Pra que mentir, TPM?

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Eu sou leitora da TPM. Adoro a versão digital super linda e interativa (gratuita!) pra iPad. Prefiro ler uma matéria interessante sobre o que tem a dizer uma militante comunista torturada durante a ditadura ou uma filósofa desfazendo mitos sobre relacionamentos livres do que *mais uma* matéria com a Jennifer Lopez dizendo que perdeu o peso adquirido na gravidez correndo atrás dos gêmeos (but of course she did).

Só que essa capa me deixou com uma sensação meio ruim. Não é de hoje que eu percebo um certo esnobismo intelectual por parte da revista, uma tentativa de separar na marra o joio do trigo: mulheres que malham e se preocupam com a bunda e as que preferem ioga e se preocupam com o aquecimento global. Como se não fosse possível cuidar da bunda e destinar atenção para outras coisas também - e como se não estivesse clara a esnobada depreciativa (e bem pouco feminista) nas moças vaidosas e de interesses menos “elevados”. Enxergo um viés sutil de superioridade moral no discurso “não somos fúteis como essas outras revistas, somos o special snowflake do mercado editorial feminino brasileiro”. E aí cagam cinco quilos de regra sobre “auto aceitação” e “body positive” e na página seguinte a hipocrisia se revela em vários editoriais populados por modelos brancas e magras e matérias sobre como deixar o cabelo lisinho e dicas de maquiagem pra afinar o nariz. Sei que revista precisa vender coisas pra se manter, mas será que a única coisa que mulher compra é batom, roupa e shampoo? No fundo a TPM sabe que a aspiração das suas leitoras é a Luana Piovani, não a Gaby Amarantos (para citar duas capas recentes) e está chutando muito fraco para tentar descontruir essse padrão.

Fora que fica difícil me identificar com os estilos de vida retratados. Ok, ninguém quer “se inspirar” numa quitinete decorada de maneira burocrática nas casas Bahia, ou num guarda-roupas composto de jeans, camiseta e tênis. Mas por outro lado COMO se inspirar numa mansão de centenas de metros quadrados de área construída no meio de São Paulo, com arquitetura de Ruy Ohtake e jardins de Burle Marx (é, eles publicaram isso há um tempinho, a proprietária do imóvel pagando de simplona). Me inspirar como? Tentando fazer uma piscina olímpica caber no meu banheiro? Faça-me o favor. Sem mencionar as jornalistas free lance ou analistas de mídias sociais (profissões que soam cool mas que a gente sabe que não pagam lá essas coisas) viajando três vezes ao ano para o exterior e voltando com bolsas Balenciagas e pagando excesso de bagagem em forma de produtos da Sephora? Eu realmente perdi alguma coisa nessa história. Não sou o tipo de pessoa que lê revista ou blog para me deprimir, mas penso frequentemente que, se voltasse a morar no Brasil, jamais teria o mesmo padrão de vida luxuoso dessas pessoas, mesmo sendo tão capaz quanto elas.

Se a TPM realmente quer ser diferente das outras, que tal dar espaço a gente que não ganha tão bem, não herdou mansão do pai, mas teve a manha de decorar um apê simples de maneira bacana, com móveis reformados (lixa e tinta fazem milagres) e tecidos garimpados/reciclados? Gente que consegue se vestir bem fazendo um mix de Marisa, C&A, peças herdadas e costureiras de bairro? Nada contra mansões milionárias e guarda-roupas grifados, mas ficar *sempre* só no terreno do sonho entedia. Vez em quando é bom se inspirar com coisas que a gente pode alcançar. Vejo muito espaço sendo dado àquela colunista que reclama de tudo (escrevendo muito mal) e menos espaço para livros, filmes, novas bandas e matérias que fujam um pouco do padrão “assuntos de interesse feminino”. Pulo todos os tutoriais de maquiagem, todos os ensaios com os gostosos sem camisa (e para as leitoras que por acaso não têm interesse sexual em homens, tem o quê?), todas as matérias assinadas pela Nina Lemos e gostaria que revista descesse um minutinho desse pódio onde subiu sozinha e sem medalha, se olhasse no espelho e ou mudasse o discurso SOMOS UMA REVISTA FEMINISTA POR APOIAR A LEGALIZAÇÃO DO ABORTO (século 21, não fazem mais que a obrigação) ou, de fato, se propusesse a rever conceitos.

É, eu sei que é utopia. Que mentir (pra si mesmo, principalmente) é mais fácil. Então lá vamos nós. Mas, assim como o Cirilo, “eu só quis dizer”.

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