quebrado apenas pelo ruído de um trator ao longe, o ocasional berro dos faisões e magpies, um esquilo mudando de galho ou simplesmente o vento nas folhas das árvores... explicar está muito além da minha pouca fluência. passo os dias sentada no jardim respirando a pureza do ar e deixando meus olhos se perderem ora na grama, ora no céu azul, ora nas últimas flores que nascerão esse ano.

minhas encomendas de livros e DVDs na amazon UK chegaram em UM dia.
aprendi que jogar cointreau no chocolate quente o transforma em uma outra experiência, ainda melhor do que a habitual.

home, sweet home - quase literalmente.
volto já.

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