Jersey, Channel Islands (Part I)



Como não tem muito conteúdo porque só chove - quanta diferença da primavera passada, aquela ironia de um solzão infinito em pleno lockdown... - e eu me rendi à hibernação pois sou feita de açúcar e odeio sair under my umbrella, ella, ella, resolvi postar uma mini série com fotos inéditas (no blog)  + fatos interessantes de Jersey por aqui. Porque deu saudades e porque talvez seja o único lugar onde  seja possível pousar nesse verão 2021. E por falar em pouso: aí em cima temos o aeroporto e o antigo shed da finada Jersey Airlines que nos recepcionam na chegada.


Jersey é a maior das ilhas do Canal Britânico (118.2 km²) e fica a 22km da península de Cotentin na Normandia, França - bem mais perto da França do que da Inglaterra. Mede aproximadamente 14.5 km de leste a oeste e 8 km de norte a sul (9 X 5 milhas), daí o apelido fofo local de "nine by five". 


A ilha fazia parte originalmente do ducado da Normandia, cujos duques vieram a se tornar reis da Inglaterra. Quando o país perdeu a Normandia para a França no século XIII, Jersey decidiu se manter fiel à coroa britânica apesar de nunca ter se tornado parte do Reino Unido. O país é uma democracia parlamentar (sob monarquia constitucional, que assim como no UK não manda em nada) e tem governo, sistema financeiro, legal e judiciário próprios; o Reino Unido é responsável apenas pela defesa da ilha. O setor de finanças é o que mais gera renda: cerca de 40% do PIB.


Jersey é dividida em 12 regiões administrativas/vizinhanças, cada uma delas batizada de acordo com a paróquia local - daí o nome "parish" (minha casa, por exemplo, ficava no parish de Saint Martin). Tem 70km de litoral, 19 praias (de pedrinha, de areia, com dunas, que desaparecem com a maré alta e na maré baixa parecem uma paisagem lunar), uma infinidade de vales (Waterworks, Grands Vaux, Mont les Vaux, Le Mourier...), florestas e o ponto mais alto da ilha é Les Platons (136 metros acima do nível do mar).


A influência britânica é clara. O inglês é o idioma mais falado e a moeda é a libra esterlina - as cédulas e moedas de Jersey porém são diferentes e não são aceitas fora da ilha; já as libras britânicas são aceitas sem problemas. No trânsito a mão é inglesa (os carros dirigem pela esquerda) e Jersey tem acesso aos jornais e canais de televisão do Reino Unido. O currículo escolar também segue o padrão britânico e todo mundo finge que torce pela Inglaterra na copa. :) Mas a herança normanda/francesa ainda se mantém presente no nome das ruas, lugares e muitas casas (a minha se chamava Maison de La Palloterie), sem contar com a língua "oficial" (que quase ninguém mais fala), o Jèrriais (como definir? Parece francês, mas olha direito que não é).





Rozel Bay era a praia que ficava mais próxima de casa. Eu costumava descer até lá pelo Vale de Rozel (coberto de narcisos, magnólias, clematis e cerejeiras na primavera) até chegar na orla e sentar no Hungry Man (o café mais disputado da área) pra tomar um latte olhando o mar e jogando migalhas de muffin para os patos. Tinha um restaurante de frutos do mar maravilhoso ali chamado The Navigator, mas acho que fechou. O entorno do mar é pontilhado por casinhas e beach huts coloridos.



Paredão de suculentas florescendo em Rozel. Às vezes com a ilustre presença dos lagartinhos tomando sol.



Aqui funcionava o antigo abatedouro, que há alguns anos foi convertido num mini shopping - sem muito sucesso. Comércio não é o forte da ilha, porque não há habitantes o suficiente para que lojas grandes sejam viáveis. O povo costuma fazer compras online (Ebay, Amazon, etc. embora algumas lojas não enviem para as ilhas do Canal), passar o fim de semana no continente (Inglaterra ou França) enchendo o carro de cacarecos ou se virar com o que tem na ilha. E tem até bastante coisa; se você saiu de uma cidade pequena no Brasil ou na Europa vai se sentir no paraíso das compras, mas se veio de Londres ou outra grande metrópole pode ficar meio decepcionado.


A vantagem: Jersey não cobra taxa sobre consumo, então tudo o que se vende lá (ou que entra na ilha vindo do UK) custa 20% mais barato. Além disso também não cobra taxa extra sobre "luxury goods" como no Reino Unido, fazendo com que produtos como perfumes, cosméticos e acessórios de grife sejam  bem mais baratos que no continente - a alegria de turistas e moradores.




A paróquia de Saint Helier é a capital da ilha e principal área de comércio com vários cafés, restaurantes, lojas e áreas residenciais. Também é onde fica a rodoviária, para onde convergem todas as linhas de ônibus. Transporte público também não é exatamente abundante pois a maior parte das pessoas tem carro e nunca usam ônibus. A minha vizinhança era servida pela linha 03, que rodava a cada duas horas no verão - exceto domingos, quando havia zero ônibus. E se você quisesse ir a outro lugar que não o centro era preciso pegar um outro ônibus na rodoviária, mas dependendo dos horários talvez tivesse que esperar mais duas horas... Impraticável. Andar de táxi é possível, porém custa os olhos da cara (será que agora tem Uber em Jersey?).



Le Crapaud! A escultura em forma de sapo em homenagem ao simpático apelido que os franceses deram aos habitantes de Jersey. Costuma ser usada como ponto de encontro "te vejo às três no sapo!"


(continua!)


It's beginning to look a lot like Springtime







Forsítias e camélias já em fase de pico; cerejeiras e magnólias, quase lá.

Derby veio fazer uma visitinha; ele é o gato ruivo do vizinho, e uns tempos atrás parecia estar obcecado com a nossa casa. Depois descobrimos que os donos estavam viajando e ele estava apenas se sentindo solitário. ♥ He is SUCH a cutie; carinhoso, falastrão e sociável. Diesel obviamente o odeia, haha.

A few hours of Freedom.









Dia de inverno com sol azul, então teve mini road trip (segundo os protocolos do Covid não é permitido ainda se afastar muito de casa). Essa é a reserva de Hanningfield em Essex; estava fechada, claro, então nós apenas estacionamos na estrada e ficamos admirando os patos, galeirões, galinhas d'água, cisnes e outras aves aquáticas.  Também avistei as primeiras snowdrops do ano, tufos de delicadas flores branquinhas se espalhando à beira do caminho.


Na volta pelo centro de Brentwood avistamos um café Nero e obviamente tivemos que fazer um pit-stop por motivos de chocolate quente; eles fazem os melhores. Nem consigo lembrar da última vez que tomei um hot drink na rua! Incrível como coisas absolutamente normais se tornam especiais quando não podemos fazê-las. Estava delicioso e veio com gostinho extra de liberdade. ♥

Brief delights in the sun.


 
Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;
And all the clouds that lour'd upon our house
In the deep bosom of the ocean buried.


Quando, depois de muitos dias de chuva, a previsão é de céu limpo e algum sol, o britânico se sente no dever moral de pôr os pés para fora de casa; lockdown be damned. Sem descumprir nenhuma lei, nos dirigimos ao segundo parque mais próximo de casa (15 minutos de carro) a fim de esticar as pernas e absorver alguma vitamina D.











Hellebores (ou rosas de inverno), uma das raras flores dessa época do ano numa delicada prévia da primavera.



O parque tem uma colônia de vaquinhas (que ficam "guardadas" no inverno) e outra de cervos, que perambulam o ano inteiro a fim de bombar o instagram dos visitantes:







Fiquei intrigada com essas flores (?) secas e curiosa pra saber o aspecto que tinham antes:



E o passeio ainda me presenteou com essas jóias da natureza:







Mas apesar do bom tempo, ainda bem que eu fui de galochas. Dias e dias de chuva transformam a grama em pântano e o solo em lamaçal. No começo eu inocentemente tentava evitar a lama, mas logo vi que isso não seria possível. Apesar do medo de escorregar nesse patê e voltar pra casa banhada em barro, foi divertido.







E antes que o sol se escondesse atrás dos prédios de Canary Wharf, voltamos à clausura - mas com um pouco mais de oxigênio nos pulmões, vitamina D no sistema e esperança no coração. Espero que esse seja o último "winter of our discontent". E que um verão glorioso traga de volta a nossa liberdade.