Jersey, briefly.

Cinco dias em Jersey, dois dias de sol glorioso, rever pessoas, lugares e sentimentos. O azul dominou as fotos, o céu, o mar e o meu estado de espírito. Curioso é que em inglês “blues” representam tristeza, enquanto no português “tudo azul” quer dizer justamente o contrário. Nessa, pelo menos, eu estou com Camões.

Estou aqui editando fotos para mandar para os seus respectivos donos (“bicos” como fotógrafa amadora = fun) e curtindo o tempo nublado e úmido, um contraponto gostoso ao sol do  feriadão. I’ll be back soon.

Rapeseed fields forever

Toda primavera é época de apreciar as plantações de rapeseed, a planta da família da mostarda e do repolho e que dá origem ao óleo de canola. A safra britânica de 2014 foi particularmente abundante, já que o preço do óleo aumentou muito devido a baixas nas colheitas de outros países. Ou seja, vastos quilômetros do countryside cobertos por um tapete de flores amarelas…

(fonte da imagem: Daily Mail)

Fico encantada admirando a explosão de cor pela janela do carro, mas nunca consigo fotografar porque os campos quase sempre ficam às margens de estradas sem acostamento e fica difícil parar. Mas enfim, eis uma tímida tentativa… E a intenção de sair por aí “rapeseed hunting” em 2015. :)

Bittersweet.

Sempre que volto do shopping de busão passo por essa fachada e fico torcendo para que o sinal esteja vermelho e eu possa admirá-la por mais do que apenas alguns segundos:

O sábado foi dedicado a english sausages + bacon no Log Cabin Café e muita escavação no jardim selva.

Afofamento de gatos:

Foi também um dia de introspecção e reflexão. Estou atravessando uma daquelas fases, que felizmente vai embora tão rapidamente quanto chega. Mas enquanto estiver por aqui é preciso auto-análise. E agradecer por toda a bosta que eu não preciso mais engolir na vida, o que faz com que os pequenos incidentes desagradáveis sejam encarados com perspectiva. Para conseguir ser feliz na vida que eu tenho é preciso aceitar a que eu não tenho - porque ela até poderia ser melhor (ou não?), mas também poderia ser muito, muito pior.

Even in the middle of the winter we must realise there’s a garden inside that needs tending.  

E apesar de alguns momentos amargos…

(faltou uma apóstrofe ali?)

E conforme me foi solicitado no instagram, receita da queijadinha sem (muitos) carboidratos:

1 ovo, uma colher de sopa cheia de cream cheese, duas colheres de sopa de leite de coco, duas colheres de sopa de coco ralado (sem açúcar, pfvr), 20-30 gotas de adoçante líquido, fermento, 3 minutos no microondas (potência alta). Voilá! Fica bem comível e sacia o desejo por doces de quem faz restrição de açúcar/farinha. A receita pede que se leve à geladeira, mas eu comi quente mesmo porque: sim. :)

E agora de volta ao jardim. Plante, Lolla, plante… ;)

my mind is calm and animal and sharp and reborn

voltei à kensington, agora com 3g; da última vez a vodafone tinha  falhado comigo. me apaixonei por uma menina japonesa na plataforma do metrô - pele de porcelana, cabelos negros longos e lisos, visual goth chic: saia longa, botas e jaqueta, tudo preto, tudo caro, tudo lindo.

a estação de metrô da high street também é linda. na rua, dois jovens distribuíam amostras de uma bebida nova e ganhei uma caixinha de café latte com água de coco. apenas 6.6g de carboidrato por 330ml.

encontrei por acaso um pequeno jardim no meio de um quadrilátero de casas terraced, pontilhado de cerejeiras e magnólias em flor - uma visão. achei graça quando fiz check in no 4square e algumas pessoas recomendavam o jardim afirmando que “era bom para fazer picnic ou jogging” - o que provavelmente era mentira ou ironia, uma vez que o jardim é privado e é preciso chave (privilégio dos moradores) para entrar.

segui andando e encontrei a igreja e fiz fotos do pequeno cemitério, o chão coberto de daffodils. sentei numa mureta para tomar café da manhã (queijo que trouxe de casa + a tal bebida que ganhei, relativamente bebível).

uma coisa engraçada é que vi umas poucas pessoas passando por mim, inclusive uma mulher com uma menininha, todos saindo de um portão do meu lado esquerdo; terminado o “recreio” tentei sair por ele também e me dei conta de que não era um portão e sim uma extensão da grade. não havia um lugar por onde aquelas pessoas poderiam ter entrado, e eu procurei. vamos lembrar que eu estava sentada num cemitério. creepy.

na verdade tive sorte de não conseguir sair por ali. dei a volta e já ia indo embora quando percebi uma entrada lateral, um túnel com teto ovalado. segui por ele e encontrei a fachada frontal da igreja. havia algumas pessoas dentro, uma senhora junto com um homem de meia idade, e outra mulher com uma menina - de uns 10 anos, mas vestida tradicionalmente de criança em cores clássicas, como os ricos costumam fazer. dois pequenos jardins onde pessoas comiam lanche, conversavam ou futucavam celulares. a senhora e o homem de meia idade e a menina pareciam me observar. anos de self conciousness me ensinaram a perceber olhares com o canto dos olhos. a menina olhou para a minha bota, eu pus os óculos e fui embora.

Esse lustre é e-nor-me.

entrei em algumas lojas da high street, inclusive uma pc world onde os vendedores me sorriam quando entrei e me tratavam por ma’am. peguei um ônibus para willesden onde fui apresentada a um autêntico cafezinho servido numa deli portuguesa. sentei numa mesa da calçada ao lado de dois hipsters gatos - que por acaso eram gaúchos. willesden é uma espécie de gueto brasileiro, i shouldn’t be surprised. kensal rise. ladbroke grove. notting hill. desci de propósito no lado errado de portobelo road para poder caminhar por ela até a estação. pessoas em bandos. algumas lojas fechando. portobello tem uma vibe diferente durante a semana, sem as hordas de turistas e as barracas vendendo lixo. choraminguei com a cara boa das pizzas na porta do arancina, encontrei um amigo e entramos para um café. pela janela do primeiro andar olhei as cabeças passando apressadas lá embaixo e uma melancolia com gosto de caafé expresso me pegou. roubei azeitonas da pizza alheia e me arrastei até o metrô, onde peguei meu evening standard do dia e um cara tentou me fazer entrar numa loja e comprar uma bolsa louis vuitton usada.

sebos de livros. ♥

foco is overrated. ♥

comprei três revistas new yorker numa charity shop, a mais velha de 1960 e a mais nova de 1976. 50 centavos cada uma, eles tinham uma caixa cheia, mais de 100. eu quis levar outras, mas o peso se tornaria insuportável para carregar - especialmente na sacola de supermercado com alças finas que me deram e cortaram meus dedos. a idéia era usar para fazer colagens, sempre é. mas eu tenho dezenas de revistas antigas (anuários fotográficos, catálogos, revistas semanais femininas, etc), todas compradas com o mesmo propósito e jamais cortadas porque tenho pena de destruir algo que resistiu intacto por tanto tempo e é mais velho que eu. uma espécie de reverência sem sentido porque afinal é só papel, de tiragem não-limitada. mas o que importa é o pedaço inadulterado de história nas minhas mãos. acabo tirando muitas xerox.

Changing seasons.

Primavera na reta final. Algumas flores que começaram a abrir recentemente, porém, vão nos acompanhar por todo o verão e começo do outono. In for the long ride! Quando as rosas começam a desabrochar, no entanto, você sabe que a primavera está fazendo as malas para ir e o verão fazendo check-in no 4square: I’m here, girls. ;)

Cor tão bonita que eu me recusei a ajustar os tons da foto. Essa pequena rosa trepadeira perdeu uns “bracinhos” numa ventania semanas atrás, quando uma das cerejeiras que ainda não havia sido plantada tombou em cima dela. Quase morri; todos os cinco galhos que se quebraram tinham botões. Pus num vaso para ver se pelo menos desabrochavam, mas como viajei naquela semana cheguei em casa quatro dias depois e encontrei a água podre e os galhos mortos. :( Ela já deveria estar cheia de flores, mas espero que se recupere.

E ontem mesmo com o ventinho e a chuvinha esporádica também foi dia de plantar arco-íris:

Replantei as mudas de gerânio que consegui cultivar com sucesso esse ano. Quando puxei esse aí embaixo (que já está inclusive florindo) pude ver as micro-raízes se formando. Awww.

E ainda tem mais, muito mais pra plantar antes que o verão chegue:

Acho que deixei pra plantar os bulbos de dália tarde demais esse ano (me esqueci deles; o dedo “verde” falhou) mas vamos tentar e esperar pelo melhor.

Quando me vejo envolvida com plantas, mudas, fertilizantes, podas e regadores me dou conta de que cedo ou tarde todo mundo se transforma na própria mãe. :)

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Gato perdido no tsunami reencontra a família depois de três anos - awww.
Lindo pinboard: old hollywood black actresses.
Londres na primavera.
Laury e seu cãozinho fiel.
Lista de “filmes ruins”; quantos você já viu?
Essa casa. ♥
19 cidades encantadoras para a sua wishlist turística.
15 lugares famosos e seu verdadeiro entorno (questão de ângulo?)
Os piores monumentos do mundo.

In Bruges - Part Two

O dia seguinte, único full day em Bruges, foi gasto explorando a cidade a pé. Sendo bastante compacta o turista consegue se locomover muito bem com a ajuda de um mapa/GPS. Para os adeptos, acredito ser possível alugar bicicletas. :)

Cores de outono em plena primavera: pode sim. :)

Outra opção turística é fazer cruzeiros de barco. Descartei porque fazia frio demais e eu tive medo de deixar o celular cair na água enquanto fazia fotos. Risos.

Chocolates por toda a parte, de todos os tipos (inclusive os NSFW, haha); eu não curto chocolate e por isso não comprei nenhum (só uma caneca de chocolate quente), mas as vitrines estavam lindas:

Macarons bem mais em conta do que os da Ladurée.

Bric-a-bracs. ♥ Eles também têm suas indefectíveis feirinhas de “antiques” (tralhas, pra ser mais exata) e foi lá que comprei essas gracinhas para a porta do lavabo; nunca mais as visitas vão abrir a porta do armário de vassouras por engano:

Bruges também é famosa pelo artesanato, mais especificamente esses finíssimos e delicados trabalhos em renda.

Ok, o peixe é meibrega, mas o micro rendado manual das escamas coloridas é impressionante.

Impressionante também é arquitetura da cidade:

O cachorrinho é famoso; está SEMPRE nessa janela, parte de uma casa com vista para o canal e é figurinha carimbada em todos os álbums de fotos de quem visita Bruges. Não posso culpá-lo; quem não gostaria de ter um canto como esse na vida?

E só para chatear os chocólatras… Chocolate quente versão “faça você mesmo”:

Yes, it tasted as good as it looks. ;)

8 on 8: Levo Comigo

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1. MP3 Player: dificilmente saio de casa sem ele, companhia indispensável para relaxar e mentalizar virunduns nas longas viagens de ônibus. Especialmente no Brasil funciona que é uma beleza para dificultar interações sociais com estranhos sem noção - aquele tipo que puxa papo no ônibus. Sorry lady, the earphones mean I DON’T WANT TO TALK. :)

2. Oyster Card: Ok, já podemos pagar o ônibus passando o cartão de débito na leitora e em breve o metrô também vai contar com essa facilidade. Mas eu pretendo continuar usando meu Oyster, nem que seja com a desculpa fútil de poder variar porta-cartões bonitinhos como esse (by Accessorize).

3. Espelho: quase não uso (na verdade não gosto muito de espelhos), mas de vez em quando é preciso retocar um batom ou checar se desenvolvi um quadro súbito de icterícia - hipocondria rules. Esse bonitinho com capa de cetim eu ganhei de brinde da senhorinha simpática do stand da Dior numa loja de departamentos em Jersey.

4. Álcool em gel: Detesto lavar a mão com água depois de usar o banheiro na rua porque a) não curto ambiente de banheiro feminino, quero só fazer meu xixi e sair logo ao invés de disputar espaço na pia com estranhas ; b) nem sempre o secador automático funciona e você é obrigada a sair do banheiro com as mãos molhadas e c) mesmo quando funciona tenho horror daquele barulho. Fora que o conteúdo da garrafinha (da My Melody e veio de Tóquio) ainda serve pra limpar mão melada de sorvete na rua ou depois de confraternizar com os germes transporte público.

5. Óculos: na maior parte do tempo só porque eu acho bonito e esconde as olheiras, mas não vou negar que muitas vezes meus olhos agradecem por não tomar aquele sol de meio dia esperto pupila adentro. Esse modelinho aviator é bem clássico e orna com a minha cara redonda. E Ray-ban sempre, porque depois de comprar um óculos caro e ele arranhar na primeira queda agora eu só quero saber de lente de vidro.

6. Agenda/planner: eu até tentei usar o iphone com esse fim, mas um dia eu precisei acessar um endereço e anotar algo importante e a bateria do celular havia acabado… Tive que sair procurando papelaria para comprar papel e caneta, mas o endereço ficou mesmo proibido pra mim, yeah yeah. Depois desse triste episódio eu decidi usar o celular para telefonemas, fotos e mensagens - e o bom e velho papel para todo o resto. Never looked back. :)

7. Chaves: auto explicativo. O chaveirinho do Darth Vader é o toque de nerdice necessária para animar um item básico e já serviu para iniciar uma daquelas conversações awkward com desconhecidos no metrô. Que nem sempre são horríveis; nesse caso no fim da viagem já estávamos discutindo um projeto de tatuar a Death Star.

8. Adoçante: desde a adolescência eu não adiciono açúcar a nenhuma bebida. Antes a preocupação era apenas o peso, mas agora eu também sei o quanto o açúcar faz mal à saúde; se for pra chutar o balde prefiro um pedaço de bolo do que um café melado. Esses tabletinhos adoçam na medida certa e sem deixar gosto amargo na bebida - mas café de qualidade mesmo pode até ser tomado puro.

Um nono item seria o celular, mas precisei dele pra fazer a foto, HE. ;)

E agora vão ali ver o que eles levam: : Gislei • CandyDéboraJulianeLaryLukasPancieri

In Bruges - Part One

Parada para abastecer e fazer xixi num posto de gasolina em algum ponto da Bélgica ou Holanda, eu catando pinhas do chão para fazer enfeites de natal. As seis horas e meia de Callais para Hannover passaram bem mais rápido do que as quatro de Hannover para Bruges; minhas costas quebraram, meu traseiro tornou-se quadrado e eu só pensava em dormir porque isso não vinha rolando direito desde que bati na cama do primeiro hotel.

Quase chegando em Bruges o satnav avisou de algum perrengue na estrada e nos redirecionou para uma rota alternativa cruzando a pequena village de Damme, que inclusive é uma graça e voltei pra visitar depois. A estrada era uma lindeza: canal de um lado, campos verdejantes pontilhados de vaquinhas de outro e um corredor de árvores gigantescas às margens. Não consegui uma foto que fizesse jus à beleza, mas fotografar através do vidro de um carro em movimento é só pra ninja.

Chegamos ao destino e não sei se por causa do cansaço e daquele fim de tarde cinzento eu me senti… underwhelmed. De início achei Brugge meio insossa. Não ajudou que o hotel ficava meio afastado do centro, numa rua morta que inclusive estava em obras e em frente a uma igreja enorme onde eu já cheguei a doida do celular fazendo mil fotos que saíram TODAS uma merda por motivos de luz péssima porque o tempo estava nublado. O tempo, aliás, estava FRIO. Levei vários vestidinhos porque acreditei na previsão da meteorologia que anunciava 18 graus e agradeci muito por ter comprado aquela malha grossa em Hannover.

Fomos procurar um lugar pra comer e percebi que a vibe gastronômica de Brugge é meio Paris: bife com fritas, mexilhão com fritas, galete com fritas, crepe com fritas, fritas com fritas. Quarteirões inteiros da mesma coisa. Tédio alimentar beirando à depressão. As variações eram um tal de waterzooi (sopa de galinha?) e um cozido de carne de vaca, ambos supostamente pratos típicos da Bélgica.

Entramos num restaurante APENAS porque tinha lareira - eis a medida do desespero (e do frio). O garçom veio me perguntando se eu era espanhola (what. the. fuck.) e ofereceu o “drink da casa”, que as companhias logo aceitaram e eu fiz cara de “não, obrigada” quando queria dizer “enfia na bunda”. Até parece que eu vou aceitar uma bebida que eu não escolhi e cujo preço desconheço; esse tipo de oferta tem toda a cara de “caça turista otário”. Os tais drinks chegaram e pareciam uma laranjada carnavalesca: tinha um foguetório aceso dentro dos copos que ficou soltando faíscas na mesa e quase chamuscou cabelos. Elri.

Pedi o tal do waterzooi porque frango é frango e você sempre (?) sabe o que esperar. Estava gostoso; uma sopa grossinha simples,  com base de gema de ovos e creme de leite. Os pedaços de peito de frango cozidos nesse caldo estavam bem brancos, mas ó: tava bem feitinha, cremosa e olha, pelo que eu vi de fotos de waterzooi na internet podia ter sido bem pior. O resto da galera foi de cozido de vaca, que eu provei e achei bom, mas a carne meio… doce. Não que sabores atípicos me assustem, apenas achei inusitado.

O highlight da refeição, no entanto, foi a “sobremesa”. Pedi só um café, que veio porém acompanhado de biscoitinhos, balas e esse mousse de licor de limão com creme batido por cima. Novamente, quase pedi outro só pra ganhar mais docinho. :)

O bar do hotel estava fechando quando voltamos, mas o moço bacana da recepção topou nos vender cerveja se a gente levasse para beber nos quartos. Carregamos copos e garrafas elevador acima e só devolvemos no dia seguinte.

Quando amanheceu descemos para o café da manhã e foi lá que a minha páscoa efetivamente começou. O salão de café era enorme com uma mesa no centro repleta de baixelas de comida, uma delas transbordando de waffles fresquinhos, ainda quentes e cobertos de açúcar de confeiteiro. Se a viagem não tivesse valido de mais NADA, esses waffles teriam sido o bastante. ♥ I’m in love. ♥ (comi uns cinco)

Saímos em busca da Igreja de Our Lady para ver a escultura de Michelangelo, mas a fila na porta desanimou. A igreja no entanto é linda, com mais de 120 metros de altura sendo a segunda construção de tijolos mais alta do mundo. Um dia (que não seja feriadão de páscoa num país famoso por seus chocolates - ou seja, lotado) eu volto.

Bruges, obviamente é cheia de canais. Me lembrou um pouco Amsterdam, só que mais compacta. :)

Bruges também é cheia de bicicletas. Outra coisa que me fez lembrar Amsterdam. :)

(to be continued…)

Two days with a teutonic touch

Dei uma sumida breve, ocupada com viagens, cansaço das viagens, da vida e de pessoas. Mas ói nóis aqui trá veiz! Semana passada estive na Alemanha, terrinha boa que pude chamar de lar temporário durante o ano de 2007, e logo em seguida estiquei as pernas para a Bélgica - a cidadezinha de Bruges, mais especificamente, que estava há tempos na minha wishlist turística mas só agora o projeto saiu do papel.

Como a viagem foi feita de carro atravessamos a poça d’água via Eurotunnel, uma espécie de passagem mágica entre duas dimensões: adentra na Inglaterra e desemboca na França, um universo paralelo com placas naquele idioma pentelho, restaurantes que fecham cedo e por favor não se esqueçam de que agora é preciso dirigir do outro lado da rua. Seis horas e meia mais tarde, depois de meter 200km/h na autobahn, estávamos em Hannover.

Da série Embalagens Bacanas: sal numa loja de conveniência na Bélgica. Também faz parte da série Por que não comprei?

O dia ainda estava relativamente claro, então nos dirigimos para a hauptbahnhof (estação central). Em 2007, quando saí da minha casa numa pequena ilha no canal da Mancha (entre a Inglaterra e a França) para viver por um ano na capital da Baixa Saxônia eu fiquei encantada com as grandes estações de trem centrais da Alemanha. O movimento é ininterrupto, pessoas chegando, pessoas indo, pessoas circulando, muitas lojas, galerias, restaurantes, cinema, etc. É como se fosse um shopping center, com a conveniência de ter todos os meios de transporte disponíveis para a galera ali mesmo. Batendo o tédio num dia frio/chuvoso e você com fome, querendo comprar um livro, um casaco, assistir um filme ou simplesmente sentar com uma cerveja na mão e ver a vida literalmente passar, you could do a lot worse than just walking to the station. Muitas vezes os supermercados dentro das estações eram os únicos abertos em certos horários no fim de semana.

Depois fomos jantar no Piazza Cappuccino (minha sugestão), um italiano pequenino e muito bom em Lister Meile, quase ao lado do apartamento onde morei. O staff é gente boa e você só é estranho ali uma vez; se voltar uma segunda, vira parte da família. Gotta love italians. ♥

Juro que isso aí não foi uma tentativa de “foto artística da fachada”; foi apenas a combinação foto noturna de celular + tempo chuvoso (porque ela obviamente desabou quando estávamos saindo).

Depois de uma noite mediocremente dormida (não sei lidar com um travesseiro só; desculpa, sociedade) acordei e fui checar o café da manhã. O desjejum dos hóspedes rolava no conservatório, que ficava um pouco abaixo do nível do pátio e eu pude curtir a luz matinal e as azaléas no pequeno jardim.

Tentando ser o mais low carb possível: sausages + ovos mexidos + frios + esse potinho de patê que, na impossibilidade de torradas, eu comi de colherzinha, mesmo. Tarra bão.

Saí pra passear pela cidade e foi aí que as coisas começaram a dar errado. A minha câmera não quis ligar e as suspeitas recaíram sobre bateria. Ou seja, sem a menor possibilidade de fotos com zoom naquele dia. Andei até a estação e me encaminhei à McPaper em busca de cadernos com folhas “quadriculadas” (?) ao invés de pautadas, que são meus preferidos e meio difíceis de achar no Reino Encantado. Enquanto fuçava, uma funcionária da loja me atrapalhava arrumando prateleiras compulsivamente. E ela parecia estar me seguindo; bastava eu mudar pra outra prateleira para que ela começasse a arrumar os produtos que eu estava olhando. Fiquei meio puta com aquilo, mandei um suspiro de uns 300 mil decibéis e me encaminhei ao caixa, no caminho pegando uns adesivos de frô e tacando na cestinha pra aproveitar a viagem. 

A mesma funcionária veio me atender. Meti alegremente o EC card, cartão de débito local que o marido havia me emprestado para usar durante a estadia - na Alemanha a maioria das lojas não aceita cartão de crédito, menos ainda internacionais; um pé no saco para turistas. Qual não foi minha surpresa quando a desinfeliz, depois de o cartão ter sido aprovado, pediu que eu ASSINASSE o recibo ao invés de digitar o PIN. Danou-se. Eu não me chamo Respectivo e nem sei falsificar a assinatura dele. Momento constrangimento. Eu até teria como explicar a situação, mas a moça obviamente não falava inglês e o meu alemão não dá para tanto. Dei de ombros e rabisquei qualquer coisa no recibo; em todos esses anos de consumidora compulsiva no Brasil e na Inglaterra nunca vi ninguém conferir.

Nunca tinha visto, né. Fuck.

A moça começa a agitar os braços e rosnar naquela língua miserável, que transforma até mesmo um “a senhora gostaria de um café com rosquinhas enquanto eu ligo para a polícia?” num palavrão mais cabeludo que as costas do Tony Ramos. Apenas fiz cara de Cleopátra repetindo sem parar “Eu não compreendo. Eu não falo alemão” em alemão e repetindo mentalmente “chama a polícia logo, minha filha, que meu tempo aqui é curto e talvez ELES saibam falar inglês…” Por fim ela deve ter se cansado, repetiu o mesmo suspiro que ouviu de mim (só que uns 300 mil decibéis mais alto) e grunhiu “THAT’S OK”.

Is that ok? OK! E eu fiz o quê? Eu ri, né. Peguei minha sacolinha, acenei pra platéia e saí de cena sem voltar pro bis. Minha querida vendedora: o dia em que eu roubar o cartão e o PIN de alguém para fazer compras pode ter certeza que eu vou entrar na Prada - e não numa papelaria de rodoviária pra gastar DEZ EUROS em adesivo, beijas.

(mentira, vou entrar em papelaria sim)

Inhaí, Ernst-August, tutu bem? Quanto tempo! Como vai o cavalo? O sistema bancário do seu país continua um cocô arcaico; vamos estar resolvendo isso?

Bom, obviamente eu ia ter que sacar dinheiro porque usar o cartão nas lojas estava fora de questão. Saquei e, agora cheia de munnies, saracoteei pelo centro; entrei em lojas de departamento (Kaufhoff e Karstadt), de produtos eletrônicos (Saturn), comprei um bilho labial da Labello sabor melancia na Rossmann, curti o sol frio de primavera e invejei as pessoas sentadas pelos bares, mesas nas calçadas, tomando café com bolo. Essa é uma das memórias mais bacanas que eu tenho de Hannover.

Galera super animada para a páscoa, inclusive:

Achei esses bichinhos uma graça e não sei por que não comprei os coelhinhos pequenos, que custavam cerca de 1.50 euros cada. Não que eu tenha filhos ou necessidade de decorar uma mesa de páscoa, mas what the hell, ano que vem eu poderia fazer isso para mim mesma. Acho bacana as pessoas aqui se darem ao trabalho de enfeitar a casa para essas ocasiões. No Brasil TUDO (seja carnaval, natal, páscoa, ano novo, aniversário ou casamento) se resume a piscina, churrasco e cerveja. Por um lado é econômico e democrático, mas acaba sendo também meio desinteressante…

Também achei (e quase comprei) essa camiseta na C&A:

Acho que a idéia era reproduzir text-speak para SEE YOU LATER - mas digamos que em português essa camiseta estaria, erm, aberta a novas interpretações…

Comprei mais uns cadernos e uma caneta e, meio chateada por não poder usar minha câmera para fotografar, voltei pro hotel. Fui escrever no planner com a caneta nova, uma Pilot Frixion 0.38mm, e ela imediatamente parou de funcionar. Fuck my life. Procurei o recibo para ir trocar na loja e descubro que foi JUSTAMENTE a parte de baixo daquele recibo (onde estava a data da compra) que eu havia rasgado pra limpar o bico sujo de lama do meu sapato. OLHA, MUN-RÁ. ZUERA TEM LIMITE, SEU FDP.

Fiquei com tanto ódio que andei de volta à estação, tomei um sorvete de banana caramelada na Coliseum e depois comprei um bolinho de limão (na DROGARIA, veja bem), trouxe pro hotel e comi inteiro. Combatendo frustração com carboidrato: sempre. ♥

Chegando no BroyanHaus, em Altstadt (old town) para jantar. O sol estava se pondo e a luz do fim de tarde às vezes tem uma qualidade diferente, meio mágica, quase fora desse mundo. Acho que o cenário ajuda, no entanto.

O Broyan Haus (“a casa do Broyan”) é um restaurante de comida típica alemã; um pub funciona na parte de baixo do que era de fato a casa do Broyan (um mestre cervejeiro, que confeccionava a birita ali mesmo) e alguns degraus acima você viaja no tempo ao encontrar um espacinho aconchegante - não apenas por ser pequeno - e com jeitão de estalagem da idade média. Tanto a cerveja quanto a comida são muito boas, o preço é super amigo e você vai realmente se sentir na Alemanha.

Havia um grupo de senhoras numa mesa enorme, possivelmente celebrando um aniversário, que praticamente secou os barris de cerveja do restaurante. Prost! (“saúde”, em alemão)

Pedi o spanferkel (leitão com molho de cerveja preta) acompanhado de chucrute (que é uma comida polêmica; se for mal feito tem gosto de vinagre e se for bem feito, como esse, tem gosto de PARAÍSO) e batatas fritas na panela ao invés de deep-fried (bratkartoffeln) com o luxuoso acompanhamento de floquinhos de bacon. Ah, tem floquinhos de bacon no chucrute, também. Tem floquinhos de bacon em tudo. ♥

Saí de lá e, mesmo sem muito espaço sobrando, fui matar a saudade do cappuccino do ExtraBlatt. Continua perfeito e ainda acompanhado daquele biscoitinho desgraçadamente viciante. Confesso que cogitei pedir outro café só pra ganhar mais um biscoito; admito já ter feito isso no passado, mas dessa vez me contive. Voltei a pé para o hotel cruzando ruas semi-desertas, a luz na vitrine lojas fechadas, sensação de total segurança.

Eu realmente gosto de Hannover, mas quando morei lá ainda vivíamos em Jersey e, em comparação, a Alemanha me parecia o paraíso cosmopolita das compras. Depois de três anos de Londres full time eu achei as lojas um tanto menos excitantes e a cidade menor - mas ainda bonita, civilizada, as ruas agradáveis e não tão superlotadas quanto aqui; os preços continuam justos e a comida excelente. Chorei na Butlers querendo levar tudo pra casa e esqueci completamente de ir passear na galeria nova que abriu no centro, perto da estação; mas well, eu voltarei. O único inconveniente continua sendo aquela chateação de sempre com o cartão de crédito. Enfim. Nada (ninguém e nenhum lugar) é 100% perfeito.

No dia seguinte fiz algo que me esqueci de fazer durante todo o ano de 2007: uma foto-de-turista diante do cavalo do rei Ernst-Augustus. :) E depois de um mini passeio já era hora de pegar a estrada de novo para Bruges.

See ya, Hannover. Se tudo der certo estarei de volta no outono para ver o Eilenriede mudar de cor novamente.
You’ll always have place in my little hardened heart. ♥

We can beat genetics, adopting new aesthetics

Eu uso, sim. Mas não gosto muito de maquiagem. Não curto me sentir obrigada a melhorar o meu aspecto para o mundo, porque quase sempre acho que o mundo não vale o esforço e me ressinto por me esforçar assim mesmo. Não tenho prazer em perder aqueles 10 minutinhos antes de sair de casa tentando photoshopar a minha cara com BB cream e corretivo. Não tenho prazer em gastar dinheiro com maquiagem, nem mesmo quando a embalagem é bonita - tenho algumas sim, mas felizmente maquiagem de farmácia aqui é top quality e baratinha. Não me acho special snowflake ou melhor do que ninguém por conta disso, mas também não compro totalmente o discurso de que “não tem nada a ver com opressão e mito da beleza, uso maquiagem porque gosto” quando na verdade o truque do sistema é justamente nos fazer acreditar que gostamos para não questionar as suas estruturas. Não há nada de errado em querer apresentar a sua melhor versão para o mundo, mas saber que por ser mulher eu sou mais julgada pela minha aparência que um homem (que só precisa estar limpo para estar na sua melhor versão) eu não consigo evitar um certo ressentimento.

Esse é o cantinho bonitinho onde eu tento me consertar antes de sair de casa. Esse é o espelho que recebe a minha versão em rascunho e assiste à transformação (não muito radical, diga-se) na versão arte-finalizada, com menos olheiras, manchas de sol, com cílios mais longos e bochechas coradas. Me sento diante dele eu mesma e me levanto vagamente impostora. E gostaria de não me importar em agradar a uma platéia que na maioria das vezes nem estará prestando atenção, mas me importo. Então, que pelo menos, o teatro seja agradável. E o batom bonitinho. :)

Like a glow worm in a jar

Meio dia, two brown girls and a white boy pelas ruas de London City, o coração cinza pulsante do centro financeiro. Rapazes de gravata e gel no cabelo esbarrando em loiras high maintenance de terninho e tênis que atravessam a rua ignorando o sinal aberto para os carros. As mechas no cabelo da moça parada em frente à estação segurando um copo de café do Starbucks devem ter custado uma fortuna para parecer tão naturais. Os rapazes andam quase sempre em dupla. “Eles são mórmons?” brinca uma menina; a outra até tenta rir, mas está preocupada porque o céu escurece, vai chover, já está chovendo e ela não trouxe o guarda chuva. As moças andam de mãos dadas, embora uma delas não goste (mas não reclama). O rapaz cantarola uma música antiga, as mãos enfiadas no bolso do sobretudo de onde um fone de ouvido tenta escapar. Uma das meninas é bonita; a outra às vezes gostaria de ser invisível. Ela acredita que está se tornando cada vez mais cinza, mimetizando com a cidade e talvez em alguns anos finalmente atinja seu objetivo.

O sol fraco faz o que pode para atravessar as nuvens ainda pesadas depois de uma chuva breve, mas que trouxe granizo. A luz reflete nos cabelos longos e escuros das meninas e ele faz uma observação qualquer a respeito. Uma delas sorri, a outra finge que não ouviu. Olha para o chão e compara os sapatos, ela tem essa mania esquisita de observar sapatos mesmo não sendo nem de longe uma shoeholic (ou fetichista). A idéia de comprar um par de chelsea boots de camurça preta e sem salto surge no horizonte. E meias novas, porque essas já demonstram as muitas lavagens descuidadas a que foram submetidas.

A maldita chuva, como se revigorada pela pausa, retorna mais forte. O trio busca abrigo dentro de uma filial da Carphone Warehouse às moscas onde fingem examinar celulares e tablets, sendo seguidos em silêncio pelo olhar de meia dúzia de vendedores morrendo em pé de tanto tédio. Quinze minutos e o clima concede outra trégua; os três saem à procura de um lugar para sentar e acham um café em frente a um mercadinho de rua, staff polonês sorridente, onde pegam mesa na calçada e ele pede um flat white. Uma menina pede um caramel latte, a outra pede um americano e suspira em silêncio pelas quiches na vitrine. Em meio à conversa os três descobrem uma improvável admiração coletiva pela obra da Nika Costa.

No ônibus para New Cross há ossos de galinha espalhados pelo chão. O modus operandi da galera local é adentrar o coletivo futucando as caixinhas de frango frito e ir cuspindo os restos. Classy. Na lateral de outro ônibus há um anúncio de delivery de comida indiana chamado “tikka to ride” e o trocadilho é desculpa para risadas e piadas de baixo calão (que seriam reproduzidas nesses parênteses mas a idéia foi descartada). O ônibus percorre ruas estreitas, stop-and-start, stop-and-start, a cada 50 metros mais um restaurante de comida orgânica para os city boys (“cash rich, time poor”) preocupados com a saúde e com a procedência das folhinhas de rúcula. À medida que a cidade fica para trás as entranhas do subúrbio se abrem, as ruas vão ficando mais largas, o trânsito menos denso; o ônibus flui em linha reta. Uma das meninas tem um deja vu nostálgico de uma época onde os ônibus disparavam pelas vias expressas de uma outra cidade onde se podia empurrar o vidro da janela e deixar o vento bater no rosto. Aqui as janelas são enormes, mas não abrem.

Entram num supermercado porque elas precisam de banheiro. No espelho uma das meninas retoca o batom e passa a escova o cabelo, enquanto a outra checa a timeline do Instagram e evita o seu próprio reflexo. Na saída o menino aguarda examinando atentamente um bagulho qualquer na prateleira de papelaria. Uma das meninas vai olhar o que é, a outra aperta o braço dele de leve e sussura “don’t even think about it”. Ele sorri e sai caminhando enquanto joga casualmente o objeto no bolso. Uma das meninas prende a risada; a outra suspira. “Why you never do what I tell you?” ele responde “you are not my boss, lady” e uma das meninas ri e a outra odeia os dois um pouco. Saem do mercado rápido demais, se comportando de maneira vagamente suspeita mas nem eles, nem o segurança-parrudo-clichê de pé na saída se importam. Talvez eles nunca tenham crescido, na verdade; probably never will. Na lista de prioridades, crescer está acima apenas de morrer. Mas graças a eles a cidade assusta um pouco menos a cada dia.

Na volta retornam pelo mesmo mercado de rua, onde encontram um cachorrinho de três pernas saltitando alegremente pela calçada, onde as poças de água da chuva começam a secar mas ainda refletindo nesgas de céu cinza e prédios cinza no chão de cimento cinza. As cores que importam estão em outro lugar. Ele chama o cachorro de “cutest furry tripod”. Uma das meninas ri. A outra também.

burden and apathy

não cabe mais um sapo sequer na sua garganta, mas você engole assim mesmo o batráquio do dia e tenta manter o status de relacionamento, porque às vezes DEIXAR de ser amigo de alguém dá mais trabalho do que fingir que ainda é. todo um ritual de desvencilhamento quando há pessoas em comum, lugares em comum, quando a criatura já esticou tantos tentáculos pra dentro da sua vida que pensar em ter que sair tesourando um por um nos faz recuar com uma daquelas preguiças paralisantes, que  se manifestam diante de alguma tarefa hercúlea e ingrata que não vai proporcionar prazer algum além de um microscópico alívio no fim. os fins parecem não compensar os meios e aí eu apenas enfio metaforicamente a cabeça no vaso de novo, espero a raiva passar (sabendo que não vai passar, vai apenas ressecar e acumular por cima das raivas antigas, aumentando a crosta de ressentimento) e me torno cada vez mais fria, cada vez mais incapaz de relativizar e perdoar e entender.

e no fim aquela amizade fica ali, na última gaveta do armário do quartinho dos fundos como aquela blusa  que não combina com você, que já saiu de moda, que nunca coube direito, que está ocupando um espaço onde suas meias novas e quentinhas poderiam estar se espalhando e que você até desconfia que já usou pra limpar café derramado na mesa. a diferença é que essa pessoa vai ficando, pesando na bagagem por causa de uma conveniência incômoda e para poupar fadiga e stress. quanto à blusa, você até já  se esqueceu, mas foi embora com o lixo da semana passada.

come kinder and lighter, april.

for the price of a cup of tea you’d get a line of coke

peguei o metrô em stratford e desci em st. john’s wood para admirar o real state (ou seja, as casas). uma moça com cara de rica, rabo de cavalo castanho e leggings preta passeava um french bulldogue e me olhou ressabiada. subi até primrose hill, hipsters falando idiomas eslavos e monopolizando o alto (de onde se tem a melhor vista) enquanto tamborilavam as telas gigantescas dos seus samsungs. meu iphone 4s parecia positivamente antiquado em comparação. a ponta do the shard cintilava no horizonte.

desci, andei até chalk farm, considerei camden mas peguei o 27 para chiswick. passei por um cinema que exibia todos os filmes do oscar + the book thief (que eu ainda não assisti, mas preciso, nem que seja para falar mal - se bem que a crítica já está descascando por mim). comprei livros, inclusive dois pequeninos num antiquário LINDO na high street que me fez ter old books orgasms. 175 libras por uma edição de a cabana do pai tomás, que de tão bonita dava vontade de comer. deixei na prateleira. trouxe um livro babaca de ilustrações + christopher robin storybook (essa uma edição de 1963, cheia de rabiscos infantis e que foi obviamente muito amada) por duas libras cada + outros livros novos. peguei o 27 de novo para notting hill gate, mas desci antes porque queria comprar falafels.

ônibus são legais porque permitem que você veja a cidade, descubra lugares que não conhece e faça planos de voltar. uma pena, porque são muito, MUITO lentos. metrô é rápido e eficiente, uma necessidade em muitos casos, mas jamais me proporcionariam a visão do pequeno cemitério da igreja de st. mary abbots em kensington coberto de crocus desabrochando sob o sol de inverno. a viagem de volta dentro do latão subterrâneo é tediosa e levemente embaraçosa, e por algum motivo eu sempre acabo sentada na frente da única outra pessoa do vagão que não está lendo jornal ou batucando no celular. é desconfortável ficar evitando cruzar olhares ao mesmo tempo sabendo que a pessoa *vai* estar olhando para você quando você estiver olhando para o chão (analisando os sapatos dos outros passageiros), da mesma maneira que você fará com ela.